
No Gop Tun Festival, o Pista Quente constrói o set pela forma como as faixas se encostam, não pelo que elas são.
Pista Quente leva a escuta de casa pra pista. O que eles fazem começa antes, no tempo de escuta que não precisa funcionar na hora. Disco guardado, faixa esquecida, conexão que não precisa explicar nada nos primeiros segundos. Quando isso chega na cabine, o set muda de lógica. A seleção não entra para responder. Entra para construir. Nem tudo ali foi feito para pista. E isso não é um problema. É o que abre espaço. O que sustenta não é o gênero nem o reconhecimento imediato. É a forma como uma coisa encosta na outra e vai puxando o resto. Na Danceteria do Gop Tun Festival, onde tocam no domingo, dia 12, esse tipo de construção entra em um contexto que normalmente exige o contrário. Na série do deepbeep, os DJs Akin Deckard e Benjamin Sallum mostram como essa escuta vira decisão. A playlist “Do som de casa pro case de discos” segue o mesmo princípio. Não organiza. Expande.
Lísias Paiva, sócio-fundador

COMO NÃO DESPERDIÇAR A PISTA
▶︎ COORDENADAS
★ Quando e Onde: Pista Quente no domingo, 12/4 às 13h00 na Danceteria.
▶︎ PRESTE ATENÇÃO
★ Escolhe uma faixa e acompanha até a próxima. Não solta no meio. É na troca que o set aparece.
★ Quando entrar uma música que você não conhece, fica mais uma. Geralmente é ali que ela se encaixa.
★ Em vez de tentar entender o que está tocando, repara no que mudou. Nem sempre é o BPM.
★ Se uma sequência te pegar, tenta lembrar das duas anteriores. Spoiler: não foi só essa.
★ Quando o set virar de direção, não tenta voltar para o que estava antes. Segue o novo caminho.
★ Evita pular de percepção em percepção. Deixa uma ideia terminar antes de procurar a próxima.
★ E quando algo fizer muito sentido, segura mais um pouco. Normalmente ainda não acabou.
Quando vocês estão tocando juntos, existe um jogo constante de decisão em tempo real. Em que momento vocês percebem que precisam ceder e em que momento bancam a escolha até o fim?
B: Já faz alguns anos que tocamos juntos e aprendemos que, nesse jogo de decisões, é sempre bom ter uma carta na manga. Ceder, para nós, é se conformar com uma escolha simples, algo que raramente fazemos. Temos músicas do nosso repertório que eventualmente se repetem entre um set e outro, mas nunca da mesma forma. Não seguimos nenhum roteiro pré-estabelecido nas nossas apresentações, mas estamos sempre aprofundando nossa pesquisa e ampliando o repertório para que nossos sets se mantenham únicos e espontâneos.
O Pista Quente trabalha muito com contraste e surpresa, mas nunca parece aleatório. Quando vocês querem bagunçar a pista, o que precisa estar no lugar para que isso funcione?
A: Nosso duo nasceu desse lugar de contraste geracional, onde a presença do nosso público e dos nossos amigos sempre foi importante para trazer equilíbrio e unidade na nossa entrega musical. Em nossas festas, cada detalhe conta, da direção de arte e do tom de linguagem até o sistema de som e os locais escolhidos. No fim, tudo acaba sendo sobre as pessoas e a sensação de pertencimento que buscamos despertar nelas. A conexão com a nossa comunidade é o que faz a pista ferver e a festa acontecer.
Tocar em dupla também envolve tensão. Já houve momentos em que um de vocês achou que o outro levou o set longe demais? O que acontece ali na hora?
B: Estabelecer uma assinatura em um projeto tão amplo, que abrange tantos estilos musicais, não é uma tarefa fácil. Às vezes as coisas fogem do controle de forma proposital, mas a química que eu e o Akin temos sempre prevalece. Quando um inventa demais, o outro inventa em cima, e 99% das vezes dá tudo certo.
A: É por isso que buscamos desenvolver nossa identidade e estilo de discotecagem a partir dos pontos de encontro entre as nossas pesquisas e predileções musicais pessoais, enaltecendo nossas particularidades como parte de uma narrativa coletiva. É uma simbiose de diálogo que passa, antes de tudo, pelo exercício da escuta mútua, como em um jogo de pergunta e resposta. Quando um de nós lança uma bola curva, o outro rebate de forma complementar ou até contrastante, levando o set para um lugar de continuidade ou conclusão.
A pista às vezes pede o caminho mais fácil. O que faz vocês irem contra o senso comum, mesmo sabendo que pode não funcionar imediatamente?
B: O mais importante para entender um set do Pista Quente é o tempo de maturação. Quando se toca por seis horas ou mais, é crucial desenvolver uma narrativa contínua. Nós não ouvimos só hits ou músicas dançantes, e grande parte da nossa pesquisa busca um lugar de não obviedade, mesmo quando envolta em um certo ar de familiaridade. O diálogo que criamos com a pista é o reflexo da nossa sala de casa, das nossas vivências e da busca por novas direções musicais.
A: Acho que os caminhos de pista mais fáceis têm relação direta com memórias afetivas já constituídas, muitas vezes revisitadas até a exaustão. O que buscamos propor ao nosso público é a possibilidade de construir novas memórias, desbravar coletivamente diferentes lugares de escuta e fazer dessa experiência uma jornada enriquecedora, resgatando o prazer da descoberta e da expansão de interesses musicais.
Existe alguma música ou tipo de som que vocês evitam, mesmo sabendo que funcionaria com o público?
B: Não tem como tocarmos algo que não ouvimos. Somos 100% sinceros com a nossa pesquisa, seja por gênero, estilo ou BPM. Tudo tem o seu momento certo de entrega.
A: Acho importante reafirmar que o que prevalece é o contexto onde a nossa musicalidade se desenvolve, sempre buscando novos horizontes com propriedade musical, seja em um brunch, festa de rua, club, vernissage ou festival. Os discos que ouvimos em casa são os mesmos que tocamos na pista e, apesar da imensidão dos nossos gostos e interesses, nem tudo cabe nos nossos cases.
Vocês se apresentam no Gop Tun Festival 2026, com outra escala de público, espaço e distração. O que muda no jeito de vocês construírem esse equilíbrio entre controle e caos?
B: No domingo, abrimos o palco Danceteria, então seremos responsáveis por dar o tom da jornada do dia. Pesquisamos cada DJ que vai se apresentar depois de nós para entender como trazer o equilíbrio necessário para essa pista tão diversa e especial musicalmente.
A: Esta é a segunda vez que nos apresentamos no festival, após uma primeira aparição que foi parcialmente inviabilizada por uma chuva torrencial que danificou o palco minutos antes do nosso set. O que muda agora é a responsabilidade de abrir um palco, um misto de ansiedade e realização. Existe também a intenção de criar expectativas além do que normalmente se espera. Faça chuva ou sol, estamos prontos.
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Fotos de João Moura
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