
Nubya Garcia faz jazz pensando no corpo inteiro, não só na atenção de quem está escutando.
Existe uma diferença importante entre escutar jazz sentado e sentir o grave atravessar o corpo inteiro dentro de uma sala quente, pequena e barulhenta. O trabalho de Nubya Garcia parece nascer exatamente dessa tensão. Embora muita gente associe seu nome ao novo jazz londrino, o som de Nubya nunca veio daquela versão limpa, acadêmica e excessivamente organizada da cidade. Ele nasce de outro lugar: sound systems, dub, bass culture, improviso e pista de dança.
Talvez por isso seus shows dependam tanto de presença física. Quando a música encontra um espaço cru e vivo, ela muda completamente de comportamento. O grave ganha peso, o improviso ganha risco e a energia coletiva começa a interferir diretamente na direção do set. Nubya pensa performance quase como uma DJ pensa pista: observando tensão, pausa, respiração e movimento da sala em tempo real.
Essa lógica aparece também em Odyssey, disco que se recusa a funcionar apenas como consumo rápido. Em vez de acelerar para acompanhar a fragmentação da internet, Nubya parece interessada justamente no contrário: música que exige permanência, absorção e entrega completa do corpo. Não apenas como escolha estética, mas como reação silenciosa a um ambiente onde quase tudo disputa atenção imediata.
Existe ainda outra camada importante atravessando sua fala. Londres e São Paulo compartilham frequências parecidas: excesso urbano, diáspora, improviso, trânsito, graves altos e mistura constante de ritmos. Talvez por isso a relação dela com a percussão brasileira seja tão natural. Não como referência distante, mas como reconhecimento físico de uma pulsação que seu corpo parece já conhecer há muito tempo.
Na conversa com o deepbeep, Nubya Garcia fala sobre sound systems, improviso, bass culture, percussão brasileira e sobre por que o jazz voltou a respirar diferente quando encontrou novamente o subwoofer.
A playlist “Jazz to Make the Subwoofer Breathe” acompanha justamente essa lógica: faixas pensadas para fazer o chão vibrar, deslocar o ar da sala e devolver peso físico para a experiência de escuta.
Lísias Paiva, editor-fundador
Nubya, seu som nasce em Londres, mas não daquela versão higienizada e acadêmica da cidade. Ele vem do peso dos sound systems, do dub e da pista de dança. O que acontece com a sua música quando ela retorna a um espaço cru e vivo como o Matiz, onde a vibração bate no corpo e o suor é real?
Nesse tipo de espaço, minha música consegue ser verdadeiramente viva, crua e tão energética quanto o público que está ali. Eu amo que as pessoas se sintam livres para amar como quiserem e absorvam toda a energia e todas as vibrações. Para mim, é muito bonito compartilhar esse espaço com a audiência.
Além de saxofonista e compositora, você é uma seletora. Esse mindset de DJ — de ler a pista, gerenciar a energia e a tensão — muda a forma como você improvisa ao vivo? Ou esses dois modos criativos operam em lugares diferentes na sua cabeça?
Para mim, eles estão muito ligados. São a mesma coisa, apenas um pouco diferentes. Estou sempre observando e atenta às mudanças de energia na sala, pensando em qual direção precisamos ir: continuar pressionando ou ter um momento de pausa suave para recuperar o fôlego… Trata-se de equilíbrio no set e na jornada musical, tanto discotecando quanto improvisando.
Seu álbum Odyssey é uma obra que respira devagar e exige imersão. Em um mundo fragmentado de clipes de 15 segundos, o que significa lançar um corpo de trabalho que pede tempo? É uma escolha puramente estética ou é também um ato de resistência?
Que pergunta linda, e é algo em que penso frequentemente. Estamos tão consumidos por pequenos trechos e pela atenção curta. Precisamos realmente tomar mais tempo, pausar, absorver de verdade. Acho que é um ato de resistência para mim; eu escolho “fincar o pé” um pouco e fazer música devagar. A música merece isso.
Londres e São Paulo compartilham esse pulso caótico, diaspórico e imprevisível. O que o seu saxofone procura quando encontra o ritmo de uma nova cidade? Existe algo na percussão brasileira que fala a mesma língua das suas raízes no sound system?
Ah, com certeza. Eu passei bastante tempo no Brasil e ouvi muita percussão brasileira bonita e inspiradora que me atrai, quase como se meu corpo já a conhecesse de antes.
Entre o improviso, o silêncio e a sobrecarga de ruído digital, como você lida com sua própria “curadoria interna”? O que te ajuda a “resetar” os ouvidos e voltar para um espaço criativo verdadeiro?
Tirar um tempo para mim mesma, outras práticas criativas, rejuvenescer. Eu ouço muita música diferente. Estou sempre buscando um equilíbrio para esse estilo de vida.
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Acompanhe o trabalho de Nubya Garcia
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Ouça Odyssey de Nubya Garcia no seu player preferido
Agradecimentos: Tim Adams (On Agency)
Fotos: Mariana Pires
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Aqui no deepbeep, cada entrevista vira uma playlist. Cada playlist, um jeito novo de ouvir.
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