
Paulo Vieira fala sobre o que encontra quando a piada deixa de ser o ponto de chegada.
Paulo Vieira não perdeu o humor. Mudou o lugar de onde olha. Durante uma gravação de Avisa Lá Que Eu Vou, ele chegou para entrevistar uma mulher que dizia falar com os animais levando algumas piadas prontas. Quando começou a conversar, percebeu que estava mais interessado nela do que na graça que poderia tirar daquela situação. Foi uma espécie de descoberta profissional. Ele não queria usar aquela pessoa como escada para aparecer. Queria entender quem estava diante dele.
“Eu nunca entro na conversa buscando humor; sempre entro buscando o outro.”
A frase explica boa parte do trabalho que Paulo vem fazendo. Em Avisa Lá Que Eu Vou, ele pergunta, escuta, procura contradições e deixa a pessoa construir o próprio espaço dentro da história. Em Pablo e Luisão, série inspirada na própria família, a operação muda de lugar, mas a preocupação permanece. Paulo recusou a ideia de limpar uma história feita de caos, barulho e memória. Para ele, organizar demais seria falsificá-la.
A música também participa dessa construção. Para criar o universo de Pablo e Luisão, Paulo pediu uma trilha com “cheiro de pai”, feita de músicas que carregassem a memória de um carro velho, da infância e daquele momento estranho em que uma canção que você detestava começa a fazer sentido. Genésio Tocantins, Dorivan, brega, sertanejo e guitarrada ajudam a colocar o Tocantins dentro da série.
A conversa com o deepbeep passa por esse mesmo lugar. Paulo fala do incômodo que continua alimentando seu olhar, da decisão de não limpar a própria história e da vontade de colocar no centro pessoas que normalmente ficam nas margens. Também explica por que já não se considera exatamente um comediante. A playlist “Música Para Sustentar a Presença” foi curada pelo deepbeep a partir das referências musicais que aparecem na conversa e de uma pesquisa sobre o universo sonoro de Paulo. Genésio Tocantins, Dorivan, brega, sertanejo e guitarrada estão entre as pistas que ajudaram a construir a seleção.
Lísias Paiva, criador e editor
Paulo, você sempre fala de perrengue com humor, sempre transforma o perrengue em piada. Como a sua vida mudou bastante agora, de onde vem hoje o atrito que faz essa piada funcionar?
Eu acho que o humor não é exatamente o atrito, mas o olhar para as coisas. O humor nasce do incômodo, e esse incômodo não está necessariamente nas situações, mas no olhar do comediante. Não tenho medo de perder o humor por ter uma vida melhor, porque sei que esse incômodo está no meu olho. É desse olhar estrangeiro e de questionamento que eu tiro a graça. Assim como eu olhava para as coisas com estranhamento quando morava no Tocantins, continuo olhando com estranhamento na Globo e nos espaços que frequento hoje. Muitos comediantes que vêm da mesma realidade social que a minha têm medo de perder a essência, mas eu não tenho nenhum medo. Até porque o meu trabalho é muito baseado na memória; hoje eu faço o que as pessoas chamam de autoficção. Todas as histórias que eu tenho para contar são da minha infância e da minha adolescência. Ter dinheiro para mim é uma coisa muito recente, dos últimos três anos. Eu tenho 33 anos, então tenho 30 anos de história para contar. É mais fácil eu não querer mais fazer comédia do que acabarem as minhas histórias ou o meu olhar cômico sobre as coisas.
Quando você entra na TV aberta, a escala muda tudo. O que você faz para não suavizar muito a sua voz ali dentro?
Eu tenho comigo que o norte da felicidade é o desejo. Fico sempre olhando para onde o ponteiro do desejo está apontando. Busco fazer aquilo que realmente faz sentido para mim e para a minha alma, para as coisas em que acredito, para além de todas as pressões do entorno — pressões comerciais, do algoritmo, da imprensa ou do público. A primeira pessoa que penso em seguir e obedecer é a minha própria cabeça. Quando faz sentido para mim e eu quero muito fazer uma coisa, já sei que isso vai ter atrito com o que esperam de mim. A maneira de manter a minha ousadia e não “me limpar” demais é fazer sempre o que eu acredito. Em Pablo e Luisão, por exemplo, tive uma conversa com a Globo sobre uns apontamentos que recebi e respondi justamente que não posso limpar a minha história. É um exercício de ressignificação de uma história de caos, mas existe um processo em que preciso ser verdadeiro comigo e com o lugar de onde venho. Se eu tiver uma história higienizada, ela será mentirosa, e eu estaria me traindo por demandas de outros.
No Avisa Lá Que Eu Vou dá para sentir que cada lugar tem um tempo próprio. Como você ajusta a escuta e o ritmo da piada para entrar nisso sem atropelar quem está ali?
Um dos meus talentos é iluminar o outro. Tenho a impressão de que conseguiria fazer de qualquer pessoa comum um protagonista, porque sou bom em iluminar no outro aquelas que poderiam ser consideradas qualidades de um protagonista. É exatamente isso que faço com a minha família em Pablo e Luisão e é o que faço no Avisa Lá Que Eu Vou. Eu cavuco a pessoa com perguntas para que ela me dê frases e nuances — onde ela é sensível, vulnerável, engraçada — para que depois, na ilha de edição, a gente consiga montar o perfil desse personagem. Eu nunca entro na conversa buscando humor; sempre entro buscando o outro. Por isso, não considero o Avisa Lá Que Eu Vou um programa de humor. A Globo, que o coloca no catálogo de humor, fica muito chateada quando eu falo isso, mas o humor não é o meu fim, é só uma das vias da estrada que pego para chegar no outro. Para mim, é um documentário. Essa virada aconteceu na primeira vez que fui ao interior, quando fui entrevistar uma mulher que dizia falar com os animais. Fui cheio de piadinhas prontas, achando que ia usar a pessoa como escada para brilhar, mas quando sentei para conversar com ela, entendi que não queria fazer o humor dela. Gosto de fazer humor, mas gosto mais de amar, de pensar e de iluminar o outro. Depois do Avisa Lá, nem me considero mais um comediante.
Falando de Pablo e Luisão, o universo que você traz tem um som muito específico. Que músicas ou referências ajudam a construir esse universo e a traduzir o seu cantinho para quem nunca esteve lá?
Na pré-produção, eu falava para o produtor musical que a trilha precisava ter “cheiro de pai”. Ela precisava parecer que estava tocando num carro velho, enquanto seu pai fumava e o vento jogava fumaça na sua cara. São aquelas músicas de que, quando a gente é criança, a gente não gosta tanto, mas que um certo dia você se pega ouvindo na sua casa e se perguntando: “Será que eu virei um pouco meu pai?”. A música ajuda muito a calçar o território; temos a chegada de Genésio Tocantins na abertura e artistas como Dorivan na trilha. Já o brega, o sertanejo e a guitarrada ajudam a calçar a emoção, a dar esse calor para trazer o Norte para a cena. É um lugar amazônico, mas é muito Centro-Oeste, é muito Goiás também. Essa Babilônia de sotaques que é o Tocantins, o centro geodésico do Brasil, é o que tentamos trazer na trilha.
Nesse seu trabalho, você lida muito com as contradições, e nunca transforma isso em um discurso muito direto. Quando você escreve, o que te guia mais: a história ou o efeito que vai causar nas pessoas?
O efeito, mas, sendo sincero com a história. Como em todo produto artístico, o meu interesse é estético e poético. Nunca perco de vista aquela máxima de que “o poeta é um fingidor”. O objetivo primeiro da poesia não é sentir, é causar no outro, é fazer o outro sentir. A estética é justamente a poesia que traduz o meu sentimento para que o outro possa sentir também. Por exemplo, no final do ano, a nova temporada do Avisa Lá Que Eu Vou terá um especial em que estou entrevistando apenas idosas trans ou drags idosas. O programa está muito bonito porque parece um Avisa Lá em qualquer interior, com as tias falando sobre família, netos e religião. No meio da entrevista com a Nany People, o celular dela desperta e ela reza a Ave Maria às seis da tarde. As pesquisas de mercado da televisão sempre falam da “Dona Neide do sofá”, imaginando uma matriarca branca e conservadora. Eu quis mostrar que a Silvetty Montilla e a Nany People também são donas Neides. Elas também são e têm muito mais a ver com a sua avó e com o público em casa do que se imagina. Eu fico sempre tentando ver quais são os assuntos sobre os quais quero falar, sempre tendo como fim o meu discurso para o outro.
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Avisa Lá Que Eu Vou por Paulo Vieira
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