
O humor não organiza o processo. Ele aparece depois, quando o outro já foi visto.
Paulo Vieira não começa pelo humor. O incômodo não está na situação, mas no olhar. Um olhar estrangeiro, que continua operando mesmo quando a vida muda de escala. O que entra agora é outra camada. Escolha. Decisão sobre o que não pode ser suavizado, mesmo dentro da TV aberta. Mas o deslocamento mais relevante está na escuta. Em Avisa Lá Que Eu Vou, isso não aparece como recurso. Aparece como método. A conversa não começa na piada. Começa no outro. E em Pablo e Luisão, esse mesmo princípio impede que a memória vire versão limpa. O caos, o som e o ambiente não estão ajustados para melhorar a experiência. São mantidos. “O humor não é o meu fim, é só uma das vias da estrada que pego para chegar no outro.” Esse ponto reorganiza o trabalho. A piada deixa de conduzir e passa a acompanhar. O efeito não é só de forma. É de foco. Quem aparece. Quem ganha espaço. Na conversa com o deepbeep, Paulo Vieira fala sobre esse ajuste e sobre o que decidiu não limpar no próprio trabalho. A playlist “Música Para Sustentar a Presença” acompanha esse movimento.
Lísias Paiva, sócio-fundador
Paulo, você sempre fala de perrengue com humor, sempre transformou o perrengue em piada. Como a sua vida mudou bastante agora, de onde vem hoje o atrito que faz essa piada funcionar?
Eu acho que o humor não é exatamente o atrito, mas o olhar para as coisas. O humor nasce do incômodo, e esse incômodo não está necessariamente nas situações, mas no olhar do comediante. Não tenho medo de perder o humor por ter uma vida melhor, porque sei que esse incômodo está no meu olho. É desse olhar estrangeiro e de questionamento que eu tiro a graça. Assim como eu olhava para as coisas com estranhamento quando morava no Tocantins, continuo olhando com estranhamento na Globo e nos espaços que frequento hoje. Muitos comediantes que vêm da mesma realidade social que a minha têm medo de perder a essência, mas eu não tenho nenhum medo. Até porque o meu trabalho é muito baseado na memória; hoje eu faço o que as pessoas chamam de autoficção. Todas as histórias que eu tenho para contar são da minha infância e da minha adolescência. Ter dinheiro para mim é uma coisa muito recente, dos últimos três anos. Eu tenho 33 anos, então tenho 30 anos de história para contar. É mais fácil eu não querer mais fazer comédia do que acabarem as minhas histórias ou o meu olhar cômico sobre as coisas.
Quando você entra na TV aberta, a escala muda tudo. O que você faz para não suavizar muito a sua voz ali dentro?
Eu tenho comigo que o norte da felicidade é o desejo. Fico sempre olhando para onde o ponteiro do desejo está apontando. Busco fazer aquilo que realmente faz sentido para mim e para a minha alma, para as coisas em que acredito, para além de todas as pressões do entorno — pressões comerciais, do algoritmo, da imprensa ou do público. A primeira pessoa que penso em seguir e obedecer é a minha própria cabeça. Quando faz sentido para mim e eu quero muito fazer uma coisa, já sei que isso vai ter atrito com o que esperam de mim. A maneira de manter a minha ousadia e não “me limpar” demais é fazer sempre o que eu acredito. Em Pablo e Luizão, por exemplo, tive uma conversa com a Globo sobre uns apontamentos que recebi e respondi justamente que não posso limpar a minha história. É um exercício de ressignificação de uma história de caos, mas existe um processo em que preciso ser verdadeiro comigo e com o lugar de onde venho. Se eu tiver uma história higienizada, ela será mentirosa, e eu estaria me traindo por demandas de outros.
No Avisa Lá Que Eu Vou dá para sentir que cada lugar tem um tempo próprio. Como você ajusta a escuta e o ritmo da piada para entrar nisso sem atropelar quem está ali?
Um dos meus talentos é iluminar o outro. Tenho a impressão de que conseguiria fazer de qualquer pessoa comum um protagonista, porque sou bom em iluminar no outro aquelas que poderiam ser consideradas qualidades de um protagonista. É exatamente isso que faço com a minha família em Pablo e Luizão e é o que faço no Avisa Lá. Eu cavuco a pessoa com perguntas para que ela me dê frases e nuances — onde ela é sensível, vulnerável, engraçada — para que depois, na ilha de edição, a gente consiga montar o perfil desse personagem. Eu nunca entro na conversa buscando humor; sempre entro buscando o outro. Por isso, não considero o Avisa Lá um programa de humor. A Globo, que o coloca no catálogo de humor, fica muito chateada quando eu falo isso, mas o humor não é o meu fim, é só uma das vias da estrada que pego para chegar no outro. Para mim, é um documentário. Essa virada aconteceu na primeira vez que fui ao interior, quando fui entrevistar uma mulher que dizia falar com os animais. Fui cheio de piadinhas prontas, achando que ia usar a pessoa como escada para brilhar, mas quando sentei para conversar com ela, entendi que não queria fazer o humor dela. Gosto de fazer humor, mas gosto mais de amar, de pensar e de iluminar o outro. Depois do Avisa Lá, nem me considero mais um comediante.
Falando de Pablo e Luizão, o universo que você traz tem um som muito específico. Que músicas ou referências ajudam a construir esse universo e a traduzir o seu cantinho para quem nunca esteve lá?
Na pré-produção, eu falava para o produtor musical que a trilha precisava ter “cheiro de pai”. Ela precisava parecer que está tocando num carro velho, enquanto seu pai fuma e o vento joga fumaça na sua cara. São aquelas músicas de que, quando a gente é criança, a gente não gosta tanto, mas que um certo dia você se pega ouvindo na sua casa e se perguntando: “Será que eu virei um pouco meu pai?”. A música ajuda muito a calçar o território; temos a chegada de Genésio Tocantins na abertura e artistas como Dorivan na trilha. Já o brega, o sertanejo e a guitarrada ajudam a calçar a emoção, a dar esse calor para trazer o Norte para a cena. É um lugar amazônico, mas é muito Centro-Oeste, é muito Goiás também. Essa Babilônia de sotaques que é o Tocantins, o centro geodésico do Brasil, é o que tentamos trazer na trilha.
Nesse seu trabalho, você lida muito com as contradições, e nunca transforma isso em um discurso muito direto. Quando você escreve, o que te guia mais: a história ou o efeito que vai causar nas pessoas?
O efeito, mas, sendo sincero com a história. Como em todo produto artístico, o meu interesse é estético e poético. Nunca perco de vista aquela máxima de que “o poeta é um fingidor”. O objetivo primeiro da poesia não é sentir, é causar no outro, é fazer o outro sentir. A estética é justamente a poesia que traduz o meu sentimento para que o outro possa sentir também. Por exemplo, no final do ano, a nova temporada do Avisa Lá terá um especial em que estou entrevistando apenas idosas trans ou drags idosas. O programa está muito bonito porque parece um Avisa Lá em qualquer interior, com as tias falando sobre família, netos e religião. No meio da entrevista com a Nany People, o celular dela desperta e ela reza a Ave Maria às seis da tarde. As pesquisas de mercado da televisão sempre falam da “Dona Neide do sofá”, imaginando uma matriarca branca e conservadora. Eu quis mostrar que a Silvetty Montilla e a Nany People também são donas Neides. Elas também são e têm muito mais a ver com a sua avó e com o público em casa do que se imagina. Eu fico sempre tentando ver quais são os assuntos sobre os quais quero falar, sempre tendo como fim o meu discurso para o outro.
Acompanhe o trabalho de Paulo Vieira
Paulo Vieira no Instagram
Avisa Lá Que Eu Vou por Paulo Vieira
Pablo e Luisão por Paulo Vieira
.
.
Aqui no deepbeep, cada entrevista vira uma playlist. Cada playlist, um jeito novo de ouvir.
E nossa curadoria não para por aqui: toda semana, enviamos novidades direto no seu e-mail.
Quer receber também? Assine a newsletter, o formulário está no rodapé.