
A DJ e produtora de Brasília fala sobre cultura de pista, pesquisa musical e o desafio de manter consistência sonora em um festival de grande escala.
A pista de dança mudou rápido nos últimos anos. O mercado eletrônico passou a priorizar virais curtos e performances pensadas para redes sociais. O DJ passou a disputar atenção com o próprio espetáculo. Camila Jun segue em outra direção. A produtora construiu sua trajetória na House Music clássica com foco em groove, pesquisa e cultura de discotecagem. No dia 20 de março ela leva esse repertório para o Palco Perry, no Lollapalooza. Em um ambiente marcado por impacto visual e sets acelerados, o set dela funciona como um teste raro: ver se a pista ainda responde quando a música volta a ser o centro. Na conversa com o deepbeep, Camila fala sobre algoritmo, identidade musical e o papel de Brasília na formação de novas cenas eletrônicas. O papo vem acompanhado do pedido de playlist House is a Feeling, um mapa da elegância de uma pista que ainda acredita no groove.
★ BÔNUS: Ao final da leitura, confira o Rider Técnico de Pista com a curadoria tática para inaugurar o polo eletrônico de Interlagos.
Lísias Paiva, editor-fundador
Camila, o mercado eletrônico recente foi dominado por ondas muito específicas, como o tech house funcional e os edits de aplicativo. Você se manteve fiel a uma linha de House Music clássica com vocal e alma. Estar no line-up tocando o som em que você sempre acreditou é a prova de que a consistência vence a viralização curta?
Acho que até mesmo antes de falar sobre consistência versus hype é importante entender o porquê de você estar ali como artista, o porquê de você tocar música eletrônica, de onde vieram as suas vontades, o que te leva e o que te motiva a fazer isso. E, pra mim, ser artista e tocar música eletrônica vêm muito antes da própria profissão ser hype.
Então é mais sobre eu conseguir fazer o que eu amo e manter uma constância. É acreditar na cultura da discotecagem, na cultura da música eletrônica, independente se isso vai viralizar ou não. É evidente também que a gente não pode deixar de falar ‘que legal, né’ se a gente consegue ter mais alcance com a nossa música e se uma coisa que, às vezes, era vista como underground e nichada consegue furar uma bolha para o comercial. Acho que o que importa é entender o que está por trás disso e o que é a base dessa questão que ficou viral, que ficou comercial.
A minha base é realmente uma conexão muito verdadeira com a cultura da discotecagem e com a cultura da música eletrônica, e eu acho que isso reflete no meu trabalho de certa forma. Talvez seja por isso que eu tenha recebido esse convite maravilhoso para tocar no Lolla, com uma curadoria que está atenta não só aos números, ao hype e ao que está estourado nas redes sociais, mas também em quem tem conexão verdadeira com a música eletrônica e com a discotecagem. Então é muito legal estar no Lolla por esse motivo, pelo motivo real do meu trabalho, que é o meu amor pela música eletrônica e por essa profissão: ser DJ e artista.
Brasília tem uma cena de rock e eletrônica fortíssima que muitas vezes é ignorada pelo eixo Rio São Paulo. Existe uma assinatura de pista do Planalto Central ou o isolamento geográfico ajuda a criar uma identidade menos viciada nas tendências do Sudeste?
De fato, há uma força motriz, comercialmente falando, muito mais forte nesse eixo Rio-São Paulo. Na verdade, eu até expandiria esse eixo, falaria do eixo Sul-Sudeste em relação, obviamente, à força motriz comercial dos eixos do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste do país. E eu digo comercial porque, de fato, quando a gente pensa nas cidades e nos estados do Rio e de São Paulo, tem mais coisas acontecendo em relação à quantidade, mas isso não fica acima de maneira nenhuma da qualidade de artistas e de produções e projetos que o Centro-Oeste, o Norte e o Nordeste do país têm.
A questão é que é preciso estar com vontade, estar atento para olhar mais pra cima ali do país e entender o que está acontecendo no Centro-Oeste, no Norte e no Nordeste do país. Mas Brasília sempre teve uma cena muito forte da música eletrônica e muito antiga. Brasília sempre foi celeiro de grandes artistas, de grandes projetos e de grandes eventos também. Hoje, os principais eventos de música eletrônica do país também passam por Brasília, passam aqui pelo Distrito Federal de alguma forma. É claro que, em termos de quantidade, não é tão grande como no Rio e em São Paulo por motivos óbvios de tamanho da população, mas Brasília não só tem artistas maravilhosos, como tem um mercado da música eletrônica que é pulsante. Com as suas limitações, obviamente, mas é indicativo, inclusive, de referência para outros grandes centros urbanos. Todos os grandes artistas tocam aqui; as grandes labels fazem suas festas aqui, porque de fato tem um público da música eletrônica em Brasília que é muito cativo, que é muito antigo e que está crescendo cada vez mais. Isso é muito legal!
Mas eu não diria que Brasília tem exatamente uma assinatura específica por conta de um isolamento geográfico, até porque a gente tá falando de uma cidade central, zero isolada geograficamente. Tem artistas de todos os tipos, de todos os ritmos, de todas as vertentes da música eletrônica, então, não existe uma “cara” de Brasília, existem artistas que estão atentos a diversos ritmos, a diversas vertentes da música eletrônica e cada um traz a sua identidade. É evidente que quando você está falando de um mercado local, você tem tendências dentro daquele cenário, mas eu diria que Brasília é muito diversa e tem uma qualidade absurda de artistas e de projetos. É muito maravilhoso ser artista de Brasília, uma artista do Centro-Oeste, ganhando palcos nesses eixos em que acontecem mais coisas, como o eixo Rio-São Paulo, para mostrar literalmente a força e a qualidade do Centro-Oeste do Brasil, de Brasília especificamente. É muito legal poder contribuir para esse cenário.
Sua festa Tônica tem um conceito de construção de longo prazo. O Lollapalooza é o oposto com slot curto e público de passagem. Como você adapta a sofisticação da pesquisa para um formato que exige impacto imediato sem cair na armadilha de tocar farofa para segurar a pista?
Com certeza, são duas pegadas muito diferentes, a entrega que eu faço para a Tônica é uma e a entrega pensada para o Lolla é outra. Porque, de fato, são experiências diferentes. Não que uma tenha que se opor ou se contrapor à outra, mas são experiências diferentes. É maravilhoso, como artista, poder trabalhar todas essas minhas vertentes e essa minha diversidade de entrega, e eu acho que isso é um lugar muito rico do artista: poder explorar coisas diferentes. A Tônica, obviamente, como aqui colocado, é uma festa voltada 100% para o público da música eletrônica, onde a gente tem muito mais horas para construir um storytelling dentro de um set, então a gente tem menos pressa, menos ansiedade e pode arriscar, colocar coisas mais diferentes.
Quando a gente pensa no Lolla, temos que considerar um slot curto do timing de set, que geralmente é uma hora ou uma hora e meia, e também que é um festival de ritmos e sonoridades urbanas. Então, tem muita gente ali que não é só da música eletrônica. Eu não vejo isso como uma questão ruim ou como uma questão limitadora, mas sim um desafio para conseguir entregar a minha personalidade, dentro da música eletrônica, da House Music e do estilo que eu toco, algo que seja mais compatível com essa atmosfera de sonoridades urbanas, de sonoridades diversas. Para mim, é muito legal poder pensar em um set que seja legal para o público do Lollapalooza, mas totalmente dentro ainda do que eu acredito, das minhas sonoridades e da minha personalidade. Eu não tenho receio de fazer um set que seja completamente desconectado de mim; isso não acontece porque eu nem consigo criar algo que seja completamente desconectado do que eu acredito. Entregando um set maior, com mais tempo de storytelling na Tônica, ou entregando um set curto, um slot que tem um público mais diferenciado, de passagem ali, eu não tenho receio de serem sets completamente diferentes que não conversam entre si. Mesmo com as suas especificidades, eles vão ter uma conexão única com a minha personalidade e com a minha qualidade de curadoria musical.
Em Ibiza a cultura da House Music é a base de tudo e no Brasil o DJ muitas vezes ainda precisa ensinar o público massivo. Quando você sobe num palco de festival, você sente que seu papel é educar quem está ali ou o foco é apenas entreter quem já converteu?
Eu acredito que o público brasileiro, que consome música eletrônica, vem mudando muito a sua cabeça no sentido positivo de, de fato, estar mais aberto a novas sonoridades, a sonoridades que talvez não sejam tão comerciais. É evidente que as festas comerciais e os selos vão continuar e eu acho que tem público pra tudo, mas, hoje, o público brasileiro é um dos principais públicos de música eletrônica do mundo. Isso não seria possível se a gente não tivesse muita diversidade e vertentes de música eletrônica, então eu acredito que esse público do Brasil está cada vez mais atento a escutar coisas novas, independentemente de ainda existir e existir um grupo que só gosta de consumir mais do mesmo.
Mas eu digo isso porque, respondendo à pergunta propriamente sobre o papel de educar, para mim, o papel do DJ, da pessoa que tá fazendo aquela discotecagem para o público, não é educar, mas criar uma experiência. Pra mim, música é experiência, é a conexão das pessoas através da experiência sonora. Então, o que eu mais me dedico quando eu subo num palco, mesmo entendendo que talvez eu tenha um desafio em relação ao público, não é educar como ‘olha, você precisa escutar isso porque isso é melhor ou porque isso é menos comercial’, mas sim ‘deixa eu te apresentar essa experiência sonora aqui, eu acho que você vai sentir uma coisa maravilhosa’. E eu acho que aí eu consigo, inclusive, aumentar cada vez mais a minha fã-base, mesmo tocando algo de tanta personalidade do jeito que eu toco, pelo compromisso de entregar uma experiência sonora incrível. Então, quando a gente fala de instrumento de educação assim, eu não sei se é tão top down, o artista para o público, eu acho que é de fato uma dedicação que eu tenho em criar a melhor experiência sonora possível para aquele público. Existe uma frase conhecida no meio da música que tem como ideia ‘eu não estou aqui para tocar o que você gostaria de escutar, mas eu estou aqui pra tocar o que você nem sabia que gostaria de escutar’, então é isso, você não está ali para educar o que o público tem que ouvir, mas sim mostrar que ‘olha, estou fazendo uma experiência sonora aqui que você nem imaginava que você ia gostar tanto’, então é mais por aí.
Alguns DJs pulam e gritam no microfone enquanto você mantém uma postura mais sóbria e focada na mixagem. Num palco gigantesco onde a imagem no telão às vezes importa mais que o som, como você lida com a pressão de performar visualmente sem parecer artificial.
Ainda que a gente esteja falando de um festival dessa magnitude, com o porte do Lolla e de alguns outros festivais tão grandes como esse, ainda que a gente esteja falando de milhares de pessoas, que tenha um público muito diverso e que talvez tenha uma pegada um pouco mais comercial, eu ainda não acredito que a imagem se sobrepõe ao som. Eu acredito que talvez seja um conjunto disso, mas eu acho que a imagem sozinha não vai construir; ela só vai até a página dois e olhe lá. Então, dito isso, definitivamente a entrega do som pra mim vai ser a primeira coisa a ser pensada e a mais importante de todas, mas isso não me impede, obviamente, de trabalhar um 360 onde eu tenho uma entrega de imagem também.
Na verdade, pra mim é sobre o equilíbrio dessas duas coisas, como que uma ajuda a outra e não uma se sobrepõe à outra, e uma fica defasada em relação à outra. E mais do que isso, a imagem pode ser construída de diversas formas; existe a imagem do artista que é mais enérgico, que tem microfone, que pula e, se aquilo fizer sentido para o som dele e para o público dele, tudo bem. Mas você pode construir uma imagem extremamente forte e impactante visualmente, inclusive falando dentro de um espectro mais sóbrio. Então, quantos artistas a gente conhece às vezes que estão em festivais gigantescos com a sua voz basicamente e uma camiseta branca? Eu acho que é muito sobre a sua verdade, sobre o que se conecta com seu som, sobre o que faz sentido para sua imagem.
Eu sou uma artista que obviamente se preocupa primeiramente com o meu som e com a qualidade do que eu estou passando pro meu público, mas sou uma artista que sempre trabalhei a minha imagem também, e, mais uma vez, eu acho que a imagem pode ser construída sob diversos aspectos e espectros; depende muito de como isso é colocado pra fora. Se é de uma maneira verdadeira, se isso se conecta com a sua personalidade… então, definitivamente para o Lolla, eu vou trabalhar as duas situações, o pensamento técnico do som, o que eu quero passar de experiência sonora, mas o que eu quero passar de experiência imagética e visual, que com certeza também vale a pena. É um lugar, é um momento em que você pode explorar mais isso, seja através dos visuais que você vai levar para os telões de led, seja através do seu figurino, seja através de como seu corpo se porta em cima do palco. Eu acho que é uma construção 360, que, se você fizer isso de uma maneira que se conecta verdadeiramente com a sua essência sonora e com a sua personalidade, dá tudo certo.

RIDER TÉCNICO PARA CURTIR A PISTA COM CAMILA JUN
▶︎ COORDENADAS
★ Onde. Sexta, 20/03, às 12h00 no Palco Perry. ★ O Cenário. O meio-dia de sexta é o momento mais árido do festival. O autódromo ainda cheira a montagem e a arena eletrônica tenta engatar a primeira marcha. A artista entra para transformar o concreto cru em um oásis de hedonismo maduro e linhas de baixo impecáveis. ★ O Veredito. A aula inaugural de classe do fim de semana. A oportunidade de abrir a maratona com uma curadoria musical que respeita a inteligência da pista e injeta uma dose de elegância letal logo de cara. Não perca!
▶︎ PRESTE ATENÇÃO
★ A Geografia do Groove. O polo eletrônico é uma armadilha acústica para quem tem preguiça. Fuja do gargalo da entrada e das rodinhas de conversa no fundo. Atravesse a massa inicial e ancore no lado direito da tenda. É o corredor tático onde o vento cruza, a aerodinâmica do som limpa a distorção e o grave da house music bate redondo abraçando a costela. ★ A Elegância Cinética. A etiqueta da house clássica abomina o pulo histérico e a ginástica fora do tempo. A trilha exige balanço de quadril e malemolência calculada. O protocolo correto é deslizar pelo asfalto com passos curtos e o sorriso cínico de quem sabe que está consumindo o som mais refinado do dia. ★ A Matemática da Mixagem. Observe a paciência de quem pesquisa música a sério. Camila Jun recusa o truque barato da virada agressiva. A mágica acontece na sobreposição milimétrica de um piano luminoso com um vocal quente, elevando a temperatura da pista com uma sutileza absoluta.
▶︎ HARMONIZAÇÃO SONORA
★ O Mood. Um lounge noturno hedonista transplantado para o asfalto fervente do meio-dia. ★ O Look. Camisaria de tecido fresco com corte impecável, óculos de acetato grosso para manter a pose contra o sol e tênis com amortecimento tático para sustentar a classe até a última faixa. ★ O Drink. Gin tônica transbordando cítricos e muito gelo. O paladar precisa estar desperto para acompanhar a acidez fina e a sofisticação orgânica da seleção musical.
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Festa Tônica de Camila Jun
Booking One World Artists
Fotos por Marcos Dourado
Agradecimentos à Bianca Massafera da Braslive Entertainment pela conexão
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