
A lógica do tubarão. Thunderbird fala sobre levar o caos de sua vida para o cinema e a recusa em enferrujar: quem para de descobrir música morre.
Luiz Thunderbird já garimpava novidades muito antes da palavra curadoria se banalizar. Ele encarna a urgência de apresentar o novo e a coragem de misturar o clássico obscuro com a vanguarda. Enquanto o mundo consome no piloto automático, Thunder segue operando na frequência da inquietação. Nesta conversa, ele revela que sua autobiografia está virando roteiro de cinema e lista seus (muitos) projetos atuais. A filosofia é simples: parar de ouvir música nova não é aposentadoria, é ensaio para a morte. Acompanha a playlist O Choque Elétrico, que vai de Pink Floyd a Odair José sem pedir licença.
Lísias Paiva, editor-fundador
Você foi curadoria antes de existir curadoria. Era o algoritmo pré-histórico, apresentando bandas novas no ritmo de quem descobre um tesouro. Hoje, todo mundo é um pouco VJ, todo mundo comenta tudo o tempo todo. Como você reencontra sua própria frequência nesse mar de vozes?
Continuo instigado por novidades e instigando as pessoas com meus trabalhos musicais e meu podcast. Quando faço meus shows, invariavelmente incluo algo clássico pouco conhecido ou algo novo no repertório. No Podcast do Thunder eu levo artistas consagrados e novíssimos representantes da música brasileira.
A sua assinatura sempre foi energia, humor, caos organizado, um certo deboche que não envelhece. Depois de tantas reinvenções — TV, rádio, YouTube, livros, palcos — o que manteve esse núcleo duro intacto?
A minha formação musical, com os discos, os estudos, as experimentações musicais e culturais, me deu base sólida e convicção de estar fazendo algo importante e significativo para mim e para as pessoas à minha volta. A adaptação da TV para o YouTube, do rádio para o podcast, do livro para o cinema me deu trabalho, obviamente. Mas me trouxe satisfação também.
O deepbeep defende a escuta atenta num mundo que engole tudo em velocidade 2.0. Você viveu a época em que se esperava a madrugada inteira por um clipe. Hoje a gente tropeça em cem por minuto. Como você lida com esse excesso sem perder o prazer raro de descobrir algo de verdade?
Eu continuo consumindo o que conhecia e acrescento novidades o tempo todo. É um prazer muito grande descobrir uma nova banda, uma nova tendência, um novo artista, uma nova trilha a ser percorrida. Estou sempre em movimento e à procura de novidades. Que venham!
Escrever sua biografia exigiu método, memória e alguma disciplina. Tocar e apresentar exigem improviso, presença, risco. Como esses dois tempos convivem no seu processo criativo? O passado te empurra ou te atrapalha?
A biografia foi muito difícil de realizar. Começou com depoimentos gravados, que foram perdidos. Resolvi escrever eu mesmo minha história. Quase no final dessa tarefa, perdi tudo o que havia escrito. Refiz tudo de novo e acho que acabou ajudando na realização dessa obra. A novidade é que LG Bayão está escrevendo um roteiro para o cinema, baseado na minha autobiografia. Eu tenho muitos trabalhos e projetos musicais: os Devotos de Nossa Senhora Aparecida, que completam 40 anos de estrada; o meu disco solo, que lancei em 2022 e já estou preparando mais um; a banda Elektromotoren, com Guilherme Held e Sergio Machado; a banda Tarântulas & Tarantinos, que traz as trilhas sonoras dos filmes do Quentin; a Orchestra Jupiteriana, que homenageia meu amigo Júpiter Maçã; meus projetos acústicos com Tatá Aeroplano, Lucinha Turnbull, Fabio Tagliaferri e Mario Manga; o espetáculo “História Ilustrada do Rock Brasileiro”, que faz uma linha do tempo do estilo no Brasil; minha atuação no cinema, recentemente retomada com o longa “Assalto à Brasileira”… tudo tão intenso e trabalhoso. Adoro estar bastante ocupado!
Você nunca parou. Nunca. Depois de tantas ondas, apagões e renascimentos, qual é a inquietação que ainda te move? O que você ainda está tentando sintonizar no outro lado da caixa de som?
Sempre tem algo a ser revisitado, reinventado ou a ser realizado. Eu não posso parar, tipo tubarão mesmo! Se eu parar, eu estarei pronto para a morte. Ainda é cedo.
Acompanhe o trabalho de Luiz Thunderbird
Luiz Thundebird no Instagram
Podcast do Thunder
Fotos: André Peniche
Agradecimentos: Piky Candeias Comunicação
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Aqui no deepbeep, cada entrevista vira uma playlist. Cada playlist, um jeito novo de ouvir.
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