Papangu

Entre o jazz torto e o sludge metal, a banda paraibana Papangu usa o território como tensão estética e não como folclore, explicando por que um show perigoso é melhor que um show perfeito.

O domingo de Lollapalooza costuma ser o dia da consagração pop e dos grandes encerramentos festivos. A escalação da Papangu quebra essa lógica e insere uma dose necessária de risco na programação do dia 22 de março no Lolla. O som deles não está ali para agradar multidões, mas para desafiá-las.O grupo mistura a lama do metal extremo com a complexidade rítmica do progressivo e constrói uma música onde a beleza nasce justamente da instabilidade. É a sensação constante de que tudo pode desmoronar a qualquer segundo e é isso que torna a experiência viciante. Nesta conversa para a série deepbeep no Lolla, Rodolfo e Queco explicam como levam esse malabarismo sonoro para o mainstream mantendo a autenticidade de quem vê beleza no precipício. Para entender onde você está se metendo, fizemos um pedido antes de começar. Queríamos uma seleção de faixas que explicassem o universo da banda por fora da discografia oficial. Vale metal, jazz torto ou trilha de filme esquisito, o que importa é a pressão. Dê o play.

★ BÔNUS: Ao final do papo, confira o Rider Técnico de Pista com a nossa curadoria tática para sobreviver ao show mais denso do domingo.

Marcelo Nassif, sócio-editor

O som de vocês junta peso, repetição hipnótica e uma tensão que nunca resolve fácil. Tem coisa de metal, de rock experimental e tem Paraíba ali no meio, mas nada disso aparece como cartão-postal. Como vocês equilibram esse lado técnico e quase obsessivo com a sujeira e a urgência que a música pede para continuar viva?
Rodolfo: Há um caldeirão de influências muito aquecido na banda; tentamos não nos prender a um gênero. Urgência é uma boa palavra mesmo. O malabarismo é um paralelo interessante também: conforme você adiciona novas bolas, clavas ou pinos, a tensão e a responsabilidade aumentam — bem como o espetáculo. Há também a constante expectativa de que tudo desmorone. Acidente de Fórmula 1 também dá ibope, não só a corrida.

Queco: É interessante não ter o controle de tudo a todo tempo, musicalmente falando. Às vezes conversamos sobre como muitas gravações de rock ou metal atualmente tendem a apresentar os elementos de uma maneira ajeitadinha, metrificada, todas planejadas e seguindo um metrônomo à risca. Para nós isso faz sentido às vezes, e muitas outras vezes não faz. A gente entende que para ter esse equilíbrio entre urgência, liberdade e técnica, é preciso caminhar à beira do precipício. E é muito divertido.

Muita banda brasileira ainda cai na armadilha do regionalismo de vitrine, fácil de exportar e fácil de consumir. Vocês vão por outro caminho, usam o território como clima, como ameaça, como pressão no ar. Quando perceberam que essa era a linguagem de vocês e não um estilo para ilustrar?
Rodolfo: Usar o regionalismo como roupagem não nos interessa. Na verdade, a própria palavra “regionalismo” — às vezes erroneamente utilizada para nos descrever — reflete um certo descolamento ou preconceito que atribui às expressões artísticas nordestinas ou de vanguarda uma característica supostamente ausente nas expressões artísticas hegemônicas.
Se não escrevermos e cantarmos com nosso idioma, sobre o que acreditamos ou enxergamos, com as vozes que temos e a nossa vivência musical, social, cultural e econômica, não seria possível alcançar — ou ao menos almejar — autenticidade.

Aliado a isto, acho que há um profundo desejo de colocar o imaginário social, ambiental, linguístico, folclórico, histórico e econômico como personagem. Tem um pouco de In medias res, não subestimar o ouvinte e juntar inspirações multiartísticas, sejam da literatura, das artes plásticas ou de jogos.

O Lollapalooza é um festival de massas, com um público acostumado a consumir música em cortes rápidos, refrões prontos e hits reconhecíveis. O Papangu chega com um som que pede mais atenção do que distração. Quando pensam nesse palco gigante, a ideia é seduzir, atropelar ou deixar o público meio sem saber se foge ou fica?
Rodolfo: Nós nos orgulhamos de ter um repertório longo, que permite certa adaptação e flexibilização do setlist conforme o palco e o público. Ainda assim, há conceitos inegociáveis: improviso; o contraste entre descontração e complexidade; e transições súbitas de dinâmica, timbre, peso, velocidade e ritmos. A ideia é seduzir, atropelar e deixar o público meio sem saber se foge ou fica.

Queco: Nós já tocamos em ambientes em que, em tese, éramos a banda mais pesada e em outros ambientes em que, em tese, éramos a banda mais mansa. Sabemos que o Lollapalooza é um festival enorme e voltado para um público que não necessariamente conhece a Papangu, mas não nos sentimos pressionados a entregar um repertório e uma apresentação que comprometam quem nós efetivamente somos como banda. Se chegamos até aqui com o nosso jeitão de ser, não é agora que vamos ceifá-lo para nos adequar, sob pena de perder toda a nossa autenticidade e aquilo que nos faz únicos. Então o público pode esperar os inegociáveis da Papangu, como Rodolfo bem descreveu, no palcão do Lolla.

O disco Holoceno rodou o mundo, atravessou cenas e chegou em ouvidos muito diferentes do que costuma circular no underground brasileiro. Quando o público não entende a língua, mas entende o peso e o clima, o que vocês acham que ele escuta no Papangu? O que atravessa sem tradução?
Rodolfo: O posicionamento dentro do rock progressivo e metal vanguardista, gêneros tipicamente consumidos no Norte Global, facilita a digestão das características menos usuais da Papangu para o público não lusófono. Acredito que há uma predisposição ao estranho nos circuitos que cobrimos, então talvez eles abstraiam parte da incompreensão, filtrando o restante como exótico e desejado. De toda forma, tentamos, em nossas primeiras experiências de shows na Europa, ser didáticos e prover pequenas doses de contexto, como um “essa música fala sobre um rio no Brasil, vocês podem cantar o refrão conosco: Sããão Franciiiiiisco”, que foi rapidamente ecoado.

O som de vocês não é só para ouvir, é para sentir. Tem gente que sai do show meio tonta, meio em transe. Quando o último feedback morre e a luz acende, o que vocês gostariam que ainda estivesse vibrando em quem ficou ali até o fim?
Rodolfo: Uma vontade de dançar forró e bater cabeça.

Queco: A vontade de se tornar um(a) propagador(a) da banda, de ir em outros shows, sabendo que vai ser tudo diferente, mas igualmente vivo e com a garantia de que a gente entregou tudo que tinha.

RIDER TÉCNICO DE PISTA PARA ASSISTIR O PAPANGU

// COORDENADAS & CONFLITOS

Onde: Domingo, 22/03. ★ O Cenário: Você estará num sanduíche entre a euforia pop do encerramento do festival e o cansaço físico acumulado de três dias de maratona. ★ O Veredito: Priorize a Papangu se você cansou da perfeição. Enquanto o palco principal entrega coreografia e autotune, a Papangu oferece perigo real. É o momento do dia para sujar o tênis e lembrar que música boa também pode ser desconfortável.

// PRESTE ATENÇÃO

A Estética do Colapso: Rodolfo usou a metáfora do “acidente de Fórmula 1”. O show não é sobre precisão milimétrica, é sobre a iminência do erro. Tente perceber o momento em que a música parece que vai desmoronar, mas se segura na beira do precipício. É ali que está a técnica. ★ A Muralha de Sete Cabeças: A banda opera com várias guitarras, sintetizadores e percussão simultânea. A grade garante o impacto físico, mas esconde a arquitetura. Para decifrar as camadas do zeuhl e do sludge sem que vire apenas barulho, o recuo é tático: cole perto da house mix (a torre de som) para ouvir a definição que a complexidade da banda exige. ★ O Anti-Folclore: Esqueça o regionalismo de vitrine. Quando eles citarem o Nordeste, não é para turista ver. Repare como a percussão e as referências à Paraíba entram como tensão e ameaça, não como “cor local”. É a terra como peso, não como paisagem.

// HARMONIZAÇÃO SONORA

O Mood: Arrasta-pé no Inferno. Como a banda definiu: “vontade de dançar forró e bater cabeça”. É o único show onde o moshpit tem um balanço estranho. ★ O Look: Camiseta de banda com logo ilegível e calçado de guerra. Aqui a estética é o suor. ★ O Drink: Cerveja lager não segura essa bronca. O som pede algo terroso e de graduação alta, como um Rabo de Galo ou uma dose de cachaça para acompanhar o peso do sludge.

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Fotos por Helder Bruno

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