Papisa: transformar música em ritual é recusar a pressa do algoritmo

Papisa playlist para deepbeep no Lollapalooza

Papisa transforma composição, produção e palco em um único gesto criativo. Um tipo de pop que prefere o ritual ao algoritmo.

Em um mercado que exige velocidade, Papisa insiste no tempo lento. A artista trata o disco como território sensorial: música, imagem, palco e atmosfera costurados no mesmo gesto criativo. Produzir, compor e gravar são partes de um mesmo ritual. Não existe divisão clara entre técnica e intuição. Existe presença. No dia 22 de março, às 12h45, no Palco Budweiser do Lollapalooza, ela leva esse universo para um espaço onde a música deixa de ser apenas som e vira ambiente. Nesta conversa com o deepbeep, Papisa fala sobre produção musical como gesto autoral, poesia como espaço de proteção e o tempo artesanal necessário para que um disco exista de verdade. A conversa é acompanhada da playlist Canções para Sustentar o Intervalo, com músicas de Nicolas Jarr, Os Tincoãs, Caribou, Air, Brian Eno, além de composições próprias.

★ BÔNUS: Ao final do papo, confira o Rider Técnico de Pista para curtir o show da Papisa: nossa curadoria tática com os detalhes invisíveis do show e a harmonização ideal para inaugurar os trabalhos em Interlagos.

Marcelo Nassif, sócio-editor

No seu trabalho, composição e produção técnica ocorrem no mesmo gesto criativo. Como assumir que todas as etapas do processo influenciam a identidade final da música quando não há um filtro externo para impor limites ou sugerir caminhos alternativos?
Para mim, o processo de criar um disco é muito íntimo, intuitivo e sensorial e vai muito além da composição. Gosto de experimentar, pôr a mão na massa, buscar o encontro do sentido com a estética; então, foi natural me aproximar da produção musical. Produzi e gravei meu primeiro disco solo, Fenda, sozinha em casa, gravando todos os instrumentos, em um processo muito intenso de imersão e aprendizado, que foi tão trabalhoso quanto realizador.
Em Amor Delírio, meu último álbum cheio, chamei o Felipe Puperi para produzir, porque eu queria uma visão externa dessa vez, principalmente em relação à forma e à estética. Eu componho já arranjando, criando demos e sempre participo ativamente do processo de produção. Nesse caso, foi uma parceria acertada, porque o Felipe tem muita sensibilidade e a criação em grupo fez as músicas crescerem bastante.
Criar discos, para mim, é como criar um universo onde as pessoas podem mergulhar, ter experiências. Isso vai muito além da música: envolve a identidade visual, o ambiente dos shows, a vibe geral do disco. Por isso, seleciono meu time com cuidado e vamos tecendo as etapas juntos, sempre tendo em mente aquele mundo que está sendo criado.

Vivemos uma era de superexposição onde tudo vira conteúdo confessional imediato. De que maneira você calibra a poesia para tratar de temas internos profundos sem entregar o mistério de bandeja e manter uma camada de proteção?
Para ser sincera, eu não penso em nada disso na hora de compor. Meu processo de escrita é diário e intuitivo. Uso cadernos para escrever desde criança, e esse hábito me ajuda a me organizar internamente. Quando crio música, uso trechos dos meus cadernos como material bruto, que chamo de baú de ideias. Esse processo é super íntimo e, se houver muita maquiagem, perde o sentido.
Meu desafio maior é fazer tudo encaixar, ser sonoro e compor da melhor forma possível a música que está nascendo naquele momento. Ainda assim, é um recorte, porque muito do que escrevo eu guardo para mim; não preciso expor tudo.
Outra parte vai para a newsletter que tenho há mais de dez anos. Na pandemia eu escrevia semanalmente e eram textos muito íntimos. Apesar das quase duas mil pessoas que recebem, a conversa por e-mail parece mais privada; não tem plateia, então acaba levando a trocas mais profundas. Eu gosto disso. Há pouco mais de um ano transferi essa newsletter para o Substack e tenho gostado muito da plataforma, tanto para escrever quanto para ler.

A ideia de magia e ritual é central na sua estética, mas também parece funcionar como método de trabalho. De que forma esse pensamento simbólico sai do campo das ideias e interfere nas decisões práticas de timbres e frequências dentro do estúdio?
A vida fica muito mais rica quando olhamos para ela de forma simbólica e subjetiva, e os rituais são poderosos porque trazem isso à tona. A repetição de gestos específicos que induzem a percepção e aguçam os sentidos faz o ordinário parecer extraordinário. Para mim, usar gestos simbólicos com intenção nas rotinas diárias, como a de criação, por exemplo, assegura a qualidade do tempo, que associo ao nível de presença. Isso torna a vida mais mágica porque conseguimos captar as nuances. Esse estado me ajuda a criar um campo de sensibilidade e segurança que orienta as escolhas estéticas.

O mercado musical atual é guiado pela imagem rápida e pela ansiedade do lançamento constante. O que existe de inegociável no seu processo de maturação que te impede de entrar nessa corrida frenética por novidade a qualquer custo?
Na lógica do mercado, um álbum fica velho muito rápido hoje em dia, o que é muito complicado para toda a cadeia produtiva da música. Fazer disco da forma como eu acredito não é um processo mecânico ou industrializado. Está muito mais próximo do trabalho manual, artesanal, então leva tempo. Além disso, o que eu crio precisa fazer sentido para mim, em primeiro lugar. Isso significa que preciso gostar o suficiente das músicas e sentir que elas têm relevância para serem lançadas. Para isso, preciso viver, ter experiências novas entre os trabalhos, testar processos diferentes. Se eu me orientar pelas exigências externas para criar, dificilmente vou conseguir respeitar o tempo de maturação das ideias, das sonoridades e das próprias canções. Os discos levam um tempo para acontecer, e é preciso respeitar esse tempo.

Sua música tem uma característica imersiva que costuma alterar a percepção do ambiente. Que tipo de mudança de estado ou sensação física você busca provocar em quem é atravessado pelo seu som no meio de uma rotina urbana comum?
Valorizo muito o sabor dos momentos, a presença e a qualidade do tempo. Faço música para viver com conexão e sensibilidade, para traduzir e transformar meus próprios sentimentos. É uma espécie de processo de cura. A música, no geral, tem esse poder de transformar o ânimo, de nos suspender no tempo, de preencher o peito. Quando idealizo um álbum, um show ou um vídeo, gosto de brincar com todos os sentidos para criar esse espaço-tempo onde as pessoas vão entrar. Não tenho controle sobre o que o público vai sentir, mas acredito que o estado de espírito do processo criativo de alguma forma se imprime nas músicas. Quando as pessoas me dizem que se identificaram, foram tocadas pelo som ou se conectaram com o disco, o trabalho adquire um sentido muito maior.

RIDER TÉCNICO DE PISTA PARA ASSISTIR PAPISA

▶︎ COORDENADAS
Onde. Domingo 22/03 às 12h45 no Palco Budweiser. ★ O Cenário. O domingo de Lollapalooza abre os portões com o sol a pino e a pista sedenta por música nova. Papisa assume o palco monumental para inaugurar os trabalhos do dia com uma imersão sonora absoluta, provando que o primeiro show da tarde tem força para ser o mais magnético do festival. ★ O Veredito. A fenda temporal perfeita no asfalto de Interlagos. Um convite irrecusável para afinar a audição e deixar a arquitetura climática da artista recalibrar a sua mente, ditando um ritmo denso e sofisticado para o resto do fim de semana.

▶︎ PRESTE ATENÇÃO
A Geografia do Som. O som dela exige absorção tátil e o Palco Budweiser é colossal. Esqueça a grade e o gargalo visual. Posicione o corpo na metade da pista, perfeitamente alinhado com as caixas de som centrais. É o perímetro exato onde a textura analógica envelopa a plateia e o grave bate no peito com precisão cirúrgica. ★ A Etiqueta da Presença. A estética da artista abomina a dispersão e a rodinha de conversa inútil. A regra aqui é ancorar os pés no asfalto, fechar os olhos e permitir que a densidade do arranjo dite o pulso. Deixe o celular no bolso e consuma o volume que a música exige com foco letal. ★ A Arquitetura da Mixagem. Repare na paciência absurda da construção sonora. A mágica não está na explosão de um refrão óbvio. A genialidade mora no empilhamento de frequências e na maneira como a voz flutua por cima da cama instrumental com um domínio absoluto da atmosfera.

▶︎ HARMONIZAÇÃO SONORA
O Mood. Um clube de escuta cerebral e fervente a céu aberto. ★ O Look. Alfaiataria urbana desconstruída: óculos de acetato grosso para cortar o sol do meio-dia e um tênis confortável para manter a estabilidade enquanto o peso do som faz o trabalho duro. ★ O Drink. Um cold brew intenso ou um gin tônica extremamente seco. A complexidade do show pede um paladar afiado e a mente em alerta máximo para capturar cada detalhe da produção.

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Fotos por Maria Cau Levy

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