A Olívia não trata a vida como trilha

A Olívia entrevista e playlist para o deepbeep

Entre rotina, ruído e urgência, A Olívia faz música que não acompanha a vida, interfere nela.

A Olívia não trata a música como fundo. O que eles escrevem não vem de observação distante nem de sentimento ensaiado. Vem de rotina, trabalho comum, deslocamento pela cidade, dias que acumulam mais do que resolvem. Isso muda o papel da música. Ela não acompanha. Interrompe, tensiona, às vezes incomoda. Não porque quer parecer relevante, mas porque nasce de um lugar onde as coisas ainda estão acontecendo. Em um cenário cada vez mais organizado para soar bem e rápido, a banda segue outro ritmo. Processo coletivo, agendas que não encaixam fácil, vidas que não cabem numa estética única. E isso aparece nas escolhas. Na palavra que não suaviza, no tema que não se resolve, no tipo de escuta que pede mais do que atenção superficial. Na conversa com o deepbeep, A Olívia fala sobre isso sem filtro. O que ainda atravessa, o que já virou ruído e o esforço de continuar se importando quando tudo pede o contrário. A playlist segue esse mesmo caminho. Um recorte do que ainda não aceita ser só fundo. Eles se apresentam no MIS, em São Paulo, no dia 17 de abril.

Lísias Paiva, sócio-fundador

Tem muita gente cantando sobre sentir coisas que não viveu. O que vocês ainda precisam viver para não virar só mais uma banda falando bonito?
Tenho muita dificuldade em cantar coisas que não vivi. O álbum Obrigado Por Perguntar traz reflexões de uma época em que trabalhei com Serviço de Atendimento ao Cliente em uma grande empresa de tecnologia. Toda aquela rotina insustentável, desde a porta da minha casa até o prédio glamouroso ao lado de um rio extremamente poluído, foi combustível para as composições. Literatura e cinema também são fontes importantes. O que ainda falta é viver mais dias de glória. Quero virar uma daquelas bandas que dizem que fizeram uma música durante uma turnê mundial na estrada. Isso já começa a acontecer em pequena escala, com músicas feitas entre shows no Rio, São Paulo e Belo Horizonte. A diversidade das cidades brasileiras ainda vai enriquecer muito o nosso processo criativo.

O algoritmo está nivelando tudo. Onde isso encosta em vocês e como evitam entrar nesse jogo?
Está tudo muito nivelado e competitivo. E o fato de sermos uma banda já torna tudo menos orgânico. O algoritmo favorece o individualismo e o conteúdo repetitivo. Ele pede estética padronizada, frequência constante. A gente mora em lugares diferentes, tem trabalhos paralelos, já é difícil juntar quatro músicos e seus equipamentos, imagina encaixar isso numa lógica de conteúdo. O caminho tem sido mostrar bastidores, processo criativo, falar do que a gente escuta e faz.

O que ainda atravessa vocês e o que já virou só barulho?
Tudo atravessa, inclusive o barulho. Por isso, é tão importante estar atento ao que se consome. As coisas deixam de tocar quando a gente para de se importar. Como diz o hino punk da Cólera, “Eu Me Importo”. Para mim, se importar é metade do trabalho.

Quando uma música de vocês realmente incomoda e não só acompanha? 
O rock ainda é confronto, mas a música acabou virando trilha de fundo em muitos casos. Eu não gosto muito da ideia de “trilha sonora da minha vida”, porque parece uma relação passiva. Como se a vida estivesse acontecendo e a música só estivesse ali. A Olívia é uma banda antipiloto automático. As letras saltam, seja pela escolha de palavras ou temas. Nosso termômetro são as mensagens. “Essa música mudou meu dia”, “fiz uma tattoo com a sua letra” ou “me faz sentir algo que não sei explicar”.

Quando ninguém espera nada de vocês, o que vocês escutam?
Tem de tudo. Rock progressivo, MPB, pop, punk rock. Eu estou numa fase mais reggae. Se formos montar uma lista, vai ter literalmente de tudo. Até música para meditar.

Acompanhe o trabalho da A Olívia
A Olívia no Instagram
A Olívia no YouTube
A Olívia no Spotify

Fotos por Marcio Balthazar e Bru Denegri

Agradecimentos ao Valtinho Fragoso da ForMusic

Ouça a playlist da A Olívia no seu player preferido

.


.

No deepbeep, a conversa começa com música.
Toda semana, novas histórias em forma de som. Assine a newsletter no rodapé.

Quer levar essa curadoria para a sua marca?
Fale com a gente: falecom@deepbeep.com.br

Ouça também