Entre a rua e a sala de aula, Luiz Antonio Simas procura o conhecimento que continua circulando fora da formalidade.
Há lugares onde uma conversa pode durar mais do que deveria. Uma mesa de bar, uma esquina, uma feira. Para Luiz Antonio Simas, a rua ainda guarda formas de convivência que a cidade acelerada vem perdendo. Quando o tempo passa a ser organizado pela pressa e pela produção, até sentar na calçada pode parecer uma atividade sem função.
Simas leva essa atenção para o que pesquisa, escreve, compõe e ensina. Nas ruas, nos botequins, nas festas e nas práticas culturais, encontra formas de conhecimento que não dependem de uma sala de aula para existir. Também leva a música a sério, não só como ouvinte, já teve mais de quarenta canções gravadas por outros artistas e diz que algumas ideias aparecem nos lugares mais improváveis, como uma fila de banco. Depois da inspiração, vem o trabalho de lapidar a letra.
Ele também questiona o que acontece quando uma manifestação cultural vira um evento pensado para o mercado. Existe uma diferença entre um evento que nasce de uma prática cultural e um evento criado para transformar a cultura em produto. Na conversa com o deepbeep, a rua vira ponto de partida para pensar o tempo das cidades, a cultura e a própria música. Com Simas, uma canção não precisa resolver nada, pode alcançar aquilo que a escrita sozinha não consegue dizer.
A playlist “A Urgência do Tempo Lento” continua a conversa com melodias que, para ele, não cabem em explicação.
Por Claudio Thorne, Redes e Comunidade
Com supervisão de Lísias Paiva, Sócio-Fundador
Você costuma olhar para a rua como lugar de saber, não só de passagem. Em que momento a gente desaprendeu a escutar o que está acontecendo ali?
Tenho a impressão de que o que acontece com as ruas é um sintoma de uma disputa que marca as grandes cidades no século XXI: elas são lugares de passagem, circulação de mercadorias, automóveis e corpos disciplinados pelo tempo da produção; ou são lugares que proporcionam ainda o encontro e a fruição do tempo? As sociabilidades de rua, presentes nos botequins, esquinas, pequenos comércios, feiras e mercados populares, têm sido solapadas pela financeirização da vida. A domesticação do tempo e dos corpos – submetidos a essa lógica – esvazia a rua de sentidos mais profundos. Se antes observávamos e percebíamos o que ocorria na rua a partir de uma mesa de bar, hoje é mais provável que entremos no bar e enterremos nossas caras nas telas dos celulares. Apesar do diagnóstico, sou um paradoxal pessimista esperançoso – ainda acho que há espaço para que as ruas sejam disputadas. O jogo está aberto. Estamos perdendo, mas tem jogo.
Hoje existe uma tendência de transformar cultura popular em conteúdo explicável, embalado e pronto para consumo. O que se perde quando a gente tenta traduzir tudo?
Eu acho que o problema já começa até com a tentativa de definir o que estamos chamando de “cultura popular”, conceito que em geral encontra o contraponto na ideia de uma cultura erudita. Gosto de trabalhar cada vez mais com a ideia de “culturas tradicionais”. Percebo a cultura como um campo simbólico e material de invenção e reprodução dinâmica de sentidos de mundo que caracteriza os grupos sociais. Isso inclui as maneiras como brincamos, dançamos, comemos, bebemos, celebramos a vida, ritualizamos a morte, rezamos etc. Tradição não é algo estático, mas dinâmico, que opera na dimensão da preservação de legados e saberes que, ao mesmo tempo em que se ancoram no passado, dialogam e dão sentido ao presente. São, portanto, experiências orgânicas que podem ser percebidas, interpretadas, estudadas, mas que dificilmente podem ser vivenciadas em plenitude por quem está fora da comunidade que a produz. O risco maior é nos aproximarmos das culturas tradicionais a partir do que chamo de “simpatiapitoresca”, desconsiderando a sofisticação e a complexidade dos saberes que ali circulam em nome de certa fruição estética esvaziada de sentidos mais amplos.
No meio da sua rotina, fora da escrita e das aulas, em que momentos a música entra na sua vida sem pedir licença — e o que ela resolve ali?
Eu tenho relações um pouco diferentes com o ato de escutar música e o de compor canções. A música faz parte da minha rotina. Ela está presente nas minhas aulas e no meu cotidiano. Eu escrevo ouvindo música, por exemplo. Do ponto de vista da composição – já são mais de quarenta canções gravadas por uma turma boa – o negócio é diferente. Todas as canções que fiz, como melodista ou letrista, começam com uma inspiração que vira transpiração. A inspiração faz o processo de composição deslanchar, e aí mora um mistério insondável – já tive ideias de melodias e letras nas situações mais inusitadas, como em filas de banco. Mas a partir da inspiração vem um trabalho árduo para lapidar e desenvolver a canção; nem sempre bem-sucedido. Eu não tenho com a música – ao contrário da minha relação com a história ou a escrita – nenhuma intenção utilitarista. A música não resolve nada – ela apenas traduz certos espantos indizíveis que, ao menos para mim, a escrita não alcança. É a minha forma predileta de acariciar o mundo.
A música popular brasileira sempre foi um lugar de disputa, mas também de síntese. O que a música ainda consegue dizer sobre o Brasil que outros campos já não conseguem mais?
Nós somos um país fundado em projetos de exclusão de longa duração – e isso envolve a Colônia, o Império e a República. A história da escolaridade no Brasil – com honrosas exceções – é mais uma história de manutenção de privilégios seletivos que de tentativa de pensar a escola como uma instituição promotora de um país mais justo e igualitário. A partir desse pressuposto, considero que o fenômeno educativo no Brasil sempre se manifestou mais fora do que dentro de sala de aula, já que educação e escolaridade não são a mesma coisa. Levando essa percepção para a indagação feita, digo que a música popular foi um poderoso canal de expressão do cotidiano, das percepções de mundo, dos anseios, belezas, preconceitos, ódios e amores de uma população alijada da escola e de acesso pleno ao livro, por exemplo, e de uma parte da sociedade que usufruiu de privilégios e constatou, ou não, os dilemas da nossa formação em suas canções. Digo isso sem qualquer juízo de valor – é uma constatação da nossa história. Nesse sentido, a música popular expressa e aponta vestígios para a compreensão do Brasil que outros campos talvez não tenham conseguido expressar com a mesma complexidade de sentidos e difusão popular.
Tem muita gente falando sobre cultura popular sem viver nada dela. O que denuncia isso na hora?
Tenho certa dificuldade de responder a essa questão sem parecer que ando dando pareceres de legitimidade sobre as culturas populares e tradicionais. Eu prefiro constatar que vivemos tempos em que o evento da cultura passa a ser engolido pela cultura do evento. Eventos da cultura são orgânicos, ocorrem porque há dimensões que englobam vivencias culturais que se manifestam em celebrações, modos de fazer, tessituras de vida. A cultura do evento mensura tudo pela dimensão do mercado. Walter Benjamin, filósofo que me inspira bastante, dizia que o capitalismo se tornou uma religião, em que o sujeito está incessantemente inserido em uma busca constante de redenção a partir do trabalho. A produção e o consumo constante de mercadorias são como rituais que apontam para uma tentativa de salvação que nunca chega. Essa dimensão do capital tem a tendência de atrair para a sua zona gravitacional todos os sentidos das nossas vidas; inclusive aqueles vinculados ao campo da cultura. Como lidar com isso é um desafio colocado para quem trabalha, vive e faz cultura no Brasil.
A Playlist “A Urgência do Tempo Lento” comentada por Luiz Antonio Simas
1. Ordenes, farei — Cartola e Aluizio Dias
A música que selou minha conversão, ainda menino, ao samba.
2. Lôro — Egberto Gismonti
A melodia mais sublime que um ser humano concebeu.
3. Conversa de botequim — Vadico e Noel Rosa
O casamento mais bem acabado entre melodia e letra da história da canção popular.
4. O Boto — Antônio Carlos Jobim e Jararaca
A vastidão florestal e das águas do Brasil em uma canção.
5. Arco-Íris — Sombrinha e Luiz Carlos da Vila
A canção que ouço quando quero me alegrar.
6. Paixão e Fé — Tavinho Moura e Fernando Brant
Inexplicável. A gravação da Simone é ótima, mas a do Milton Nascimento atinge o indizível onde eu desconfio que morem os anjos.
7. Qualquer canção praieira de Caymmi.
Dorival Caymmi.
8. Melodia Sentimental — Heitor Villa-Lobos
Um disparate tentar definir a beleza dessa canção.
9. Evocação nº 1 — Nelson Ferreira
Um frevo deslumbrante. Como filho e neto de pernambucanas, essa canção tem cheiro de infância. A família cantava sempre em finais de festas.
10. O Rancho da Goiabada — João Bosco e Aldir Blanc
A música que melhor define a história que faço e tento divulgar nos meus livros.
11. Pra Curar a Dor do Mundo — Luiz Antonio Simas
Vou fechar com uma canção/oração que compus e Marcelo D2 gravou lindamente. É uma canção sobre a urgência do tempo lento; um louvor a Zambiapungo, Tempo, entidade dos candomblés de Angola. Rezo com ela.
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