Flávia Durante lê o que a pista ainda não nomeou

Flávia durante em entrevista e playlist para o deepbeep

Flávia Durante lê comportamento na pista. O que aparece ali ainda não tem nome.

Flávia Durante não espera tendência. Quando vira tendência, já passou. O que interessa aparece antes, na pista, ainda sem nome e sem validação. Ali, a música não ilustra nada. Organiza comportamento. Define como as pessoas chegam, se vestem, se encostam, ocupam o espaço. Sua escuta atravessa circuitos que não pedem autorização. América Latina, Ásia Ocidental, Norte da África. Não como repertório, mas como operação de pista. O que surge desse cruzamento não é novidade. É deslocamento. A pista muda de eixo. O pertencimento pesa mais do que a busca por aprovação. Ela insiste em contexto. Em saber de onde vem cada som. Em manter uma linha quando tudo pede resposta rápida. A pista como lugar de descoberta, não de confirmação. Na conversa com o deepbeep, Flávia fala sobre esse processo. O que muda quando o padrão corporal deixa de organizar o espaço. Como a curadoria altera relações ali dentro. A playlist “A Frequência da Pista” acompanha essa leitura. Um recorte que mostra como um set sustenta tempo coletivo, cria clima e faz alguém se sentir parte.

Lísias Paiva, sócio-fundador

A pista de dança sempre funcionou como um radar cultural. O que você enxerga primeiro ali que ainda não foi nomeado?
A pista começa a cansar de certas fórmulas, principalmente o pop anglo-hegemônico, e abre espaço para outras geografias sonoras. Também percebo uma busca maior por pertencimento do que por hype. As pessoas querem se reconhecer na pista, não só performar nela.

Você circula entre jornalismo, curadoria e produção. Em que momento a música deixa de ser conteúdo e passa a organizar comportamento?
Quando define como as pessoas se vestem, se movem, se relacionam e ocupam o espaço. Isso acontece muito na pista. Um conceito de festa ou um set bem construído muda a energia coletiva, altera dinâmicas sociais e cria microcomunidades temporárias. Sinto isso no Baile do Bowie. O público passa o ano inteiro pensando no look da próxima edição.

A cultura pop acelera e descarta tudo rápido. O que você insiste em manter quando o resto já perdeu função?
Contexto. Contar de onde vem aquele som, construir narrativa. A velocidade esvazia significado, então manter uma linha curatorial consistente vira quase um gesto político, mesmo sem retorno financeiro imediato. Também insisto na pista como espaço de descoberta. Nem tudo precisa ser instantâneo. O mais difícil é o timing. Toco música latina urbana há 17 anos e só recentemente isso ganhou escala.

A Pop Plus muda quem pode ocupar certos espaços. O que a pista revela quando o padrão corporal deixa de ser regra?
A energia muda completamente. As pessoas dançam de verdade, ocupam o espaço sem pedir desculpa, experimentam mais. A estética se expande no corpo, na roupa, na atitude. A pista fica mais viva, mais criativa e mais política, mesmo sem se declarar assim. Não separo essas camadas. DJ, produtora, ativista. Tudo acontece junto.

Você constrói ambientes em que música, roupa e presença se influenciam. Quando isso funciona, o que muda?
As pessoas deixam de ser espectadoras e passam a ser parte ativa. Se montam mais, se permitem mais, interagem mais. A barreira entre palco e pista desaparece. Todo mundo vira parte da experiência. E isso gera senso real de comunidade.

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Fotos por Bruna Nascimento

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