
A internet exige vitória contínua e controle absoluto. A Undo transforma o erro em matéria-prima e o fracasso em manifesto sonoro.
O som ficou limpo demais. A música também. No meio de uma cena que parece calibrada para não errar, a Undo faz o caminho contrário. Tira o excesso, devolve a aspereza e lembra que nem tudo precisa caber no algoritmo. O primeiro álbum chega ao vivo, em São Paulo, num sábado de aleluia que parece escolhido a dedo. Dia 04/04, a banda sobe ao palco da choperia do Sesc Pompeia para transformar a estreia em rito. Não como metáfora. Como descarga. Formado por músicos que atravessaram bastidores e palcos de Gal Costa a NX Zero, o grupo aposta na crueza do pós-punk e da new wave dos anos oitenta para tensionar a estética do controle. O nome não é detalhe. Undo é um gesto. Desfazer para recomeçar. Na conversa com o deepbeep, eles explicam por que o erro ainda sustenta qualquer linguagem viva e por que o palco segue sendo o único lugar onde o algoritmo não entra. O papo vem com trilha. Um mapa de escuta para atravessar o ruído dos dias atuais sem fingir estabilidade.
Marcelo Nassif, sócio-editor
O mercado atual persegue a alta fidelidade e o som limpo, pasteurizado, para tocar fácil no streaming. A banda tem uma textura seca e quase áspera, que bate de frente com essa assepsia. Essa crueza sonora, mais próxima do pós-punk clássico, é uma escolha estética calculada ou uma necessidade visceral de vocês?
Eu creio que é estética. Um som em comum de que gostamos é toda essa safra pós-punk e new wave, um pouco mais crua, que deriva do punk rock também, claro. Mas temos ecos de coisas mais melódicas. A banda navega com facilidade em diversos mares, mas, sem dúvida, essa safra dos anos oitenta nos encanta.
O algoritmo treinou a sociedade para performar o sucesso permanente e esconder qualquer falha debaixo do tapete. A faixa Aprender a Perder parece reagir exatamente a essa neurose contemporânea. Assumir o fracasso hoje virou um gesto político? E o rock ainda tem fôlego para bancar esse nível de honestidade no meio da farsa digital?
Esse tempo nos incomoda demais. É chato, sem subversão, monolítico e sem espaço para o exagero. Tudo está definido para você, tipo um mundo de Truman. O rock bom, ou o que achamos bom, é aquele que fracassa. Todos os bons fracassaram em algum momento. Sem o erro e o fracasso, não há como saborear o sucesso. Na verdade, sucesso e fracasso são bem parecidos.
Os integrantes carregam currículos pesados, que cruzam os bastidores e os palcos de gigantes brasileiros, de Legião Urbana e NX Zero até Gal Costa e Criolo. Quando vocês trancam a porta do estúdio, como a banda faz para evitar que essa bagagem vire apenas nostalgia e consiga forjar uma identidade nova e própria?
Esses artistas que você citou são pessoas com quem membros da banda já trabalharam. Na verdade, as referências da banda são múltiplas. Mas somos uma banda de rock e, no rock, a identidade conta bastante. Portanto, dentre várias coisas que ouvimos, escolhemos o pós-punk, a new wave e as bandas dos anos oitenta para nos inspirar. Foi o caminho natural que nos unia e onde conseguimos nos expressar sem copiar ninguém.
O próprio nome Undo carrega a ação de desfazer, voltar atrás e reabrir processos que pareciam resolvidos. Essa lógica de destruição aparece na composição? Vocês entram no estúdio para construir do zero ou para desmontar o que já estava pronto?
As duas coisas. O jeito que você falou do nome é bem o que sentimos ser a expressão dele. Um desfazer para fazer de novo e melhor. Um religare também, uma reconexão. Sobre os sons, entramos para criar e também para desmontar. Mexemos muito nas músicas até chegarmos ao ponto ideal.
A internet transformou a música em métrica, dancinha e retenção de três segundos. O show ao vivo é o único lugar onde essa lógica perde o controle. Quando vocês olham para o público suando na pista, que tipo de catarse o rock ainda consegue entregar que nenhum algoritmo traduz?
Todas — e as melhores possíveis. Amor, raiva, tesão, suor, lágrimas, nostalgia, fé, inspiração e dança. Tudo isso está ali na nossa performance. É tudo ou nada, e fazemos cada show como se fosse o primeiro e o último. Na mídia social, não existem nenhum desses sentimentos e nenhuma dessas sensações urgentes e vitais.
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Fotos por Katê Takai
Agradecimentos ao Valtinho Fragoso pela conexão
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