Juh Almeida constrói imagem antes da câmera existir

Juh Almeida cria playlist para o deepbeep

Entre silêncio, respiração e trilha, Juh Almeida dirige imagens que não explicam. Convidam.

Juh Almeida não começa pela imagem. Começa pela escuta. Antes de qualquer enquadramento, existe um estado. Um tempo que não se mede em duração, mas em respiração. A cena não entra pronta. Ela aparece aos poucos, guiada por gesto, silêncio e presença. A formação atravessa esse processo. Bahia, corpo, ritmo, mar. Referências que não funcionam como estética, mas como lógica de construção. Em vez de impor velocidade, Juh escuta o que a imagem pede. Às vezes, urgência. Às vezes, pausa. Quase sempre há espaço. No trabalho entre publicidade, cinema e televisão, essa lógica se adapta sem se diluir. Mesmo quando o tempo encurta, ela busca fissura. Um detalhe que escapa, um respiro que impede a imagem de virar superfície lisa. Como diretora de cena na Café Royal, opera nesse limite entre estrutura e desvio, mantendo assinatura mesmo dentro de formatos rígidos. A trilha entra como camada, não como solução. Sons com memória, texturas menos óbvias, ruídos do cotidiano. O que organiza o olhar antes mesmo da câmera existir. Pro deepbeep, Juh fala sobre ritmo, presença e a construção de novos imaginários. E compartilha a videolist e playlist Imagem em Estado de Som. Uma seleção que funciona como base de criação. Música que não ilustra. Sustenta.

Lísias Paiva, sócio-fundador

Juh, quando você começa um projeto, como decide o tempo em que a imagem precisa acontecer?
Não começo pensando em tempo como duração, mas como estado. Acredito que a imagem precisa acontecer no tempo da respiração dela. Às vezes ela pede silêncio, às vezes pede urgência. Tento escutar o que aquela cena quer ser e comunicar antes de impor um ritmo. Muitas vezes esse tempo vem do corpo, do olhar ou do gesto das pessoas que estão em cena. Eu vim da Bahia, do batuque, do berimbau e também do silêncio e tempo dilatado do mar, então essas premissas seguem me norteando na vida e no cinema.

Existe um ritmo muito próprio nas suas imagens. Como você constrói esse tempo para manter quem está assistindo presente?
Penso muito em presença como troca. Enxergo o espectador como parte da cena, então não me interessa prender pelo excesso, mas convidar pelo detalhe, pelo que escapa do quadro. Trabalho com pausas. Gosto de deixar espaço para quem assiste respirar junto com a imagem, se conectar e alinhar ao seu repertório. O ritmo vem muito disso. De não explicar tudo e confiar no que a trilha pode conectar.

A trilha muitas vezes resolve o que a imagem não sustenta sozinha. Onde você encontra som para construir esse estado sem recorrer ao óbvio?
Penso a trilha como camada. Busco som em lugares que já carregam memória. Músicas que têm textura, gravações mais cruas, às vezes até sons ambiente, som de vida acontecendo, de mar, de rádio da casa da minha mãe na Bahia, de vento balançando árvores, das patinhas do meu pet correndo em minha direção. Ainda tento ver no cotidiano uma trilha para embalar essa vida urbana e frenética que levo e que no fim do dia vira música.
Saindo do metafórico, escuto muita coisa fora do circuito mais imediato. Por isso, pesquiso artistas que aparecem no Colors, Spotify e Tiny Desk. Sons que não estão tão saturados. Gosto quando o som não entrega o sentimento de forma direta, quando tensiona a imagem e surpreende.

Você trabalha entre publicidade, cinema e televisão. O que muda na forma de organizar ritmo e impacto em cada formato?
Na publicidade, o tempo é mais comprimido, então o impacto precisa ser mais imediato. Ainda assim, tento criar alguma fissura, algum respiro ali dentro. No cinema consigo alongar o tempo da trilha, construir atmosfera, deixar a imagem existir mais. Já na televisão, tem um diálogo com fluxo, continuidade e narrativa, então o ritmo precisa conversar com isso sem perder identidade. No fim, o desafio é manter uma assinatura mesmo mudando a estrutura.

Você fala sobre construir novos imaginários. Que tipo de imagem ou som ainda não apareceu e você sente falta?
Sinto falta de imagens de intimidade negra que não estejam atravessadas pela dor como ponto central. Afeto, cotidiano, descanso, silêncio ainda são pouco explorados com profundidade. E no som também. Trilhas que acompanhem esses estados sem dramatizar tudo. Acho que ainda estamos construindo esse espaço onde a existência pode ser complexa, mas também leve. É o que tento trazer nos meus filmes autorais.

Existe algum som ou memória que você evita porque mexe demais com o seu estado de criação?
Sim. Tem sons que carregam uma memória muito específica ou são muito óbvios no que se espera que criadoras negras apresentem, como samba, funk, reggae, afrobeat e axé. Tento trazer esses ritmos atrelados a outras camadas, como sons sintéticos, eletrônicos, nuances dilatadas, R&B e experimentações sonoras em segunda ou terceira camada, para não costurar o processo com algo muito fechado.

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Fotos por Lóren Rech

Agradecimentos à Barbara Godoy da FT Estratégias

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