Jadsa usa a guitarra como percussão e tensiona o Lollapalooza

Jadsa para deepbeep no Lolla

Jadsa desmonta o mito da guitarra virtuosa e explica como levar a crueza dos inferninhos para o palco aberto de um festival gigante.

Em mais um mergulho da série deepbeep no Lolla, a guitarra de Jadsa recusa o caminho óbvio e não pede licença. Ela subverte a lógica do instrumento para criar uma estrutura sonora onde o ritmo engole a melodia e a musicalidade baiana encontra o concreto da vanguarda paulista. Em um mercado focado na exatidão dos números e na métrica curta, Jadsa responde com quebras de tempo, vozes percussivas e a sujeira intacta dos espaços independentes. A artista prepara essa voltagem para o Lollapalooza, provando que a invenção real sobrevive no palco e domina a imensidão do autódromo. A conversa com o deepbeep desce acompanhada da playlist O Manual da Guitarra Torta. O resultado é um nó na cabeça. Ela selecionou faixas com as guitarras mais estranhas do mundo, dissecando o próprio instrumento.

★ BÔNUS: Ao final do papo, confira o Rider Técnico de Pista para curtir o show da Jadsa: nossa curadoria tática com os detalhes invisíveis do show e a harmonização ideal para inaugurar os trabalhos em Interlagos.

Marcelo Nassif, sócio-editor

O Brasil tem uma tradição de guitarristas virtuosos que tocam mil notas por segundo. O seu estilo vai na contramão, é sobre o espaço, o quebrado, a nota errada no lugar certo. Você se vê como alguém que está reprogramando o papel da guitarra? A intenção é fazer dançar ou causar desconforto?
Adoro as mil notas por segundo! Acho incrível como a mente humana nos faz desenhar milhares de quadros coloridos através de um instrumento. E dentro dessa ideia eu não me vejo subversiva no meu modo de tocar. Só penso em imprimir a percussão na guitarra. Eu sou movida pelo ritmo, e a minha parceria com esse instrumento múltiplo me dá a possibilidade de somar o canto com a percussão. Penso que carrego a Bahia nos meus dedos! É assim que consigo contar a minha história do meu jeito.

Existe um estereótipo preguiçoso de que a música da Bahia precisa ser solar e praieira. O seu som (especialmente em Olho de Vidro) é urbano, noturno, tem fumaça e concreto. Levar essa Bahia cinza e psicodélica para um festival pop é uma forma de disputar a narrativa do que é a música do Nordeste hoje?
O Olho de Vidro foi criado a partir de uma ponte Salvador-São Paulo e eu busquei entender o maior vínculo entre duas cidades mergulhando na Vanguarda Paulistana e nessa “Vanguarda Baiana”. Acho que por isso soa tão noturno e urbano. E ainda assim cito a praia e o sol. Penso que existem várias Bahias, mas o que me chama mais atenção são as frutas, o brilho da Lua, os sabores, a luz do Sol, as praias, as pessoas, as cores, o céu, a musicalidade e esse universo das mil sensações que o Nordeste me dá. E em Big Buraco (meu último disco) eu deixo toda essa informação se conversando. Acredito que a maior disputa aqui é fazer o rock nordestino mais acessível e trazer à tona outras temáticas que também pertencem a gente, mas, no fundo, no fundo, sempre tento atrair o ouvinte solar, apaixonado e praieiro, afinal de contas, eu faço parte desse público hahaha!

Sua música dialoga muito com a Vanguarda Paulista (Itamar Assumpção) e com os tropicalistas mais ácidos (Jards Macalé). Em 2026, com o algoritmo pedindo músicas fáceis de 2 minutos, insistir nessa linhagem complexa e cheia de quebras de tempo é um ato de teimosia ou de sobrevivência artística?
Nem tudo o que o algoritmo implica a gente tem que aceitar, né? Se fosse assim, não teríamos esses dois mestres para apontar como heróis. Itamar, na primeira oportunidade que teve de lançar um vinil completo, preferiu gravar um show ao vivo e esse show começa com uma composição de Macalé. Não parou por aí! Chamou o vinil de “As Próprias Custas” e a capa é de uma cobra de boca aberta. Na época foi uma loucura… mas e agora? O tempo ditou mais que a exatidão dos números ou os contratos de gravadora. É como um vinho. Acho isso INCRÍVEL. Não tenho medo do algoritmo, eu tenho é medo de não fazer o que eu quero. Pelo menos estou sendo fiel aos meus desejos.

Você é uma artista que cresceu no circuito independente, tocando em inferninhos e teatros. O Lollapalooza opera em uma escala monumental. Como você adapta a sujeira e a intimidade do seu som para um palco desse tamanho sem que ele fique limpo demais?
O underground é um poço de água pura. O Teatro, nem preciso falar. Tesouro vivo. O Lolla não abre mão dos artistas que resistem nesse espaço porque aí mora a grandeza. Estou me sentindo contemplada por poder levar a obra que criei nos braços. Se me chamaram, é porque querem me ouvir sendo verdadeiramente eu. Serei fiel ao que já faço. Quero ver o tamanho do bicho que é!

Seu canto muitas vezes funciona como mais um instrumento percussivo, brincando com a dicção e o ataque das palavras. É uma escolha estética para fugir daquela obrigação da cantora brasileira de voz bonita e afinada? O grito e o sussurro te interessam mais que a melodia perfeita?
Sempre pensei em ser autossuficiente, digo, ser a cantora e a banda que a acompanha, e acho que instintivamente cheguei nesse lugar de voz percussiva. O grito e o sussurro eu aprendi no teatro. Uma palavra pode significar tanta coisa, basta soar diferente. Mas nunca utilizei desses artifícios para encobrir uma imperfeição. Inclusive o “não ser perfeita” foi o que me trouxe aqui. Tentar sem medo de errar e errar fazendo. Pensando um pouco mais fundo, a língua portuguesa é linda demais e o que seria da gente sem as oxítonas, as proparoxítonas, onomatopeias e afins… Eu ainda tenho muitos “ais” e “uis” pra descobrir. Sou apaixonada por todas as possibilidades de cantos que nós temos… inclusive o “falar”.

RIDER TÉCNICO DE PISTA PARA ASSISTIR JADSA

▶︎ COORDENADAS
Quando Sábado 21/03 às 12h45 no palco Budweiser ★ O Cenário O sol batendo no asfalto e a dispersão térmica de quem acabou de pisar no autódromo. É o momento de transição entre o mundo lá fora e a imersão do festival. ★ O Veredito É o choque de realidade que o corpo pede. Se você precisa acordar para a maratona do fim de semana, o show dela entrega a voltagem necessária e calibra o ouvido na marra para o que vem pela frente.

▶︎ PRESTE ATENÇÃO
A Guitarra-Bateria A mão direita da Jadsa funciona como um motor de ritmo. Repare como ela ataca as cordas para gerar tensão física, dispensando o desenho tradicional das notas no ar. ★ A Voz Como Instrumento Fique atento ao momento em que o canto deixa de ser melodia tradicional e vira percussão pura, explorando a dicção de forma quase teatral. ★ O Concreto Baiano Observe o atrito entre a musicalidade nordestina e o peso urbano paulistano. A Bahia entra no som como pulso firme e atitude, longe do folclore de vitrine.

▶︎ HARMONIZAÇÃO SONORA
O Mood Despertador de asfalto. Uma injeção de café expresso direto na veia para inaugurar a pista de Interlagos. ★ O Look Óculos escuros essenciais para o sol a pino e tênis de combate. O visual precisa aguentar o calor e a poeira do início da tarde. ★ O Drink Água tônica com muito gelo e limão ou a primeira cerveja estupidamente gelada do dia. O som torto pede o paladar desperto.

Acompanhe o trabalho de Jadsa
Jadsa no Instagram
Ouça o novo álbum “Big Buraco” por Jadsa

Fotos por Liz Dórea

.


.

No deepbeep, a conversa começa com música.
Toda semana, novas histórias em forma de som. Assine a newsletter no rodapé.

Quer levar essa curadoria para a sua marca?
Fale com a gente: falecom@deepbeep.com.br

Ouça também