Linda Green complica quando a pista fica fácil

Linda Green cria playlist para deepbeep

A DJ Linda Green desconfia do que funciona rápido demais. Prefere tensionar a pista a deixá-la no automático.

Linda Green não confia na pista quando ela fica confortável rápido demais. Quando o groove encaixa fácil, ela desloca. Muda o clima, segura a resolução, cria um pequeno atrito. Não para provar algo. Para evitar que a noite vire piloto automático. O método vem de origem menos óbvia do que parece. Brasília, pouca oferta, muita circulação. Quem queria sair com frequência aprendia a atravessar gêneros sem pedir licença. Samba, forró, indie, eletrônico. Não como fase, mas como acúmulo. Esse repertório aparece hoje na cabine como instinto. Uma leitura de pista que não busca confirmação busca atenção. Ao longo do tempo, o gesto ficou mais preciso. Menos ruptura gratuita, mais controle de tensão. Ela já esticou a corda até esvaziar a pista. Hoje trabalha no limite oposto. Complicar sem expulsar. Desviar sem perder o corpo coletivo. Essa lógica não fica só na cabine. Aparece também no que ela escuta fora dela. Uma relação com a música menos funcional e mais contínua, em que o play não serve só para tocar, mas para sustentar estado. No deepbeep, Linda fala sobre esse equilíbrio, sobre o que ainda faz alguém parar e escutar de verdade e compartilha a playlist Corpo em Trânsito que atravessa esse processo. Faixas que circulam entre pista e fone, sem hierarquia, guiadas por um único critério. Dá vontade de continuar ouvindo.

Marcelo Nassif, sócio-editor

Linda, o seu set não parece seguir estilos, parece seguir estados de espírito. Às vezes é quente, às vezes fica tenso, às vezes flerta com o pop e logo depois escurece de novo. Quando você muda de rota assim, o que está guiando essa virada, a pista, o seu humor ou uma vontade de provocar quem está ouvindo?
Vou começar essa resposta pela formação do meu gosto musical e do meu gosto por viver a noite. Eu morei quase a minha vida toda em Brasília, sempre gostei de sair e fui de muitas tribos. Tive fase de muita música brasileira, samba, forró, axé, rock (como todo brasiliense), reggae, frequentei muito o circuito de bandas independentes, fui indie. Eu frequentei todo tipo de festa e ouvi de tudo. Eu sinto que quem cresce em São Paulo tem mais possibilidades de frequentar apenas um nicho musical, enquanto quem é fervido em cidades menores tem menos opções e acaba sendo mais eclético se quiser sair todo dia (era o meu caso). Virei uma pesquisadora de música eletrônica depois dos 20, o que se somou a todo esse conhecimento que eu já tinha antes. Na hora de selecionar músicas que compõem meus sets, essa salada de gêneros está sempre junto comigo. Quando eu levo essa seleção para a pista de dança, normalmente eu penso que eu estou contando uma história com nuances, surpresas e diversas emoções, é mais sobre conseguir entreter e captar a atenção de quem está ouvindo e, logicamente, fazer dançar!

Tem DJ que joga seguro, tem DJ que gosta de esticar a corda. Você parece confortável em deixar a pista um pouco desconfortável antes de resolver a tensão. Como você sente o limite entre manter o groove e bagunçar o jogo só para ver o que acontece?
Vou dizer que eu já tive um gosto maior por esticar a corda, mas depois de arrebentar muitas vezes e esvaziar a pista, eu tenho sido mais contida dentro da proposta. Vejo como fases e momentos da expressão artística, às vezes existe uma vontade maior de experimentar e testar limites, no momento eu tenho buscado dar mais atenção para a conexão com as pessoas sem querer chocar muito.

Hoje todo mundo descobre música por recorte, por drop, por trend. Quando você está caçando som novo, o que ainda te faz parar e escutar até o fim, em vez de só salvar para talvez tocar um dia?
O que mais me move a descobrir música é a curiosidade e ela surge de vários contextos. É um trecho de uma música que eu ouvi no Uber e eu vou querer saber se é um sample, ou uma trilha sonora de seriado, ou ler história de algum movimento cultural, ou querer saber da vida de artistas (uma fofoqueira) e acabar me deparando com referências. Ultimamente eu tenho conhecido muita coisa pelo Tiktok e vou atrás de tentar entender por que aquela música se destacou. O humor do dia também me influencia muito, de vez em quando eu acordo inspirada a chafurdar o Bandcamp, o Discogs atrás de uma sonoridade específica que possa refletir como expressar um tipo de sentimento.

Nem toda música que a gente ama é música de pista. O que você escuta quando não está pensando em reação de público, quando o play é só para você e não para a cabine?
Eu escuto muita música brasileira em casa, também amo os hits dos anos 80 e Aviões do Forró, as antigas!

Quando a luz acende, o bar fecha e cada um vai para um lado, o que você gostaria que tivesse ficado no corpo das pessoas depois de um set seu, um refrão, um grave, uma sensação meio difícil de explicar?
Falando agora como público, é muito bom sentir que a pista de dança foi um lugar para extravasar, sair com o sentimento de que eu consegui me divertir, criei memórias e me conectei com a música. É isso que eu desejo para todo mundo, poder esquecer um pouquinho do estresse e sentir alegria.

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