
Entre pop, Detroit e excesso, Delcu constrói sets que desmontam a pista sem deixar ela parar de dançar.
Delcu não parece interessada em deixar a pista confortável por muito tempo. Pop, techno, ruído, melodias fofas, graves violentos e mudanças bruscas de direção convivem nos sets dela sem pedir muita permissão. Tudo parece prestes a sair do controle. Mas nunca sai completamente. Existe cálculo dentro da tensão. Mais do que criar impacto, Delcu parece interessada em entender até onde uma pista consegue ser deslocada sem perder o corpo coletivo. Em vez de trabalhar a partir de uma linha única, ela prefere misturar, quebrar expectativa, reconstruir energia e mover alguns centímetros do lugar esperado. O resultado é um som que ela mesma descreve como “meio fofo, meio violento”. Talvez porque seus sets funcionem exatamente nesse choque entre acolhimento e ruptura. A playlist “Sem Pedir Permissão” que acompanha a entrevista ajuda a entender esse percurso. Ela começa entre MPB, jazz, trip hop e indie, atravessa referências pop como M.I.A., Justice e Charli XCX até chegar ao techno de Detroit e a nomes fundamentais do underground eletrônico. Uma sequência que parece explicar, em música, como Delcu aprendeu a transformar mistura em identidade. Na conversa com o deepbeep, Delcu fala sobre excesso, expectativa, pista e sobre o prazer de desmontar tudo só para reconstruir de outro jeito alguns minutos depois.
Lísias Paiva, sócio-editor
Delcu, seus sets têm uma sensação de excesso, como se várias ideias estivessem acontecendo ao mesmo tempo e ainda assim funcionassem. Em que momento o caos deixa de ser risco e vira linguagem?
Eu não acho que o caos deixe de ser risco, ele só muda de lugar. Pra mim, ele vira linguagem quando eu aprendo a sustentar isso. Essa sensação de excesso tem muito a ver comigo, com a forma como penso. Então não enxergo isso apenas como uma escolha estética, mas quase estrutural. A pista vira um espaço onde posso testar isso na hora, ver até onde dá pra ir.
Você mistura coisas que muita gente manteria separadas. Em que momento você percebe que não precisa mais escolher um lado?
Nunca teve um momento. Pessoalmente, nunca fez sentido escolher um lado só, seja tocando ou produzindo. Eu gosto de muitas coisas e quero poder mostrar isso. Admiro muitos artistas que mantêm uma linha de som mais definida, mas os sets que mais me marcam são justamente os que misturam, quebram a pista e depois reconstroem tudo de um jeito inesperado. De alguma forma, são esses que continuam ressoando em mim muito tempo depois.
Você descreve seu som como algo meio fofo, meio violento. O que te interessa nessa contradição?
O momento em que uma coisa anula a expectativa da outra. Eu gosto do choque.
Tem muita pista hoje que responde rápido ao que já conhece. O que você faz quando percebe que pode ir para um caminho mais fácil, mas escolhe tensionar um pouco mais?
Eu sempre gostei de artistas que desafiam as expectativas do público. É isso que me interessa e acho que é exatamente nesse lugar que existe a criação mais genuína, quando você não tenta colocar o seu próximo passo sob a ótica do outro, porque isso te desloca de você mesmo. Claro que existem contextos e um dos meus principais trabalhos como DJ é ler o público, mas sinto que tensionar um pouco e levar para um lugar inesperado — que ainda faça sentido dentro do todo — faz com que a construção da volta para um lugar “confortável” fique ainda mais interessante.
Eu não quero confrontar a pista o tempo inteiro, mas gosto de brincar com as expectativas, mover alguns centímetros do lugar esperado. Acho que, se você estica demais, pode acabar rompendo. Se não estica nada, pode deixar as coisas meio planas. Então tento achar um meio-termo.
Se alguém tentasse organizar seu set em categorias, o que necessariamente ficaria de fora?
Tédio.
Depois de um set intenso, quando tudo para, o que ainda fica no seu corpo?
Energia acumulada e zumbido no ouvido.
Acompanhe o trabalho da Delcu
Delcu no Instagram
Delcu no TikTok
Delcu no Soundcloud
Ouça “Cumpromise” de Delcu
Foto por João Moura
Ouça a playlist de Delcu no seu player preferido
.
.
No deepbeep, a conversa começa com música.
Toda semana, novas histórias em forma de som. Assine a newsletter no rodapé.
Quer levar essa curadoria para a sua marca?
Fale com a gente: falecom@deepbeep.com.br