
Na Cidade de Deus, Sabothati ensina jovens atores a escutar antes de atuar. No projeto Entre Cenas, o cinema começa pelo ritmo do território.
Alguns filmes nascem do roteiro. Outros nascem da escuta. No projeto Entre Cenas, organizado pelo Instituto Arteiros em parceria com a MAGMA na Cidade de Deus, Sabothati parte do ritmo antes da palavra. O set vira espaço de formação, e os atores chegam com algo que não se aprende em manual: a cadência do próprio território. Para a diretora, dirigir começa como na música. Primeiro você escuta, depois reage. É nesse compasso que surgem as cenas, os silêncios e as tensões de Milhões, curta que nasce diretamente desse processo de mentoria e criação coletiva. Na conversa com o deepbeep, Sabothati explica como o ritmo organiza a atuação, como a escuta transforma o trabalho de direção e por que o território também pode ser uma linguagem cinematográfica. A entrevista vem acompanhada da playlist Frequência do Processo, uma seleção que atravessa Fela Kuti, Nelson Cavaquinho, Kendrick Lamar e Jaloo para revelar o som que estrutura sua forma de dirigir e ensinar.
Lísias Paiva, editor-fundador
O Instituto Arteiros consolidou a Cidade de Deus como território de criação. No Entre Cenas, os jovens entram em um set profissional antes mesmo de chegarem ao mercado. Que tipo de mudança acontece quando eles percebem que a própria vivência sonora do território pode organizar a cena tanto quanto o roteiro?
Na verdade, esses jovens já estão no mercado. São atores profissionais, ainda no começo de trajetória, mas que têm todas as ferramentas necessárias para fazer um filme. Muitos deles vêm se preparando para isso há anos dentro do próprio instituto. Como o Arteiros é um espaço muito politizado, existe ali uma consciência muito forte sobre o valor da criação artística que nasce do próprio território. É bonito ver o respeito que eles têm pelas manifestações culturais que vieram antes deles, pelos ritmos ancestrais e também por suas derivações mais contemporâneas. Isso atravessa a forma como eles pensam a cena, o corpo e o tempo. Existe um entendimento de que essas referências não são apenas contexto, mas linguagem.
Você tem uma formação atravessada pela música. No processo de mentoria, como se traduz essa noção de ritmo para a atuação e para a construção dramática? Existe uma forma específica de escutar antes de dirigir?
Tem uma máxima que eu e o Ricardo Fernandes, um dos fundadores do Arteiros e preparador de elenco de Milhões, repetíamos o tempo todo: primeiro você escuta, depois você reage. É quase como uma batalha de rima. Você pega as deixas, reage aos sons, ao tempo do outro. A música me ensinou muito sobre isso. Muitas vezes a pausa é mais importante que a fala. A respiração é mais importante que um olhar vidrado. A gente precisa ter tempo para se escutar. Penso muito nisso quando lembro do jazz. Às vezes ele nem tem letra, ou tem longos trechos instrumentais, e ainda assim bate profundamente. No samba também. Uma mesma frase pode ter efeitos completamente diferentes dependendo da cadência em que é dita. No fundo, tudo é ritmo. Tudo é tempo.
Entre Cenas é formação prática. Como o som no set — seja silêncio, ruído, trilha provisória ou batida de referência — influencia a segurança e a presença dos alunos diante da câmera?
Na técnica utilizada pelo Ricardo durante a preparação, nos ensaios a gente sempre usa música para ajudar os atores a atingirem os estados que a cena pede. Eu ficava encantada de ver um ator chegar ansioso, atribulado pelo atraso, pelo trânsito, pelas notificações do celular e, meia hora depois, estar completamente entregue ao processo. A música ajuda muito nisso. Ela muda o estado do corpo e da mente, e isso é muito valioso.
Já no set, eu costumo dizer para o elenco que é ali que todas as adversidades aparecem. Tem barulho da equipe, luz forte na cara, outros atores se preparando e muita informação acontecendo ao mesmo tempo. Alguns atores precisam colocar fone de ouvido e se isolar até a hora da cena. Outros entram em estado de concentração escutando a própria voz ou respirando. Eu, pessoalmente, odeio o barulho do set. Tenho muito respeito pelo processo dos atores e sei que a equipe pode desconcentrar. Se dependesse de mim, todo mundo se comunicaria por sinais. Na correria, nem sempre é possível, mas eu sempre peço esse cuidado.
O encontro entre jovens atores e artistas experientes cria uma troca inevitável. O que muda no ritmo do trabalho quando diferentes gerações passam a compartilhar a mesma cadência de criação?
Eu costumo pensar a atuação como uma dança. Nessa analogia, eu sou a coreógrafa, mas quem dança são eles. E, na hora da apresentação, a coreografia só funciona se todos dançarem juntos.
Nesse processo, foi muito bonito ver a admiração dos atores mais jovens pela presença da Shirley Cruz. Ela tem uma capacidade impressionante de fazer cada segundo de tela valer. Eles observaram isso com muito respeito e aprenderam muito com ela. A Shirley tem uma participação especial memorável em Milhões. Não é uma protagonista, mas é daquelas presenças que marcam um filme. Pela atuação exemplar, claro, mas também pela postura no set. Muito gentil, muito generosa. Ensinou tudo o que podia e também se colocou disponível para aprender. Foi um encontro muito bonito. Em um dos dias, a equipe inteira a aplaudiu no set. Isso é algo que aconteceu pouquíssimas vezes na minha vida.
Milhões nasce desse processo. Como o trabalho de escuta desenvolvido ao longo dos meses impactou as escolhas de atmosfera, espaço e tensão no curta?
Milhões nasceu muito desse processo de escuta e observação. Durante os meses de formação, eu fui conhecendo melhor os atores. Criei novos personagens, adaptei partes do roteiro e até insisti em algumas piadas que, no papel, não pareciam tão fortes, mas que funcionavam muito bem com eles.
Eu não entreguei o texto de imediato. Primeiro, quis ver quem eles eram, como se moviam e como pensavam. E também me mostrar para eles. Criamos uma relação de confiança. Só depois disso distribuí os papéis. Era importante que todos entendessem que cada personagem ali era fundamental para o filme e que cada um precisava encontrar o seu tempo dentro da história.
Quando passei a conhecer melhor esses atores, tive certeza de que a gente faria um filme muito potente, político e impactante, sem precisar recorrer a frases panfletárias. A simples presença deles já diz muito. Reunir esse grupo na tela já é, por si só, uma afirmação forte. Eu nunca vi um filme brasileiro como Milhões, com esses perfis de personagens, com essa temática e nesse ambiente tão sofisticado. São personagens estrategistas, inteligentes, que pensam o mundo de forma complexa, e isso dialoga diretamente com quem são esses atores.
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Fotos por Amanaçu Soares e Manuel Nogueira
Agradecimentos a Alice Ferreirinho, da FT Estratégias, pela conexão
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