Rádio Renner: Brasilidades (por Giu Nunez)

Rádio Renner por Giu Nunez com curadoria deepbeep

Do samba-rock oitentista aos toques de ijexá. Giu Nunez assume a Rádio Renner com um “Suco de Brasil” que foge do cartão postal e mergulha na euforia real de um verão sem filtro.

Se o verão fosse um gênero musical, ele seria percussivo, suado e impossível de ignorar. Para a segunda edição da Rádio Renner, nossa curadoria com assinatura deepbeep, a missão foi engarrafar o Brasil. Não aquele Brasil para turista ver, mas o que pulsa nas ruas, nos bailes e na memória afetiva de quem vive o calor de verdade. Porque se a roupa veste o corpo, o groove veste o momento. Convidamos a DJ e pesquisadora Giu Nunez para preparar o que chamamos de “Suco de Brasil”. O resultado é uma viagem sonora solar e vibrante, que começa no asfalto de São Paulo e sobe em direção ao Nordeste. Esqueça o óbvio. Aqui, o samba-rock do final dos anos 80 encontra o funk melody e o afoxé numa mistura que é pura excitação. É a trilha sonora para quem sabe que o verão brasileiro é feito de água salgada, coco gelado, euforia e aquela exaustão gostosa de quem se jogou na pista ou na vida.

Rádio Renner. Seus looks, agora com ritmo.

“Brasilidade” é uma palavra muito usada e nem sempre bem entendida. Quando você escolhe música, o que faz algo soar verdadeiramente brasileiro hoje?
Quando a gente pensa em “brasilidade”, com certeza vêm à cabeça os grandes standards da música nacional, artistas que deram a cara e o som do nosso país. Isso vira um farol, que ilumina e guia um pouco a produção ou a continuidade da nossa arte. Por isso, quando faço minhas seleções, eu procuro encontrar justamente essa continuidade: melodias que traduzem sentimentos e lugares, ritmos que trazem uma lembrança. Uma brasilidade que é a amplificação da natureza, da nossa cultura e das nossas vivências.

Seus sets misturam referências que nem sempre dividiram o mesmo espaço. Essa mistura vem mais da sua vivência, da pista ou da curiosidade de testar limites?
Acho que provavelmente vem da minha curiosidade e da vontade de testar. Mas também tem um fator de surpresa. Assim como no cinema, o filme só faz sentido total na cena final. E pra isso a gente tem que atravessar um caminho que não é linear, pra realmente acontecer alguma transformação.

O verão costuma ser tratado como algo leve, quase superficial. Que camadas do verão brasileiro você gosta de revelar através da música?
O verão é sensual, é excitação, é a perspectiva positiva de se jogar de novo, porque vem junto com o ano novo. É a hora em que a gente se abre para mais sensações. A bebida bem gelada, a água salgada, o banho de rio. Que praticamente termina na euforia na rua, no samba, na exaustão. O que tento revelar para além disso talvez sejam algumas vivências individuais — que na verdade nunca são só individuais. São problemas sociais e relacionais que, mesmo no meio de tanto carnaval, são feridas abertas.

Existe uma linha delicada entre celebrar o Brasil e repetir estereótipos. Como você percebe quando uma faixa é viva e quando ela apenas reforça uma imagem já conhecida?
Acho que é sobre identificar superficialidade e profundidade. Identificar primeiro dentro da gente, navegar mais profundamente em certas emoções, lembranças, desejos e percepções, e depois conseguir achar isso nas músicas.

Se você tira o óbvio da equação, que sons continuam traduzindo o espírito do verão brasileiro na sua playlist?
Esse set, no geral, é uma evolução do nosso conhecido samba-rock, porque são músicas gravadas no final dos anos 80 e no começo dos anos 90. Essa é a essência dessa mix, que pra mim é o que melhor traduz o verão. Eu começo em São Paulo e vou indo em direção ao Nordeste brasileiro, juntando ao samba-rock o agogô, o ijexá e o afoxé. Isso vira um funk melody carioca? Acho que vira. E termina todo esse verão com Wilson Simonal, numa reflexão interessante entre se entregar ou lutar por amores melhores.

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Fotos: Celso Tavares e Victor Otsuka (capa)

Agradecimentos: Caracol Bar

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