
A periferia deixa de ser tema e passa a operar como autora. Turmalina trata excelência travesti como método e não como exceção.
Turmalina não trabalha com representação. Trabalha com reposicionamento. A periferia deixa de ser assunto e passa a operar como autoria, decisão e construção de linguagem. À frente da PerifaCon e da Madre Produtora, ela articula criação e estrutura a partir do mesmo princípio. Abrir espaço não basta. É preciso redefinir quem determina o padrão. A ideia de Excelência Travesti surge desse movimento. Não como afirmação simbólica, mas como prática. Rigor, curadoria e entrega como referência, não como exceção tolerada. Em um ambiente cada vez mais mediado por algoritmo, ela insiste no encontro físico. No que não é previsto, no que não é recomendado, no que circula fora da lógica de repetição. Na conversa com o deepbeep, Turmalina fala sobre esse deslocamento. Quem cria, quem valida e o que ainda pode surgir quando o controle diminui. A playlist Madre Celebration acompanha essa visão. Uma seleção que nasce do encontro e não da previsão.
Lísias Paiva, editor-fundador
Turmalina, você é a fundadora da PerifaCon e CEO da Madre Produtora. Como essas duas forças, a da criadora que inventa mundos e a da empreendedora que os torna possíveis, se alimentam no seu cotidiano?
Criar pontes que conectam e geram oportunidades para quem está fora do espectro da hegemonia faz parte do meu DNA como empreendedora. A relação entre a PerifaCon e a MADRE Produtora nasce exatamente dessa chave, a de desbravar espaços que, muitas vezes, são negados a pessoas LGBTQIAPN+, racializadas e de periferia.
Sua assinatura é inverter o mapa, levar o centro para as bordas. O que muda na cultura quando a periferia deixa de ser tema e passa a ser autora, palco e protagonista da própria narrativa?
A cultura ganha em verdade, diversidade e complexidade. Isso porque não se trata mais de uma representação filtrada pelo olhar de fora, mas de narrativas construídas a partir da experiência de quem vive essas realidades. Há muito tempo os movimentos underground são os verdadeiros motores de inovação que depois alimentam o mainstream, especialmente na música. O exemplo mais evidente é o funk, que nasceu nas comunidades e vem ecoando nos maiores festivais do mundo, tornando-se referência global, mas, ainda assim, segue estigmatizado quando ressoa nas favelas e pelas vozes de quem, de fato, constrói o gênero.
O seu trabalho é focado em encontro e corpo presente. Como você enxerga o poder de criar comunidade no físico em um tempo em que o virtual parece sufocar tudo?
Enxergo nisso a retomada do inesperado e do poder de se surpreender, algo que o virtual vem nos roubando aos poucos. Estar junto no físico abre espaço para novas relações, para o olho no olho, para ouvir um som que não foi indicado por um algoritmo, mas que chega de forma orgânica e transforma. É nesse terreno do imprevisto que surgem as descobertas mais potentes, e é justamente isso que estamos em risco de perder.
A Madre Produtora se apresenta como “Excelência Travesti”. Num mercado que historicamente marginaliza corpos trans, como é para você afirmar a identidade travesti como sinônimo de excelência e entrega de altíssima qualidade?
Essa afirmação é exatamente para criar esse imaginário muitas vezes não associado à identidade travesti. A Madre surge para romper com isso, mostrando que o olhar travesti produz potência, rigor e inovação em tudo o que se propõe, seja em bookings, em produção, curadoria, design, o que for. Não se trata apenas de ocupar um espaço, mas de redefini-lo, trazer a nossa experiência como referência de qualidade e não como exceção. Excelência travesti é justamente essa capacidade de transformar exclusão em presença e criar caminhos de futuro onde antes só havia portas fechadas.
Seu trabalho é sobre futuros possíveis. Qual é a próxima porta que você sonha abrir para a nova geração de criadores da periferia?
Sonho com um mercado musical em que não seja preciso provar nossa qualidade dez vezes mais do que os outros para conquistar o mínimo. Um espaço verdadeiramente igualitário, onde as oportunidades não sejam filtradas por cor de pele, gênero, sexualidade ou origem, mas sim pelo que realmente importa: o talento e o trabalho.
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Agradecimentos: Chico Cornejo
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