
Em seu retorno ao Lollapalooza 2026, a banda Scalene disseca a engenharia de transformar tempos quebrados em refrões de arena e a resiliência do rock em tempos de algoritmo.
O Lollapalooza é um colosso de energia e adrenalina, mas o Scalene sempre operou numa frequência distinta dentro desse ecossistema. Enquanto a atmosfera de Interlagos convida à euforia coletiva, o grupo de Brasília se destaca por construir sua performance como uma obra de engenharia. Há fundação, estrutura e, principalmente, o momento exato da catarse. Eles ocupam hoje uma posição estratégica no lineup. São a base fiel, veteranos de um gênero que se renova e continua arrastando multidões. Longe da nostalgia, o Scalene aposta na sofisticação. O peso deixou de ser apenas distorção para ser atmosfera, silêncio e texto. Nesta conversa para a série deepbeep no Lolla, o guitarrista e tecladista Tomás Bertoni esmiúça essa transição do técnico para o visceral e explica como a banda se prepara para o show na sexta-feira (20/03), no primeiro dia de festival. Para antecipar essa dinâmica de palco, o grupo aceitou nosso desafio de montar a playlist exclusiva Campo de Forças, uma seleção que ensina sobre construção de tensão e clímax misturando técnica apurada com emoção bruta e inclui faixas da própria discografia que dialogam com essas referências de tragédia e movimento.
★ BÔNUS: Ao final do papo, confira o Rider Técnico de Pista para assistir o Scalene: nossa curadoria tática com os detalhes invisíveis do show e a harmonização ideal para inaugurar os trabalhos em Interlagos.
Lísias Paiva, editor-fundador
O som de vocês sempre foi muito arquitetônico, cheio de dinâmicas, pausas e explosões calculadas, quase como um prédio sendo construído e demolido ao mesmo tempo. Hoje, vocês buscam mais a perfeição matemática do arranjo ou o erro humano que deixa tudo mais visceral?
Adorei a descrição do nosso som. Tem com certeza uma lógica matemática na forma que desenhamos as emoções — seja na estrutura, melodia ou arranjos específicos — para levar o ouvinte por uma jornada. A ordem de um disco é um algoritmo que você faz da história de todas as músicas que estão nele. Acho que buscamos que todas as composições sejam o máximo que elas podem ser naquele momento.
Sobre erro humano: não existe perfeição sem a natureza humana envolvida e vai sempre ser humano estar errado. Acho que é importante soar autêntico e natural; às vezes isso vai depender de integrar os possíveis erros. Talvez eles nem sejam encarados como tal. Nos últimos dois singles, nós nos produzimos 100% pela primeira vez e tem sido uma nova camada de entendimento de como traduzir essa “matemática” em uma música emocionante para a galera. E sim, nós gostamos bastante de dinâmica haha.
Nos últimos trabalhos, o Scalene provou que uma música pode ser pesada sem necessariamente ter paredes de guitarra distorcida o tempo todo. O peso migrou para a letra, para o sintetizador, para o silêncio. Como foi esse processo de redefinir o que é agressividade na música de vocês?
Pois é, tem sido natural e instintivo desde o início. Vem desde a curiosidade e de gostar dos desafios de explorar novos territórios até a não-necessidade que sentimos de representar o que está no imaginário de cada pessoa do que é “rock”. Do apego estético que as pessoas podem ter, seja visual ou sonoro, e do que você supostamente tem que fazer e falar para ser aceito como um “rockeiro”. E para cada pessoa é obviamente diferente. Não tem como controlar o que vão achar das suas escolhas e composições. O que os nossos fãs nos dão de sentimento e informação fica conosco e baliza um bocado nossas decisões. E sempre fico feliz quando vejo a galera comentar justamente que o que mais gosta no Scalene é esse processo.
Vocês têm uma assinatura rítmica complexa — tempos quebrados, técnica apurada — mas que, ao vivo, faz o público pular. Qual é o segredo para fazer uma música tecnicamente complexa soar pop e acessível? É difícil esconder a matemática para deixar a emoção passar?
Bela pergunta. Acho que uma das coisas pelas quais mais somos reconhecidos é justamente conseguir, ou ao menos buscar, o equilíbrio do “técnico”, “alternativo” e “matemático” com a acessibilidade. As nossas maiores referências fazem isso e é incrível acompanhar o desenvolvimento da carreira dessas referências e observar como a abordagem pode mudar ao longo do tempo em relação a isso.
Existe uma beleza em conseguir comunicar temas complexos de forma acessível. Comunicar emoções complexas de forma acessível. Você encontrar o seu jeito de ser “pop” ou “comercial” de forma verdadeira e autêntica é uma busca muito bonita. No caso do Scalene, acho que temos no radar, desde sempre, algo no sentido de sermos “comerciais o suficiente” para o mercado. E aí a gente pira e vai longe sem perder de vista se estamos sendo claros na nossa mensagem e, consequentemente, “comerciais o suficiente”.
Muitas das faixas recentes têm uma atmosfera mais introspectiva, quase de quarto escuro. Levar isso para um palco gigantesco de festival como o Lollapalooza exige uma adaptação? Vocês precisam gritar esses sentimentos ou confiam que a sutileza sobrevive no meio da multidão?
Labirinto foi um disco composto e gravado durante a pandemia. É o primeiro disco que compusemos inteiro depois de já morarmos há alguns anos em São Paulo. Então o caminho soturno, intenso, urbano e letras explorando temas junguianos e nietzschianos, dentre outras coisas, foi bastante influenciado pelo que vivíamos naquele momento. No EP Obscuro, que foi uma trilha para um curta-metragem, tivemos pela primeira vez músicas instrumentais que também são bem introspectivas. Com “Quimera” e “Peguei Ar”, os dois singles do ano passado, acho que ao mesmo tempo que seguimos com influências desse período, retomamos um vigor guitarrístico e de interpretação que se conecta, talvez, mais com os três primeiros álbuns.
Em shows nossos, de 90 ou 100 minutos, conseguimos criar uma setlist em que tudo é bem explorado. Para um Lolla, com 60 minutos de palco, acabamos focando numa setlist que condiz com o contexto de um grande festival. Vai ter música “introspectiva” também, mas temos bastante opção para compor algo que reverbera para uma multidão de festival e para toda a galera que acompanha na transmissão também.
Vocês surgiram em um momento específico do rock nacional e viram a cena mudar drasticamente, com o domínio do pop, do funk e do trap nos grandes festivais. Como o Scalene se enxerga nesse ecossistema hoje? O rock de vocês virou uma forma de resistência ou de adaptação a esses novos tempos?
Esse assunto rende, viu? Mas vou tentar ser breve. Desde que começamos, o rock nunca esteve em alta, seja aqui ou internacionalmente. De uns dois anos para cá, começou uma fortalecida interessante com novos nomes e grandes turnês de artistas nacionais e internacionais. Porém, sinto um certo esvaziamento do “midstream” desse segmento. E acho que não só no rock isso tem acontecido. Para quem está no topo ou tem um produto como uma turnê que Titãs ou NxZero fizeram (que não é um produto de continuidade e longo prazo) parece estar melhor. Para quem está em outras camadas, diria que está meio que igual, mas nunca com menos qualidade vindo dos artistas. Acho possível que haja um fortalecimento dessas camadas do meio em breve.
Seria importante uma nova geração de bandas conseguindo espaço e destaque de forma consistente. Assim como um trabalho contínuo da galera mais veterana, sejam nós, Supercombo ou Terno Rei, por exemplo, ou bandas ainda mais veteranas. E aquele papo de sempre, que ainda sigo acreditando ser essencial, de uma integração melhor entre essas gerações todas. O que é muito mais difícil de acontecer do que pode parecer.
Não vejo também uma “busca” pelo mainstream na maioria das bandas, e sim uma busca artística admirável, por coisas que já abordamos nessa entrevista. Acharia um pouco egóico usar a palavra “resistência” para descrever o Scalene. “Resiliência” certamente cabe. E acredito que caberia para qualquer artista. Mas sim, vejo como uma adaptação constante. Não só de agora aos novos tempos, vem desde sempre. O que para mim conecta com o clichê que adoro é que o que importa é o caminho. Objetivos em mente, mas o olhar cuidadoso para si e para quem está do seu lado na caminhada.

RIDER TÉCNICO DE PISTA PARA ASSISTIR O SCALENE
// COORDENADAS & CONFLITOS
★ Onde: Sexta-feira, 20/03. ★ O Cenário: Você estará num sanduíche emocional entre o peso atmosférico do Deftones, o pop polido da Sabrina Carpenter e o caos divertido do Shaquille O’Neal (DJ Diesel). ★ O Veredito: Priorize o Scalene. Enquanto Deftones e Sabrina exigem euforia e grito, o show do Scalene oferece “engenharia”. É o momento do dia para limpar o ouvido com arranjos perfeitos antes de se entregar à massa.
// PRESTE ATENÇÃO
★ O Algoritmo do Setlist: O guitarrista Tomás Bertoni confessou que a ordem das músicas obedece a uma lógica matemática, quase um algoritmo narrativo. Tente perceber quando eles “constroem” a tensão e quando decidem “demolir” o clima. Nada ali é aleatório. ★ A Distorção do Silêncio: Nos singles mais recentes (Quimera e Peguei Ar), o peso da banda migrou da guitarra para o “vazio”. Repare como as pausas são tão agressivas quanto os riffs. É um show de dinâmicas, não de volume constante. ★ O Subtexto Filosófico: Enquanto a maioria das bandas grita palavras de ordem, o Scalene esconde referências a Nietzsche e Jung nas letras do ciclo Labirinto. É música para ouvir com o cérebro ligado.
// HARMONIZAÇÃO SONORA
★ O Mood: Introspecção Coletiva. Não é show para roda punk; é show para balançar a cabeça em aprovação técnica. ★ O Look: Preto sobre preto, texturas, alfaiataria desconstruída. O som pede sobriedade. ★ O Drink: Uma IPA (amargor complexo) ou um Negroni. Evite bebidas muito doces; elas brigam com a acidez das letras.
Acompanhe o trabalho do Scalene
Scalene no Instagram
Fotos por Yvã Santos e Cadu Andrade
.
Ouça a playlist do Scalene na sua plataforma preferida
.
.
No deepbeep, a conversa começa com música.
Toda semana, novas histórias em forma de som. Assine a newsletter no rodapé.
Quer levar essa curadoria para a sua marca?
Fale com a gente: falecom@deepbeep.com.br