Felipe Tellis e a escuta que ainda cria vínculo

Felipe Tellis em entrevista e playlist para o deepbeep

Felipe Tellis fala sobre curadoria, rádio e por que algumas músicas ainda conseguem criar companhia em meio ao excesso de estímulo.

Felipe Tellis trabalha cercado por música o tempo inteiro e talvez justamente por isso tenha desenvolvido uma desconfiança saudável da lógica que transforma lançamento em fluxo infinito. Entre rádio, festivais, entrevistas e playlists, construiu uma comunicação que parece operar na direção oposta da pressa. Em vez de transformar repertório em demonstração de conhecimento, Felipe prefere aproximação, conversa e vínculo. Uma escuta menos interessada em parecer definitiva e mais preocupada em entender o que realmente permanece depois que o excesso de novidade passa. Isso também aparece no jeito como ele fala sobre rádio. Não como espaço de autoridade distante, mas como companhia. Um lugar onde erro, improviso e espontaneidade ainda conseguem humanizar a relação entre música e público em um ambiente cada vez mais dominado por previsibilidade, algoritmo e excesso de estímulo. Com o encerramento recente da Rádio Eldorado, emissora onde Felipe construiu parte importante dessa trajetória, a conversa ganha também uma camada inevitável sobre permanência, escuta e o que desaparece quando tudo passa a funcionar rápido demais. Na conversa com o deepbeep, Felipe Tellis fala sobre curadoria, autenticidade, sensibilidade e sobre como continuar escolhendo aquilo que realmente toca mesmo quando tudo parece pedir velocidade e consenso imediato. A playlist que acompanha a entrevista funciona como uma espécie de “edição do dia”: músicas usadas para reorganizar ritmo, recalibrar o ouvido e atravessar excesso de estímulo sem transformar escuta em ruído automático.

Marcelo Nassif, sócio-editor

Hoje tem música demais e atenção de menos. Em que momento você percebe que alguém ainda precisa de curadoria e não só de mais conteúdo?
Eu acho que precisamos de curadoria o tempo todo. Eu sempre fico perdido com a quantidade de lançamentos, sempre colocando um álbum novo na fila de escuta, mas também, claro, sem deixar de ouvir os clássicos e/ou aqueles trabalhos que ganharam um espacinho no meu coração — aqueles discos para os quais a gente sempre volta. É muito difícil lidar com essa avalanche de material diariamente. Com curadoria já é difícil. Sem ela, então, fica impossível.

Sua comunicação é direta, sem o tom fechado da crítica nem o exagero das redes. Isso foi uma escolha desde o começo ou você foi ajustando no caminho?
Eu costumo dizer que meu objetivo é comunicar sem firulas. Eu trabalho em rádio desde 2012 e rádio é fala. Não precisa de textos rebuscados e palavras difíceis. Rádio é para distrair, para fazer companhia e para levar informação de forma leve e objetiva. Eu odeio quem usa linguagem de jornalismo escrito no rádio. Para mim, está errado. Não cria conexão e não cria conversa. Além disso, gosto de me enxergar como comunicador e não como crítico. Acho difícil demais julgar o trabalho dos artistas e cravar o que é bom e o que é ruim. Acho injusto. Prefiro falar do que me agrada e admiro. Vão ter outras pessoas para falar bem daquilo que não me tocou. O que não significa que seja ruim.

Rádio e festival são lugares onde as coisas ainda podem sair do controle. O que você faz para manter esse imprevisto vivo quando tudo em volta tenta prever o próximo passo?
Eu amo a imprevisibilidade do rádio. Claro que sempre temos um roteiro a ser seguido, mas o ao vivo me atrai demais, mesmo apesar do nervoso, da ansiedade e de tudo o que pode não sair como o planejado. Como anunciar uma música da Marisa Monte, apertar o botão errado e soltar uma faixa de outro artista. Isso cria relação. E acho que o mais importante nesses momentos é humanizar, assumindo o erro e sendo transparente com quem você está trocando.

Você escuta muita coisa o tempo todo. Como percebe que algo é só o som do momento e quando ele tem chance de ficar?
Eu lembro que, em uma entrevista com a Marina Sena, pouco antes dela explodir, eu falei: “Seu disco vai ser o disco do ano”. E essas coisas a gente sente. A gente sabe. Porque percebe qual trabalho foi feito com genuinidade, entrega, verdade e sensibilidade. Assim como dá para perceber quem está fazendo só para vender e hitar. E eu consigo entender quem faz isso. Afinal, deve ser bom demais ganhar muito dinheiro, ter uma vida superconfortável e fazer sucesso. Mas, ao mesmo tempo que isso pode ser bom por um lado, por outro não, afinal, trabalhos como esses certamente vão afastar um público que se conectou de verdade com aquele artista em algum momento.
Um público que provavelmente acreditou nele, compartilhou suas músicas, se enxergou naquele trabalho, inclusive ajudando ele a chegar onde queria, mas que viu ele ir embora sem olhar para trás e se perder por aí. E isso, sinceramente, é bem triste.

No meio de tanto filtro, dado e tendência, o que ainda é só gosto seu e você não abre mão?
Eu não abro mão daquilo que me toca. Eu vejo vários artistas por aí bombando porque foram abraçados por uma cena e, assim, surfam essa onda. Mas, se eu não sentir uma conexão com aquele som e com aquelas letras, eu não consigo entrar nessa só porque está todo mundo falando ou ouvindo. Eu só topo entrevistar e ter trocas verdadeiras com quem eu realmente admiro e com quem eu realmente ouço.

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