
Entre atuação, música e voz, Simone Centurione fala de uma descoberta recente. Algumas emoções ficam maiores quando deixam de disputar atenção.
Durante muito tempo, Simone Centurione esteve associada a personagens expansivos, musicais e emocionalmente disponíveis. Interpretando a Rainha Elizabeth, uma descoberta começou a ocupar outro espaço no seu trabalho. A força de uma emoção não depende necessariamente da sua demonstração.
Ao falar da personagem, Simone retorna diversas vezes à ideia de contenção. Ao eixo rígido do corpo. À economia dos gestos. À tensão criada por aquilo que permanece guardado. Em vez de buscar o efeito imediato, ela passou a se interessar pelo que continua reverberando depois. A mesma percepção aparece quando fala de música, canto e dublagem. Algumas experiências parecem resistir às explicações. Permanecem vivas numa respiração, numa pausa, numa melodia ou numa intenção quase imperceptível.
A playlist “Entre Respiração e Cena” nasceu desse território. Reunida pela própria Simone, ela atravessa Nina Simone, Mahalia Jackson, Whitney Houston, Aretha Franklin, Sandra de Sá e Maria Bethânia. Uma seleção que ela descreve como uma linha entre força e vulnerabilidade. Na conversa com o deepbeep, atuação, voz, música e presença acabam convergindo para uma mesma pergunta. O que continua existindo quando o impacto passa?
Lísias Paiva, criador e editor
Com a colaboração de Claudio Thorne, social media
Você vem de personagens muito expansivos, mas recentemente falou sobre descobrir força na contenção. Em que momento passou a dizer mais para você?
Acho que isso começou quando entendi que algumas dores não precisam gritar. Elas se organizam dentro do corpo em silêncio. Durante muitos anos trabalhei com personagens mais expansivos, com humor, musicalidade e uma comunicação mais direta com o público. Personagens que ocupavam a cena de maneira mais aberta, mais emocionalmente disponíveis.
Mas, nesse último trabalho, principalmente vivendo uma mulher atravessada pelo dever e pela repressão emocional, como a Rainha Elizabeth, comecei a perceber a força do que não se explica e a coragem de ser o que precisa ser.
Tem um momento em que a emoção deixa de precisar ser demonstrada e passa a existir como tensão. E a tensão é muito poderosa em cena. Nesse trabalho, fazendo a Rainha Elizabeth, me encantei com aquilo que o personagem engole mais do que com aquilo que despeja.
No teatro musical, emoção, voz e ritmo acontecem ao mesmo tempo. O que a música consegue sustentar numa cena que o texto sozinho não alcança?
A música sustenta o indizível. Às vezes o texto explica, mas a música soma revelando. Existe uma coisa quase física no som entrando no corpo. Uma harmonia pode denunciar fragilidade, desejo, medo ou nostalgia antes mesmo da palavra chegar.
No musical, a emoção não acontece apenas no que está sendo dito. Ela acontece na respiração entre as frases, no ataque da nota, no tempo de um silêncio musical e na melodia que, quando encontra aquilo que está sendo dito, toca as pessoas de maneira mais profunda.
Acho que a música também permite contradições muito humanas. Um personagem pode estar sorrindo enquanto a melodia sangra. Isso me emociona muito.
Interpretar alguém como a Rainha Elizabeth parece exigir um controle quase físico da emoção. O que você percebe no corpo quando um personagem começa a pedir silêncio em vez de intensidade?
O corpo endurece de outra maneira. Não é uma rigidez vazia. É uma contenção organizada. Na Rainha Elizabeth senti muito isso: um eixo quase militar, uma coluna que não cede, uma economia de gestos e um controle respiratório muito específico.
Como se qualquer rachadura pudesse desmontar uma estrutura inteira construída para suportar o mundo. Ao mesmo tempo, existe uma voz potente, uma força que atravessa cada fala. Quando um personagem pede silêncio, o ator precisa confiar muito mais na presença do que no efeito. E isso exige coragem. Porque você para de seduzir pela demonstração e começa a sustentar a cena pela verdade da existência daquele corpo ali.
Seu trabalho passa por palco, dublagem, canto e atuação. O que muda na forma como você constrói presença quando o corpo desaparece e só a voz fica?
Quando sobra só a voz, qualquer mentira aparece. Na dublagem e no canto, a voz vira corpo. A intenção, o pensamento, a respiração, tudo precisa estar vivo dentro do som. Um microsegundo muda completamente a verdade de uma frase.
Penso que a câmera às vezes aceita pequenos vazios porque o olhar completa. No palco, o corpo inteiro ajuda a narrativa.
Mas, na voz, não existe onde se esconder. Você precisa fazer o ouvinte enxergar sem mostrar nada. E isso é uma arte muito delicada.
Hoje muita atuação parece buscar impacto imediato. O que você faz questão de preservar para que uma cena continue reverberando depois?
Eu tento preservar o mistério. Acho que a arte perde força quando entrega tudo pronto. As cenas que ficam na memória normalmente são aquelas que deixam alguma pergunta respirando dentro da gente depois. Também faço muita questão de preservar a humanidade. Mesmo nos personagens mais difíceis, mais rígidos ou contraditórios. Porque ninguém é feito de uma emoção só. E talvez o mais importante: eu tento não atropelar o silêncio. Hoje eu confio muito mais na permanência do que no impacto. O impacto impressiona na hora. A permanência acompanha.
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