Ludom

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O R&B que sorri no abismo. Ludom transforma caos em ritmo e mostra que sentir também é força.

Ludom faz uma música que engana o ouvido. À primeira escuta, tudo parece leve: o R&B de pista, as texturas quentes, o balanço que chama o corpo. Mas existe outra camada escondida ali, a das rachaduras. O novo álbum habita esse território tenso onde o sublime convive com o colapso e onde um groove luminoso carrega uma verdade que arde. Em um momento em que tanta música vira ruído de fundo, Ludom usa ritmo como um jeito de encarar o que dói e transformar vulnerabilidade em força. Nesta conversa, ela fala sobre ansiedade, melodia, presença e o ofício de compor com honestidade. A playlist “Entre o Sublime e o Colapso” arremata essa travessia, reunindo faixas que, como as suas, escondem tempestades dentro do balanço.

Lísias Paiva, editor-fundador

Ludom, seu novo trabalho habita um território de ambiguidade, entre a canção de amor e a crônica sobre saúde mental. Qual é, para você, a principal função da sua arte hoje?
A arte, para mim, é um espelho que não devolve só o rosto, devolve o que a gente sente, o que tenta esconder e o que sonha ser. Eu faço música para me curar e para compartilhar o caminho que eu tive para a cura. É um jeito de transformar o caos no que é belo, o colapso em ritmo, a confusão em transformação.

A dualidade parece ser a marca deste álbum, a tensão entre o sublime e o colapso. Como você encontra, no processo de composição, esse equilíbrio entre uma letra que pode soar como romance, mas que traz por baixo um subtexto de escapismo e ansiedade?
Sempre que penso em como escrevo, me vejo num redemoinho com meu caderno. Às vezes uma canção começa como um amor, mas termina como uma sessão de análise em que eu me desvelo e mostro algo ruim de mim. Outras vezes é o contrário: vem de um buraco escuro e acaba virando um abraço. Eu deixo as músicas me atravessarem, elas me dizem o que querem ser, como querem se mostrar para o mundo. O amor, o medo, a esperança… a beleza está nessa bagunça toda.

O deepbeep se inquieta com a forma como os algoritmos podem achatar a profundidade da arte. Seu som é cheio de camadas, misturando R&B, pop e elementos afro-diaspóricos. Como você enxerga o desafio de fazer esse trabalho respirar em um mundo de consumo tão acelerado?
É realmente desafiador, mas minha busca é pelo meu público real, pessoas que se sentem tocadas pelos sons, ou que me viram tocar em algum lugar do Brasil ou do mundo e vieram me falar como se sentiram. É muito mais sobre ser uma trabalhadora da música para a música e poder ver o impacto de algo que escrevi tão intimamente dialogando com mais pessoas. Não estou preocupada com números, e sim com a verdade de como a música pode impactar.

No estúdio, como você transforma essa escrita ambígua em som? Que caminho você percorre com os produtores para encontrar uma sonoridade que revele a sensualidade do R&B e o peso da angústia?
Quem me conhece sabe que sou elétrica, então não paro até conceber a ideia. Geralmente começo algo em casa — melodias, grooves, texturas — uso meu teclado para compor e depois mando o caminho trilhado para os meus produtores Ilarindo, Felipe Rodarte, Theo Zagrae e Rodrigo Ferrera, que me devolvem mais ideias. Eles entendem esse universo, com o R&B de Stevie Wonder, o Neo Soul de D’Angelo, os Afrobeats de Fela Kuti, o Amapiano da África do Sul e tudo isso com sotaque na MPB. Assim nasce a Ludom. Da fusão.

Suas músicas falam sobre flutuar em meio ao caos. No fim das contas, qual é a principal sensação ou abraço que você espera que sua música ofereça para quem está tentando viver “sem dilema”?
Quero que as pessoas respirem mais, saca? Que tenham mais alívio com suas verdades, sejam elas quais forem. Meu grande desejo é que eu aprenda que “está tudo bem sentir”, ser vulnerável. E se essa leveza me move, acho que pode mover mais corações. Viver “sem dilema” não é ser leve o tempo todo, é ser verdadeiro. Se alguém, ao ouvir Ludom, se sentir menos sozinho, já valeu o som inteiro.

Se a sua vida tivesse que ser resumida em um dueto improvável, você e um artista de qualquer época ou gênero, quem seria e por quê?

Seria com a Erykah Badu, porque ela tem coragem e muita originalidade para fazer o que quer. Canções como “Out My Mind, Just in Time” ou “The Healer” me atravessam porque falam de saúde mental, espiritualidade e identidade de um jeito que poucas pessoas têm coragem de abordar. É o caminho que trilho no álbum Ludom. No fundo, é isso que eu também busco: que minha música abrace quem está cansado, quem quer flutuar por um instante, quem precisa respirar e lembrar que ainda existe beleza, mesmo no meio do caos.

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Fotos: Marcos Hermes

Agradecimentos: Dobra Música (Julianna e Wagner)


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