Cacá Ribeiro continua curioso pela noite

Dez anos depois de abrir o Jerome, Cacá Ribeiro segue frequentando pistas, descobrindo DJs e procurando razões para continuar dançando.

Há dez anos, Cacá Ribeiro abriu o Jerome com uma vontade bastante particular. Queria um club pequeno, dedicado à música, onde os encontros entre amigos e a descoberta de novos sons tivessem espaço para acontecer. Uma década depois, a casa continua na Rua Mato Grosso e Cacá ainda sai pela cidade para dançar, conhecer lugares e descobrir o que está acontecendo nas pistas. A experiência de quem produz noites há tanto tempo convive com a curiosidade de quem continua frequentando a noite como público.

O Jerome também carrega uma história anterior à sua abertura. Nas lembranças de Cacá aparecem clubs de Nova York, Paris, Lisboa e Berlim, além de endereços brasileiros que marcaram diferentes gerações da noite. São referências que ajudam a entender de onde veio seu gosto musical e o tipo de lugar que quis construir em São Paulo. Ao longo dos anos, a casa ganhou seus próprios personagens, relações e histórias, enquanto milhares de sets passaram por sua cabine.

Às vésperas de completar dez anos, o Jerome oferece uma boa oportunidade para conversar com alguém que conhece a noite por diferentes lados, da pista à produção, da escolha musical à experiência de receber pessoas. Na conversa com o deepbeep, Cacá revisita o começo da casa e fala sobre o que continua despertando sua atenção depois de tantos anos trabalhando com música e encontros. O que faz uma pessoa querer ficar em um lugar? Como reconhecer um DJ que sabe conversar com a pista? E o que ainda surpreende alguém que já viu tanta coisa acontecer?

Lísias Paiva, criador e editor
Mateus Nicastro, arte
Claudio Thorne, redes e comunidade

Cacá, você já foi bailarino, ator, produtor e empresário. Hoje, o que consegue fazer você esquecer o trabalho por algumas horas?
Coisas simples. Passear com meu cachorro, cozinhar em casa com o Pedro, assistir a alguma bobagem na TV, dançar numa pista, ir à casa de amigos. Gosto muito do que faço, mas preciso de um tempo todos os dias para desconectar, esvaziar a cabeça. Nem sempre é fácil.

Você já produziu festas para públicos muito diferentes. O que faz uma pessoa se sentir realmente bem recebida, mesmo quando chega a um lugar onde não conhece ninguém?
Atmosfera. Acho que essa é a primeira coisa. Você entra num lugar e percebe imediatamente se quer ficar. Tem a ver com as pessoas, com a luz, com a música, com a maneira como você é recebido. Gosto de trabalhar com equipes que se repetem, que conhecem meu jeito de fazer as coisas. E faço questão da diversidade na hora de contratar.
Tenho uma certa obsessão pelo som e pela música. Saber o que tocar, a que horas e para quem. Isso vale para um jantar de quarenta pessoas ou para uma pista lotada. Uma boa locação e uma boa luz também mudam tudo. Mas, antes de qualquer coisa, é preciso entender o desejo de quem está nos contratando. O resto começa a partir daí.

Você já descreveu o Jerome como um personagem que tem muito de você. Depois de dez anos, o que a casa revelou sobre você que talvez não aparecesse de outra maneira?
O Jerome é um pouco de todas as noites que vivi. Nova York, Paris, Lisboa, Berlim, no final dos anos 80 e começo dos 90. Mas também os pequenos clubs de São Paulo e do Rio. Off, Malícia, Satã, Massivo, HS, Val Improviso, Encontro’s, Nation, Pix, Xingu, Lov.e, o Ocidente em Porto Alegre, as boates gays do interior. Uma lista enorme de lugares que me formaram e que continuam presentes de alguma maneira.
O Jerome consolidou meu gosto pela house music, mas também me apresentou a muita coisa que eu provavelmente não teria conhecido de outra forma. Passam muitos DJs pela cabine todos os anos. Sempre aparece alguém com uma música que nunca ouvi, uma sonoridade diferente, uma maneira nova de tocar. Temos meninas e meninos muito talentosos no Brasil.
Dez anos depois, continuo curioso e novidadeiro. Talvez o Jerome tenha me ajudado justamente a não perder isso.

Existe uma noite, uma escolha musical ou um encontro que represente especialmente o que você queria criar quando abriu o Jerome?
Eu e Marina Dias, minha amiga de muitos anos, conversávamos bastante sobre abrir um club pequeno, exatamente ali na Rua Mato Grosso. Queríamos um lugar para ouvir boa música. E eu queria muito que ela fosse residente.
Também sonhava em fazer uma noite com Felipe Venâncio, meu oráculo. Somos amigos há muito tempo, trabalhamos juntos inúmeras vezes e continuo aprendendo com ele. O Pedro estava começando a tocar e passou mais de um ano abrindo as noites do Jerome. Hoje, os três são pilares da casa.
Daniel Martins esteve comigo na curadoria musical por quase dez anos. Foi uma parceria muito importante para construir o que o Jerome é hoje. Agora, num movimento bastante natural, a Glaucia Mais Max assume esse papel e traz seu próprio olhar. Quando penso no começo do Jerome, penso nessas pessoas. A casa nasceu muito mais de uma vontade compartilhada entre amigos do que de um projeto de negócios. E acho que isso ainda faz diferença.

Ao longo dos dez anos do Jerome, mais de seis mil sets foram realizados na cabine da casa. O que faz você ouvir alguém tocando e pensar que aquela pessoa tem algo que combina com o Jerome?
Presto muita atenção na pista. No movimento das pessoas, em quem entra, em quem sai, em quem fica. A música no Jerome não pode expulsar ninguém. Não pode pesar a ponto de esvaziar a pista. Precisa ser dançante, sedutora, fazer as pessoas quererem ficar mais um pouco. Gosto de DJs que sabem ler uma pista, que entendem que não estão tocando apenas para si mesmos. Existe uma diferença enorme entre tocar boas músicas e fazer uma boa noite. Quem não entende isso geralmente não volta muitas vezes.

Depois de tantos anos criando noites para os outros, o que ainda faz você sair de casa para dançar?
Tenho necessidade de estar perto de gente mais jovem. Gosto de saber o que estão fazendo, o que estão ouvindo, onde estão indo. Continuo saindo, embora já não fique até tão tarde. Sempre preferi lugares menores. Grandes festas e festivais me interessam cada vez menos. São Paulo é uma cidade muito dinâmica, sempre aparece alguma coisa nova, um lugar, uma festa, alguém tocando. Continuo saindo porque continuo curioso. E porque ainda gosto muito de dançar.

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[Serviço]

Jerome 10 anos

Sábado, 7/11, a partir das 21h
Rua Mato Grosso 398
Higienópolis

Lineup:
Kair
Marcio Vermelho
Felipe Venancio
Glaucia Mais Max
Marina Dias
Pedro Paulo

Para entrar na lista, envie os nomes para (11) 95328-6057



Acompanhe o trabalho de Cacá Ribeiro
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Jerome de Cacá Ribeiro

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Fotos por Felipe Rufino, Paulo Vainer e acervo pessoal

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