
O DJ e produtor Wavezim entrou para a seleção histórica da Resident Advisor e conta como o mormaço de Fortaleza virou estética global de pista.
A presença de Passinho Bolado na lista de melhores faixas dos últimos 25 anos da Resident Advisor não é apenas um prêmio individual. É a validação mundial de uma pesquisa que mistura a percussão suada do Nordeste com a precisão da música eletrônica global. Wavezim colocou Fortaleza no mapa definitivo do gênero, demonstrando que a identidade local viaja mais longe do que a mera cópia de tendências estrangeiras. Mas o reconhecimento internacional não alterou a temperatura do processo. O som continua operando na frequência do quarto quente onde o clima dita o ritmo e a imperfeição é bem-vinda. Nesta conversa ele desmonta a criação do álbum KALOR e explica como transforma a rotina da cidade em textura sonora feita para derreter na pista.
Lísias Paiva, editor-fundador
Você faz música que parece vir de dentro de um quarto quente. KALOR tem uma temperatura física quase tátil. Como esse clima de Fortaleza moldou a sua assinatura sonora? O calor virou estética, método ou só destino?
Quando comecei a produzir o álbum KALOR, ele ainda não tinha nome, mas eu tinha duas faixas, cada uma com estilos opostos. A primeira era a faixa RITMO que traz uma bateria quebrada e mais rápida com elementos percussivos, e a outra era VAI DJ (NÃO PARA) que tem um bpm mais baixo, e uma cadência mais espaçada nos elementos, porém as duas tinham uma conexão muito grande entre elas, talvez pelo clima quente e gingado que a referência do afrobeat nas duas trazem. Aos poucos fui percebendo esse caminho de narrativa pro projeto, que se tratava um pouco do que eu vivia nas festas de Fortaleza, onde ouvimos e dançamos vários gêneros numa mesma noite, do forró ao pop ou do reggae ao eletrônico. E conseguimos sentir uma conexão nisso tudo. Então surgiu o nome KALOR no meio do processo, e acredito que ele se tornou o caminho, o método.
Existe uma intimidade radical no jeito que você produz. Parece que você está no ouvido da gente, mas com um balanço que nunca é tímido. Como você chegou a esse ponto de equilíbrio entre o caseiro e o pop?
Acredito talvez que seja pelo meu método de produção. Faz 5 anos que comecei a produzir música e desde o início meu processo sempre foi muito experimental, de começar algo sem saber aonde vou chegar, mas aprendendo e observando no caminho. Até hoje faço isso e chego a resultados que muitas vezes eu nem esperava. A música eletrônica tem um vasto leque de gêneros globais, e é divertido quando você cai em um desses por acaso. No meu processo eu busco usar várias fontes de samples, de loops e timbres de diferentes gêneros. Neste álbum tem música que misturei uma linha de baixo meio Grime, com recortes de vocais de funk, em cima de uma bateria mais percussiva. Acho que isso faz eu ter um pé no experimental, que trago desde o início, mas com uma simpatia mais familiar ao ouvido de quem tá me escutando pela primeira vez, com um tempero extra de latinidade.
O deepbeep celebra o processo artesanal. Em um tempo de produções super limpas quantizadas e perfeitas no grid você escolhe manter a textura, o ruído e a sujeira boa. O que a imperfeição te oferece que a precisão digital não alcança?
Já vivemos em uma era digital, agora iniciamos a era da inteligência artificial inserida em diversos processos artísticos. Paralelo a isso, eu percebo que os processos orgânicos vão ser mais valorizados num futuro próximo, ou já são, como live performances, elementos gravados organicamente se misturando com o digital e por aí vai. Essa é minha aposta e o que eu venho buscando inserir no meu processo. Confesso que ainda sou muito refém da máquina, do warp, do quantize, mas há um tempo tento fugir um pouco disso, porque tudo que é único deixa a obra mais rica musicalmente, pode ser uma voz ou um instrumento gravado. Eu até construí um chocalho e comprei uma flauta, ambos de bambu, pra começar a criar texturas únicas nos meus sons. Vem aí quem sabe hahaa 🙂
Quando você constrói uma faixa, o que vem primeiro, o impulso do agora ou uma arquitetura mais pensada? Seu processo é mais de deixar o som escorrer ou de esculpir cada detalhe?
Os dois, eu acredito. Tem vezes que eu tô no banho ou lavando uma louça e vem uma melodia e estrutura na minha cabeça e eu abro o computador pra transformar aquela ideia em um rascunho, pra eu terminar ali mesmo ou guardar pra desenvolver melhor outro dia, pra eu não perder a inspiração. Mas há momentos também em que eu já abri o Ableton sem ideia do que fazer e saiu algo muito bom. Muitas das vezes sai algo muito ruim kkkk, mas algumas boas músicas minhas já nasceram desse método. Eu queria ser um pouco mais como o Djavan, que fala que gosta de “pão quentinho”, que seria sentar e compor ali na hora, sem ficar revisitando projetos antigos pra tentar deixar aquilo interessante, e sim deixar mais a inspiração do momento te levar para algum lugar. Sobre esculpir cada detalhe, é algo que eu queria muito trazer pro meu processo, de aperfeiçoar meu sound design, mas por conta do tempo mesmo eu ainda não consigo. Além da música, eu trabalho com audiovisual, então meu tempo pra música é algo muito otimizado, de tentar fazer o melhor possível, seja estudando e praticando, ou produzindo algo de fato, em um espaço curto de tempo, mas não fazer de qualquer jeito. Falo sobre rendimento mesmo, de aproveitar bem o tempo que eu tenho pra fazer música.
KALOR fala de afeto, mas também de derretimento. No fim o que você quer que fique no corpo de quem escuta o disco inteiro?
Todo momento do processo desse disco, vinha à minha mente a imagem de uma pele suada. A gente dança movido pelo calor do clima, acho que gostaria que isso aparecesse também na mente de quem escuta o disco. Na música que abre o disco eu gravei a minha voz cantando “Calor que faz suar, grave que te faz balançar” e quando pensei nesse verso, senti que ele traduzia e indicava a sensação que eu queria trazer pro álbum. Isso faz muito parte da nossa linguagem nordestina, cantamos e fazemos música sobre o nosso clima. Foi algo que eu tentei trazer na playlist desse nosso papo.
Enquanto finalizávamos esta conversa, saiu a lista da Resident Advisor com as melhores faixas dos últimos 25 anos e Passinho Bolado aparece ao lado de gigantes da história da música eletrônica mundial. Como você recebe a notícia de que uma produção feita com a textura e a identidade local do Ceará agora é oficialmente considerada um clássico global e atemporal?
Eu demorei um dia pra me associar, eu estava num Uber voltando de uma viagem e um colega me mandou uma DM dando a notícia. Enquanto eu via a playlist completa da lista, eu me deparava com tantos clássicos da música eletrônica que fizeram parte da minha infância e adolescência, que eu não conseguia acreditar naquilo.
Isso foi no meio de dezembro de 2025, então pra mim foi uma resposta de que todo meu trabalho feito até então tinha de certa forma uma importância para pessoas que escutam meu som. Quando eu iniciei na música, eu comecei porque sempre quis impactar a vida das pessoas de alguma forma através da arte, e minha paixão pela música foi o caminho que me encontrei pra isso. A música “Passinho Bolado” foi uma das músicas que eu senti que colocou meu nome no mapa global vamos assim dizer, por ela ter saído no “Chromies Vol.14” que é uma coletânea de Berlim, com vários outros produtores do mundo inteiro, ela teve um peso imenso na hora de ser recebida pelos DJs e público, esse formato de lançamento conhecido com Vários Artistas ajuda a impulsionar muitos nomes que estão começando como foi meu caso, dependendo de como e onde é feito. A partir dali eu percebi meu som sendo tocado por DJs influentes e em palcos do mundo inteiro, isso em 2023, e 2 anos depois recebo essa notícia com muita emoção e força pra continuar.
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Fotos por Jonas Amador
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