Hiran não suaviza o que o rap ainda rejeita

Hiran em entrevista e cria playlist para o deepbeep

O novo disco “IMUNDO” de Hiran expõe o que o rap ainda evita encarar. A reação deixa isso explícito.

Hiran nunca teve dificuldade em falar o que sente. Durante muito tempo, isso veio no impulso, sem filtro e sem cálculo. E isso cobrou um preço. Com o tempo, esse lugar mudou. Hoje, antes de qualquer projeto, vem a proteção. Estabilidade mental, física, financeira. Não como recuo, mas como condição para continuar criando com mais consistência. Esse ajuste reorganiza o processo. O que entra, o que fica, o que não precisa mais ser dito. “IMUNDO” nasce nesse ponto. Mais estruturado, mas sem suavizar. O disco expõe camadas que o rap ainda prefere contornar. E a reação deixa isso evidente. Os ataques homofóbicos que acompanham o lançamento não aparecem por acaso. Eles fazem parte do que o trabalho está enfrentando. O que está ali não termina na música. Parte do trabalho agora é sustentar isso sem tentar corrigir tudo. Na conversa com o deepbeep, Hiran fala sobre esse equilíbrio. O que ele passou a proteger, o que ainda deixa aberto e como mantém a intensidade sem se expor do mesmo jeito. A playlist “O Som Que Não Pede Licença” acompanha esse momento. Um recorte que sustenta esse corpo em movimento.

Marcelo Nassif, sócio-editor

Hiran, a sua música sempre parte de um lugar de afirmação muito direto. Em que momento falar vira também uma forma de se proteger?
Eu acho que nunca refleti sobre isso, e isso me custou caro. Hoje eu entendo esse lugar de proteção, mas por muito tempo eu só fui no impulso de falar o que estava sentindo e expor as partes mais internas e intensas do meu eu. Agora estou ciente e estou no comando de tudo. A proteção da minha estabilidade mental, financeira e física é o princípio do início dos meus projetos.

Você constrói imagem, som e corpo como uma coisa só. O que você faz questão de controlar e o que deixa escapar?
Eu vejo a necessidade de mostrar para as pessoas pelo menos um pouco do que estou sentindo quando escrevo as músicas. O visual é necessário para que eu mesmo sinta que entreguei algo que possa ser entendido e sentido o mais próximo possível da sua totalidade. O que escapa é que a gente nunca sabe como as pessoas vão interpretar o que foi lançado, porque cada um tem o seu ponto de vista.

Existe uma diferença entre ocupar espaço e ser absorvido por ele. Como você percebe quando um discurso começa a ser neutralizado?
Quando todo mundo diz que você é bom o suficiente, mas não te dá as oportunidades, quem pode, de ocupar espaços e acessar plataformas que te projetem. Foi o que o rap fez comigo. Por isso esperei até agora, quando me senti pronto, tranquilo comigo mesmo e seguro da minha estabilidade, para lançar esse projeto.

Tem alguma música que te coloca exatamente no lugar em que você escreve? O que ela faz no seu corpo?
Todas. Eu só consigo escrever sobre o que eu vivo. Não consigo falar na terceira pessoa. São minhas experiências que me guiam. Minhas músicas são desabafos, gritos, vislumbres, sonhos e desejos. Eu revisito tudo isso quando canto. É como se estivesse escrevendo de novo toda vez.

Você trabalha com intensidade o tempo todo. Onde entra o prazer nisso?
Durante muito tempo eu não saberia responder. Hoje eu sei que poder viver de música, cuidar da minha família, ter saído do interior e chegado onde cheguei é uma bênção. Precisa existir prazer em cada momento. Aprendi a valorizar os pequenos detalhes. Hoje sinto prazer em cada etapa, mesmo quando é intenso e cansativo.

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Fotos por Pedro Ommã

Agradecimentos ao Carllos da Play Comunicação Artística

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