Bemti

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Bemti hackeia a viola caipira para criar um pop eletrônico e explica por que se recusa a entregar a “brasilidade de souvenir” que o mercado exige.

A viola caipira carrega um estigma de museu. Para a maioria ela é passado imóvel e peça de folclore, mas para Luis Bemti ela é tecnologia de ponta. Mineiro radicado em São Paulo, o artista e roteirista construiu uma das discografias mais singulares da cena independente com álbuns como Era Dois, Logo Ali e o recente Adeus Atlântico ao cometer a heresia estética de arrancar a viola da roda de fogueira e jogá-la no meio da pista de dança cercada de sintetizadores e beats. O resultado não é fusão, termo que ele rejeita, mas uma nova arquitetura sonora onde o rústico e o digital não brigam e apenas conversam. Quem quiser ver essa experiência ao vivo tem encontro marcado no Sesc 14 Bis no dia 20 de fevereiro. Antes de subir ao palco, Bemti conversou com o deepbeep sobre a tensão entre a metrópole e o interior e atendeu ao nosso pedido de criar uma trilha sonora exclusiva para atravessar o mapa real ou imaginário que define sua obra. A seguir, aperte o play e boa viagem.

Lísias Paiva, editor-fundador

Sua escolha pela viola caipira como instrumento central desloca o som do seu lugar comum na música regional. Como você trabalha essa sonoridade para que ela funcione dentro de uma estética pop sintética sem soar como um elemento meramente exótico ou decorativo?
Essa responsabilidade é 100% do próprio instrumento. A viola caipira de dez cordas é super versátil e foi isso que me impulsionou a começar a escrever com ela muitos anos atrás. Acho que eu tenho essa carta branca para experimentar por ter ela nas minhas raízes, já que literalmente nasci na roça e meus avós tocavam viola em Folias de Reis quando eu era criança, mas ela só reaparece na minha vida depois de adulto. Eu sempre falo que um dos grandes objetivos da minha música é que ela soe aberta, mesmo para uma pessoa que não faça a mínima ideia do que é uma viola caipira, o que explica também porque tem muita gente que me escuta fora do Brasil. Claro que quem não é leigo vai perceber que tem um timbre diferente que percorre todas as minhas músicas e, ao mesmo tempo que isso é um diferencial importantíssimo, nunca foi algo pensado para ser propositalmente exótico.

Sua música habita um espaço de tensão entre o interior e a pista de dança urbana. O que guia a sua busca por esse equilíbrio entre o peso acústico da tradição e as texturas eletrônicas da produção moderna?
Emendando a resposta anterior, um ótimo exemplo do que acontece no disco Adeus Atlântico é o refrão da Melhor de Três. A música é quase um indie house, mas no refrão tem três linhas de viola caipira acontecendo. Acho que essa tensão é um reflexo da minha própria história de vida. Eu tenho um cotidiano muito metropolitano, amo estar numa cidade grande e absorver o que ela me oferece, mas tem algo inerentemente interiorano na minha personalidade. E por mais que o interior não seja mais meu lar, é o lugar para onde eu volto por vários motivos. A narrativa do Adeus Atlântico fala muito sobre essa jornada do interior para o mundo ou o que eu carrego como mineiro mesmo fora do Brasil. As letras mais explícitas sobre isso são Metal e Quase Sertão. Então é a arte refletindo a vida e a vida refletindo os caminhos que hoje em dia eu só percorro por causa da música.

O deepbeep nasceu da inquietação diante do achatamento da cultura pelos algoritmos. Em uma cena que muitas vezes premia o que é familiar e seguro, como você protege a estranheza e a singularidade do seu projeto para garantir que ele não seja engolido pela média?
Meu trabalho autoral na música é guiado totalmente pelo que eu gostaria de ouvir. Sempre brinco que eu sou meu primeiro ouvinte e o mais chato. É diferente, por exemplo, de quando eu preciso escrever trilha sonora ou alguma música para alguém. Ou mesmo meu trabalho como roteirista em que eu fiquei anos trabalhando em projetos que não eram autorais. Nesse contexto, o fato do Adeus Atlântico ser objetivamente um disco mais pop e mais pra cima que os outros dois tem muito a ver com minha música refletindo anos mais leves que eu tive e uma vontade de dialogar com estilos musicais e referências que eu escutei muito nos últimos anos. Mas é um pop esquisito porque eu fiz 100% do jeito que eu quis, sem abrir concessões e sem tentar emular alguma performance de brasilidade forçada.

A identidade visual do seu trabalho é extremamente elaborada e parece indissociável das canções. De que maneira a construção estética e visual do projeto influencia as decisões que você toma dentro do estúdio, durante a produção das faixas?
Sou formado em Audiovisual, mas não há uma hierarquia entre música e imagem na minha cabeça. Uma faísca de música pode vir depois de pensar numa imagem qualquer e vice-versa. Esses dias mesmo tive uma conversa com um amigo e comecei a escrever de brincadeira uma música tema para um filme hipotético da Pixar sobre uma capivara que se passa no cerrado. Mas gostei de certas melodias e agora estão gravadas no meu celular. É uma situação de mentirinha que provavelmente vai virar uma música de verdade. A grande diferença é que é mais barato chegar num resultado que você quer na música do que no vídeo, já que é mais fácil fazer a música tema do que o filme sobre a capivara. A estética do Adeus Atlântico tem muita coisa analógica que de fato é fita e película, mas tem muita coisa que é filtro porque o orçamento não deixou ser de outra forma. Arte independente é sobre se adaptar e eu desempenho mil funções nos meus projetos visuais como Bemti, mas meu sonho é ter grana para fazer coisas mais ambiciosas e também chamar mais gente para trabalhar comigo.

Em um cenário de atenção fragmentada e de lançamentos que duram uma semana, qual é a principal marca, sonora ou afetiva, que você luta para imprimir na sua audiência a cada nova canção?
Costumo dizer que meus álbuns são discos de roteirista. Assim como eu cresci ouvindo discos que tinham narrativas muito fundamentadas e universos próprios muito bem construídos, eu tento colocar no mundo trabalhos que tenham pelo menos um pouco dos álbuns que me inspiraram e me salvaram ao longo da vida. Acho que, falando de música, tem uma diferença gigante entre o envolvimento que um álbum pode te provocar comparado com uma música solta. E quem escuta e gosta disso sabe entender a diferença. Ainda bem que tem muita gente nova que não abre mão da experiência de apreciar um disco como uma obra completa. Essa luta pelo disco tem várias consequências, como o revival do vinil, por exemplo. E por isso é muito importante pensar em catálogo e não ter pressa para certas coisas. Em tempos de algoritmo, pensar assim não deixa de ser transgressor. Eu quero que uma pessoa que descubra o Adeus Atlântico daqui a cinco anos tenha a mesma catarse que as pessoas que escutam agora estão sentindo. Mas quanto mais gente escutar agora, melhor.

Ouça o lançamento de Bemti, Adeus Atlântico (link na imagem)

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Fotos por João Terezani

Agradecimentos ao Gustavo Koch e KOCH MGMT

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