
Num sistema que premia velocidade, Guilherme Guedes prefere o tempo. E testa o que sobra depois do hype.
Guilherme Guedes não corre com a timeline. Enquanto a cultura pop exige reação imediata e opinião pronta, ele desacelera. Não para resistir ao presente, mas para entender o que realmente fica. Ao longo de quinze anos de jornalismo musical, viu o lugar do crítico se deslocar. A autoridade perdeu força, o ruído aumentou e a escuta ficou mais apressada. No meio disso, passou a operar por outro critério. Menos volume, mais contexto. O streaming encurtou o ciclo e embaralhou a memória. Lançamentos se acumulam, desaparecem e são substituídos antes de fazer sentido. Nesse cenário, distinguir o que é construção de linguagem do que é só operação de marketing virou exercício de desconfiança. Na conversa com o deepbeep, ele fala sobre esse filtro. O papel do crítico, a resistência do álbum e o desgaste de uma cultura que consome antes de ouvir. Para testar esse olhar no agora, monta uma playlist só com faixas lançadas em 2025. Uma seleção que não tenta acompanhar o fluxo, mas sobreviver a ele.
Lísias Paiva, editor-fundador
Guilherme, em um tempo em que a opinião de todo mundo está a um post de distância, seu trabalho assume também um papel de educador. Qual é a responsabilidade de um crítico hoje: ser um guia que contextualiza a história, um provocador que desafia o gosto ou um tradutor que nos ensina a ouvir melhor o presente?
Sinceramente? Não sei. Talvez um pouco de tudo isso. É interessante refletir sobre esse assunto porque, quando comecei a trabalhar com jornalismo musical, 15 anos atrás, o cenário era completamente diferente. Além disso, comecei a fazer TV em 2012, quando as redes sociais ainda ganhavam força, mas já disputavam espaço de relevância com a televisão, e todos tentávamos entender aonde tudo aquilo iria nos levar.
Eu nunca gostei muito dessa posição do crítico enquanto autoridade de um assunto, dono da verdade. Então vi com bons olhos a chegada das redes e a possibilidade de desconstrução desse mito. Mas, com o passar dos anos, fomos engolidos por uma maçaroca de ruídos, em que todo mundo grita com todo mundo, ninguém mais se ouve e há pouco apreço pela informação de qualidade, bem apurada. Hoje, me vejo constantemente repensando e investigando esse lugar do crítico, do jornalista que vai além do factual, e como posso contribuir para trazer contexto sem alimentar o caos. Nesse sentido, penso que recontar a história pode ser um caminho interessante para entendermos o presente e nos prepararmos para o futuro.
Você cresceu na cultura do álbum, uma obra pensada com começo, meio e fim. Hoje, a música é consumida em faixas soltas. Estamos perdendo a capacidade de apreciar uma obra musical em sua totalidade? A arte do álbum ainda importa ou ela já virou quase uma resistência estética?
O álbum ocupa um lugar diferente hoje, mas não deixou de ser importante. Essa história do suposto fim da era dos álbuns ganhou tração com o crescimento dos serviços de streaming e das playlists durante os anos 2010. Mas, nesse mesmo período, discos como Lemonade, da Beyoncé, se tornaram marcos estéticos com enorme alcance, definindo e influenciando o mercado como um todo. Muitos artistas ainda prezam pela construção de uma obra mais densa e versátil, algo que uma música de 3 minutos nem sempre permite.
A verdade é que hoje a música disputa espaço com tudo o que acontece no mundo, seja com memes, vídeos de gatinhos ou notícias alarmantes sobre o contexto social e político. Uma das estratégias que a indústria encontrou para se manter à vista é essa de lançar novidades o tempo todo. De qualquer forma, concordo que, coletivamente, estamos menos propensos a apreciar obras mais longas. É triste ver um álbum que levou anos para ser construído cair no esquecimento dias após o lançamento — o que acontece com muita frequência.
O deepbeep se inquieta com a cultura do hype, tão acelerada pelos algoritmos. Como jornalista, como você distingue um artista genuinamente inovador de um que é apenas resultado de um marketing bem orquestrado? Existe um “teste de algodão” pessoal que você aplica para medir relevância artística?
Acho que a minha maior e melhor arma nesse sentido tem sido a experiência. A vida contemporânea é mais acelerada, mas um segundo ainda dura um segundo e um ano ainda dura um ano. O que quero dizer com isso é que há lições que a gente só aprende com o passar do tempo, por mais que queiramos acreditar no contrário quando somos mais novos. Tenho 15 anos de profissão e uns 30 de consumidor ávido de música. Depois de tanto tempo e de ter sido enganado pelo falso hype tantas vezes, penso que estou mais atento a essas artimanhas. Acho que o segredo é desconfiar de tudo. Todos são culpados até que se prove o contrário (risos).
Depois de ouvir e analisar milhares de discos, o que ainda te causa aquele arrepio de estar diante de algo verdadeiramente novo e genial? O cinismo é um risco inevitável da profissão ou a paixão pela música sempre encontra formas de se renovar?
É mais raro, mas ainda acontece. Provavelmente nunca mais vou criar as conexões emocionais com a música da maneira como rolava na minha adolescência, mas recentemente rolou isso com The Passionate Ones (2025), álbum mais recente do Nourished By Time. Eu conhecia pouca coisa dele, mas tinha lido excelentes reviews do primeiro álbum. Quando saiu esse segundo, dei play por curiosidade e fiquei impressionado. Gostei tanto que, mesmo com o impulso de querer ler e saber mais sobre ele, decidi ficar só ouvindo e descobrindo o álbum, deixei que as minhas primeiras impressões fossem mais instintivas. Ele consegue fazer algo novo com sons que soam familiares, acho bem interessante.
Outros lançamentos que me trouxeram isso foram os dois novos da Luedji Luna, Um Mar Para Cada Um e Antes Que a Terra Acabe. Eu estava passando por uma montanha-russa emocional quando os álbuns saíram, e como sou grande fã da obra dela, tentei deixar o “eu-fã” tomar as rédeas da escuta.
Você tem uma longa experiência apresentando shows ao vivo, no calor do momento. Como essa energia da performance influencia seu olhar como crítico? Estar diante de um palco oferece uma compreensão da música que a escuta solitária nunca vai alcançar?
São linguagens e experiências muito diferentes. Já me decepcionei muitas vezes com shows medíocres de artistas responsáveis por álbuns incríveis, e vice-versa. Raros são aqueles que são exímios nos dois campos. O grande lance do show é que ele não se limita à presença do artista no palco, o público faz toda a diferença no resultado final.
Recentemente vi a dupla argentina Ca7riel & Paco Amoroso em dois cenários completamente diferentes: primeiro, em um show só deles no Circo Voador lotado, no Rio de Janeiro, para cerca de 2.500 pessoas. Foi um esplendor, um show divertido, impactante e memorável. Em seguida, poucos dias depois, os vi como atração de abertura do show do Kendrick Lamar no Allianz Parque, em São Paulo. O repertório era o mesmo, o roteiro do show era similar e a entrega dos dois foi, novamente, impecável. Mas o público parecia pouco ou quase nada disposto a entrar na onda do show, e a impressão geral foi de um show morno, frio, mesmo em um palco maior, com cenário muito mais imponente e telões de alta definição.
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Masterclass Uma Breve História da Música Gravada por Guilherme Guedes
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Fotos por Luiza Barreto e Pedro Pinho
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