
Entre trilha, guitarra e silêncio, Lúcio Maia trabalha a música como atmosfera, não como demonstração.
Lúcio Maia nunca pareceu interessado em transformar virtuosismo em excesso. Mesmo quando a guitarra ocupa o centro, existe uma sensação de contenção, espaço e construção coletiva no jeito como ele pensa som, arranjo e presença. Depois de décadas atravessando diferentes formações, palcos e linguagens, Lúcio lançou em abril seu segundo disco solo, homônimo, um trabalho que reforça essa lógica menos ligada à demonstração técnica e mais interessada em atmosfera, dinâmica e escuta. Um disco que parece menos preocupado em preencher e mais atento ao que ainda pode respirar dentro da música. O lançamento ganha continuação ao vivo no show que acontece dia 2 de junho no Bona Casa de Música, em São Paulo, primeira apresentação construída a partir desse novo repertório. Na conversa com o deepbeep, Lúcio Maia fala sobre silêncio, improviso, maturação e sobre por que a música perde força quando tudo precisa acontecer rápido demais. A playlist que acompanha a entrevista ajuda a entender esse percurso entre textura, repetição e tensão.
Lísias Paiva, sócio-editor
Depois de tantos anos construindo som dentro de bandas, o que muda quando você se escuta sozinho de verdade?
Já desde 2005 tenho o hábito de compor sozinho, então não é novidade para eu trabalhar sem parceria. Consegui compor todos os temas e depois convidei Rafael Cunha e Marcos Gerez. Eles colocaram a mão deles, também são autores das músicas. As coisas ganharam outra cara por causa da presença artística deles, então não sinto muita falta de compor em grupo. Eu gosto de trabalhar sozinho.
Esse novo disco não parece feito para explicar nada, mas para criar atmosfera. Em que momento o instrumento deixou de ser centro e passou a ser mais um elemento?
Acho que é uma questão de interpretação. Para mim, o disco é muito revelador e tem muitos significados. Atingi uma maturidade musical e de vivência que está registrada nele. O meu instrumento não precisa necessariamente estar no centro para se destacar. Música, para mim, é para ser ouvida e, se puder, dançada também.
A música instrumental muitas vezes vira demonstração. Em que momento você percebe que já mostrou o suficiente?
Se você se refere a virtuosismo, escalas e teoria musical, isso nunca foi o meu foco. Faço músicas para as pessoas curtirem e se sentirem bem.
As faixas têm algo de trilha imaginária, quase cenas que não existem. Quando você compõe, você está pensando em música ou em imagens?
Sempre trabalhei com trilha sonora desde o início. Fiz muitos filmes, documentários e séries, e tudo isso faz parte do meu repertório. Penso em música o tempo inteiro, não só quando estou compondo. Não tenho essa relação de pensar em uma coisa ou em outra. Eu apenas pego minha guitarra e saio tocando.
Tem som que cresce com o tempo e tem som que se esgota rápido. O que você escuta para saber a diferença?
Acredito que existe música boa e música ruim. A diferença entre uma coisa e outra está nas pessoas que fazem.
Você saiu de um lugar onde a música tinha urgência coletiva e entrou num território mais introspectivo. O que ficou mais difícil nesse caminho?
Meu primeiro disco solo é de 2007, então não comecei a fazer música sozinho agora. Não tenho nenhum problema em compor sozinho ou em grupo.
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Fotos por João Liberato
Agradecimentos ao Valtinho Fragoso da ForMusic
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