
A banda Vera Fischer Era Clubber disseca o glamour decadente do Rio de Janeiro e cruza o deboche existencial com a urgência do agora para implodir as regras da noite.
O Rio de Janeiro é um território onde o glamour e a decadência dividem a mesma mesa. A banda Vera Fischer Era Clubber extrai o próprio som desse atrito diário. Nascido no limite da pista de dança, o projeto descarta a etiqueta e transforma o deboche em arma de sobrevivência. Elas traduzem a rua com graves eletrônicos para escancarar a hipocrisia da classe artística e implodir qualquer traço de moralismo. Sentamos com o grupo para mapear como o hedonismo cru vira manifesto. A conversa ignora o verniz social e atinge direto a urgência de engolir o agora sem pedir desculpas. O resultado dessa fricção com o deepbeep segue abaixo na playlist exclusiva.
Lísias Paiva, editor-fundador
Vera Fischer Era Clubber é um nome que, por si só, já emana uma aura de glamour pop, noite e uma certa irreverência inteligente. No cotidiano da banda, como essa identidade única se traduz na forma como vocês criam suas músicas, suas letras e a persona que apresentam ao público?
Malu: Estamos apenas sendo nós mesmas e botando para jogo os barulhos das nossas cabeças.
Crystal: O nome da banda funciona por reverenciar um ícone carioca e um momento de cena noturna muito próprio do Rio. As letras descrevem uma vivência também atrelada a esse local específico, historicamente glamoroso e caótico. O Rio é uma cidade-personagem que tem vida própria e já tem em si uma carga semiótica de imagens e conceitos. O nome da banda resume e reúne algumas dessas imagens na persona da Vera Fischer, como essa pessoa que lembra sexo, unida a essa ideia de frequentadora de cena noturna, o que abre para esse outro lado de poética, o universo léxico da noite que conflui com muito do que é a poética do Rio. Também associada ao prazer e a determinado antro de perdição. O ponto é: o Rio é, de fato, todas essas coisas. É uma cidade onde a noite e seus valores proliferam, até durante o dia. As letras são narrativas infectadas, embriagadas por essa cidade de uma cultura pulsante, de flerte, de esperteza, onde erro e acerto andam de mãos dadas e, para o dia virar noite, basta parar na sombra. Ou seja, o nome da banda, Vera Fischer Era Clubber, na verdade, resume em uma tirada esse território onde todas nós nos conhecemos e que nos antecede — me refiro aqui tanto ao Rio quanto à cena noturna —, e que é plano de fundo das nossas histórias e daquelas sobre as quais nos debruçamos.
Vocês têm essa alquimia particular de unir a energia da pista eletrônica com letras que navegam entre o deboche sagaz e reflexões existenciais. Como funciona esse processo criativo para que esses dois mundos, aparentemente distintos, dancem juntos de forma tão coesa na música de vocês?
Pek0: Acredito que essa “alquimia” tenha se dado pelos anos de nossa amizade. Nós nos conhecemos há quase 10 anos e, nesse tempo, boa parte foi em torno da pista de dança. Frequentávamos as mesmas festas, dançávamos no front, indo e voltando juntas das festas. Dentro dessa amizade, criamos praticamente um linguajar próprio, em torno de gírias e muito deboche. Foi tudo muito natural: tanto a energia da pista quanto o deboche sempre correram nas nossas veias. Até mesmo antes de a gente se conhecer!
Vickluz: O processo conta com o empenho de todas para chegarmos nesse lugar. Somos muito apegadas às nossas referências e sempre temos uma ideia do que queremos tocar/cantar. Cada uma tem uma estética própria que, misturada, deu muito certo. Acredito que toda a sinergia tenha se dado, além dos anos de amizade, pelas habilidades de cada uma e as diferentes frentes que cada uma exerce fora da banda e, obviamente, um humor comum entre as integrantes foi fundamental para que as letras conversassem com o instrumental.
Malu: Somos muito amigas há muito tempo e vivemos muito a pista de dança juntas. Para mim, a principal alquimia nasce daí. O resto é experimentação.
Crystal: O deboche é uma postura de cunho existencial, pelo menos para mim. É um mecanismo para abordar o inabordável. Quanto mais incômodo o assunto, mais intrinsecamente irreverente é qualquer tipo de menção a ele. Portanto, embeber em irreverência e deboche temáticas em geral abordadas com excesso de moral, como uso de drogas ou desejos suicidas, é quase um recurso metalinguístico! Falar de um assunto proibido, ou seja, ser irreverente, e colocar para fora se utilizando de uma tática discursiva ela própria provocante, tal qual a temática. Essa, para mim, é a chave da magia que funde o conteúdo com a forma.
Qual é a inquietação contemporânea ou aquele tema da vida moderna (seja da noite, das relações, do ser no mundo) que vocês, como banda, mais sentem um impulso quase urgente de cutucar, questionar ou transformar em música com seu olhar ácido e dançante?
Vickluz: Acho que a hipocrisia da sociedade, principalmente da classe artística, de “esconder” o uso de drogas. Isso acaba dificultando o diálogo em torno do consumo e da dependência química. O AGORA.
Malu: Para mim, é sobre capturar momentos significativos de non-sense. Afinal, alguma coisa faz sentido?
Crystal: O que eu mais gosto de cutucar são as noções de certo e errado e a moral como um discurso frágil, um manual a não ser seguido. A vida é sobre escrever seu próprio conjunto de regras, fazer as coisas à sua própria maneira, pensar a cada passo e decidir, sem consultar expectativas externas ou receitas de bolo.
Se a entidade Vera Fischer Era Clubber tivesse uma trilha sonora complementar, que não fosse a própria música de vocês, que tipo de som, artista ou até mesmo referência cinematográfica capturaria essa mistura de ironia afiada, hedonismo de pista e um toque de melancolia existencial?
Malu: Gregg Araki, Björk, Paul B. Preciado, Rick Owens, David Lynch, The Cure, Georges Bataille, Ethel Cain, The Knife, Boy Harsher e Iggy Pop.
Crystal: O filme Party Monster, com certeza, estaria no meio dessa curadoria. Tangerine, do Sean Baker, Meninas Malvadas, especificamente O Erotismo, de Bataille, as poesias de Sylvia Plath, os diários de Anaïs Nin, Plainwater, da Anne Carson, e Autobiografia do Vermelho. Quando Ela Era Boa, de Philip Roth, o filme Pink Flamingos, Showgirls, A Gaia Ciência, de Nietzsche, e Edifício Master, do Coutinho, também como um bom retrato do Rio de Janeiro através de Copacabana…
No deepbeep, somos fãs de quem foge da manada e constrói universos sonoros próprios. De onde vêm as inspirações mais inesperadas ou inusitadas para a sonoridade e as letras da banda, talvez de fontes que o público nem imaginaria?
Vickluz: O pop da metade dos anos 2000 me/nos inspira muito! As músicas nessa época estavam explorando baterias eletrônicas, ritmos retos, um certo minimalismo nas batidas que me/nos encanta.
Malu: Azealia Banks, Charli XCX, A. G. Cook, Radiohead, funk em geral, mas principalmente carioca, tecnobrega em geral, TR/ST, Placebo, My Chemical Romance, Deftones, Ramones, Brutalismus 3000, Flora Matos, a diva horsegiirL, FKA twigs, viradas babadeiras de DJs…
Crystal: William Blake, Hilda Hilst, Anaïs Nin, Manoel de Barros, funk carioca, Fiona Apple, Cássia Eller, Maria Bethânia, Alcione, Lana Del Rey, Portishead, Nietzsche, Agamben, Bataille, Deleuze, Guattari, Bergson…
Qual é a faísca, a provocação ou a reflexão mais importante que vocês esperam acender no público que vai a um show ou mergulha nas músicas da Vera Fischer Era Clubber, para além do puro fervo?
Malu: Estamos vivos. Vamos viver!
Crystal: É tudo sobre a experiência. A nossa, a sua ao receber a nossa e fazendo dela sua, a que estamos tendo em conjunto no momento do show… É incrível, como artista e como pessoa, cavar fundo no buraco do peito para falar sobre o viver e depois proporcionar também um momento de vivências com o show, para que as pessoas dancem, se droguem, se beijem, se curtam e criem elas mesmas seus relatos e memórias.
Fotos: Filipe Braga e Hugstex
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