
O fotógrafo e diretor Hick Duarte explica como transformou o realismo brasileiro numa estética global e detalha o rigor que exige como jurado do m-v-f- awards.
Hick Duarte tem um olhar que ignora a fronteira entre a alta moda e o concreto. O trabalho dele construiu um imaginário visual para o Brasil contemporâneo cru e extremamente sofisticado. Ele recusa o registro passivo. Ele esculpe a realidade fundindo a urgência do fotojornalismo com o rigor do editorial. Como parte da cobertura do Music Video Festival que conta com o apoio do deepbeep, conversamos com o diretor sobre o treino do olho para extrair tensão do cotidiano e o que prende a atenção num cenário de leitura estilhaçada. Logo abaixo, a conversa e a videolist com a seleção feita pelo Hick.
Lísias Paiva, editor-fundador
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Seu trabalho cruza realismo documental e fantasia da moda, criando um Brasil que é potente, estiloso e vivo. Quando você constrói esse imaginário visual, o que acredita estar movendo politicamente e socialmente no país de hoje?
Eu acredito que a fotografia, não só pelo resultado, mas também pelo processo em si, pode transformar a vida das pessoas e fazer um comentário político sobre o que está acontecendo no mundo. Quando estou trabalhando, penso muito no time, nas pessoas que convido para criar aquele imaginário junto comigo. E isso não se estende só ao casting, mas também a quem está pensando a imagem. Acredito que isso faz com que o resultado final alcance mais pessoas e seja evidentemente o fruto de diferentes vivências e pontos de vista. Isso pra mim está no cerne de uma mudança política e social pela fotografia porque no final não é apenas sobre se enxergar nas histórias, mas também sobre quem tem a chance de contar. Levo isso pra tudo o que faço, mas especialmente o que realizo na Fenda, meu programa de residência artística, é totalmente fundamentado nessa ideia.
Sua fotografia tem uma textura única capaz de encontrar beleza no que é cotidiano no asfalto no corre. Como você treinou o olhar para ver o sublime onde muitos veem apenas o comum? E como mantém essa verdade quando a leva para campanhas globais sem que ela se transforme em estética de catálogo?
Meu olhar tem sido treinado para isso desde os meus 17 anos, quando estudava Jornalismo e trabalhava com fotografia cobrindo shows e festas numa casa noturna em Uberlândia. É um ambiente muito rico, mas também bem desafiador, uma baita escola no sentido de aprender a improvisar e de extrair o melhor das pessoas que estão ali, performando ou curtindo, sem conhecê-las previamente. Disso veio a minha conexão com o universo da música independente, videoclipes, fotos promocionais de banda, coisas que faço até hoje. São trabalhos que te provocam a conhecer e elevar a imagem de uma pessoa dentro de um contexto específico, que já é carregado de memórias, estilo, vivência sociocultural da pessoa
retratada, elementos inseparáveis do resultado final. O artista é aquele e a foto é a sua leitura dele, da mensagem que ambos querem passar. Viajar também me ajudou muito a treinar o meu olhar para o ordinário e resgatar minha paixão pelo fotojornalismo. Sempre que viajo a trabalho, tento estender alguns dias no local para fotografar livremente com uma câmera de bolso. É um exercício de observação constante, assistir e conhecer pessoas pelas cidades, contemplar novas paisagens, ir atrás do que há de novo nas expressões culturais daquele lugar. Isso alimenta diretamente o meu trabalho, independentemente do campo de atuação, tanto no sentido técnico como narrativo.
Como jurado do Music Video Festival Brasil, você analisa uma linguagem que mudou radicalmente na era digital. Em um tempo dominado por cortes de 15 segundos e atenção fragmentada, o que faz um videoclipe realmente parar o scroll e se tornar relevante?
História aliada à estética e a um casting magnético. Em um videoclipe, uma boa história não é o bastante sem uma fotografia envolvente, assim como a estética por si só não sustenta a peça sem um fundamento narrativo sólido. O equilíbrio entre as duas coisas é primordial. E acho que casting é sempre a alma desses projetos, ainda somos todos fascinados por uma boa atuação, um personagem forte, algo que te instigue e te surpreenda nesses 15 segundos de atenção.
A fotografia congela o instante. A direção de videoclipes exige movimento, tempo e som. Como o seu processo criativo muda quando você troca o frame único por uma narrativa que precisa pulsar?
Alternar da fotografia para o filme é entender o movimento de câmera e saber o que você consegue contar a partir das decisões nesse campo. O movimento de câmera fala muito, dita o ritmo, troca o tom, acrescenta o drama. E precisa ser muito bem dosado para conduzir o espectador e colaborar com a percepção geral da história. Lembro que quando comecei a filmar, basicamente usava zoom in e zoom out, meus primeiros materiais são extremamente fotográficos (no sentido de valorizar planos estáticos, quase como fotos em movimento). Estudando os mestres do cinema, você percebe a importância dos movimentos de câmera e de entender o ritmo certo para o desenvolvimento de cada ideia.
Moda e música moldam identidades. Quando você cria imagens com artistas e marcas, qual é a conversa que deseja provocar em quem olha? O que espera que seu público sinta ao se ver (ou ao ser desafiado) pelas suas lentes?
Eu me interesso muito pela tensão estética entre a realidade e o ficcional. Não estou atrás do lúdico pelo lúdico, do sonho, da fantasia somente. Acho que a mágica está em esculpir beleza a partir de elementos reais, numa visão que cruza poesia e documental. Existe uma certa pureza em encontrar beleza no documental e, a partir do craft que a fotografia de moda exige, chegar a uma imagem que borre esses dois universos. É nesse ponto de contato que a imagem ganha densidade e uma certa ambiguidade, permitindo interpretações diversas e flertando com o subjetivo. Minha inspiração vem em grande parte de fotojornalistas e documentaristas que transitam pelo campo da arte ou da moda justamente por nutrirem um olhar treinado para o mundano, para o cotidiano e para o acaso extremamente sofisticado e carregado de um sentido maior.
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