
A banda Pelados transforma memes e alta cultura em música pop e explica como o computador virou seu principal instrumento e por que o caos é a única forma possível de organização.
A banda Pelados funciona menos como uma banda e mais como um erro proposital no sistema. Com o recém-lançado Contato, o grupo aprofunda sua pesquisa de “pop de laboratório”, operando no limite entre o deboche e a sofisticação musical. É um universo em que a ficção científica encontra a MPB e em que Gilberto Gil e Ednaldo Pereira poderiam dividir o mesmo palco. O grupo usa o computador como instrumento central para transformar stickers de WhatsApp e angústias geracionais em canções complexas. Nesta conversa, eles desmontam o processo criativo de cinco cabeças teimosas e entregam a trilha sonora da nave-mãe, uma seleção exclusiva de faixas que operam no descontrole elegante e no groove delirante que define o universo da banda.
Marcelo Nassif, sócio-editor
Pelados, o trabalho de vocês parece menos uma banda e mais um laboratório onde música, cinema e performance viram uma coisa só. O que vocês sentem que colocam em movimento no mundo quando escolhem inventar disfarces em vez de seguir a lógica de uma banda convencional?
O computador sempre foi um instrumento para a banda Pelados. Isso trouxe mais liberdade para experimentar com sons e efeitos nas nossas canções soando diferentes. A gente faz um leve esforço nessa direção, mas isso não significa que a gente não veja valor em uma forma de disco menos experimental. Não teria muita graça fazer algo que muita gente faz melhor que a gente então acabamos nos arriscando. Tomara que a gente seja uma banda convencional! Teoricamente dá pra tocar qualquer música dos Pelados com um violão numa fogueira de festa junina de colégio particular, mas imagino que fique difícil! O negócio é, pelo menos pra mim, que esse é o jeito que sei fazer as coisas, digo, as canções.
A sonoridade é sofisticada, cheia de disco e MPB, mas a atitude é puro caos performático. Como essa fricção entre deboche e refinamento ajuda vocês a construir os personagens, os climas e os universos que alimentam o som?
Mais do que tudo acredito que trabalhar entre o limite das coisas é uma coisa que diz bastante sobre o que a gente faz. Creio que a fricção em si é o nosso jeito de tentar ser corajoso ao produzir música e ao criar o nosso universo. O humor inclusive é algo que brinca com o limite da simplicidade e da complexidade, do deboche e do que é sério, lembrando do absurdo que é viver na época em que a gente vive. A fricção assim funciona como um jeito de viver no limite sem ser neutro. Sabe? Sobre não se levar a sério tendo muito respeito pelo que a gente faz, sobre não só viver na realidade, mas criar uma onde os Pelados – que são personagens, mas também somos só nós mesmos – possam viver em paz.
O imaginário de vocês mistura o cósmico com o cotidiano e funciona quase como uma narrativa cinematográfica contínua. Em um presente que transforma tudo em estímulo rápido, como vocês atravessam a pressa da timeline sem perder a piada inteira?
Acho que isso é meio acidental… Tipo, não me leve a mal hahah, mas acaba que no dia específico em que fizemos uma música pode ter tido algum meme ou referência que brotou no celular de alguém no momento certo no lugar certo e acabou meio que virando parte da música. Isso acontece muito! O processo de composição e gravação é na realidade rápido quando consideramos que ficamos divulgando um disco por uns anos. Sem falar que a partir do momento em que o disco é lançado ele dura pra sempre! Às vezes um almoço que você tem com um amigo em que discutem uma letra é no mesmo dia em que você recebeu uma figurinha de WhatsApp particularmente engraçada.
No universo da Pelados tudo é imagem, gesto, figurino, riff, meme e ficção possível. Onde nasce uma música? Que tipo de faísca indica que um som ainda sem nome pode virar faixa clipe ou aquele caos controlado que vocês parecem dominar tão bem?
Temos um processo de composição muito peculiar! Cada música tem sua própria trajetória de como se formou. Acho que o lance com os Pelados é que toda ideia pode ser válida se alguém lutar por ela seja um riff, uma letra, uma harmonia, uma bateria, um áudio de WhatsApp ou mesmo uma ideia mirabolante de música milimetricamente pensada para desafinar uma nota até o tom da próxima música (é o caso de Star Trek: Primeiro Contato).
A questão é que quando jogamos uma ideia no grupo, temos que nos desprender um pouco, estar abertos pra que a música e o arranjo sejam moldados no coletivo e isso é muito massa. Talvez a parte mais gratificante de ter banda! A ideia se torna algo completamente novo, um som que só existe porque 5 pessoas teimosas ficaram batendo a cabeça pra fazer o bagulho funcionar.
A faísca pra uma canção, clipe ou qualquer coisa que seja vem quase sempre do entusiasmo de um dos Pelados com uma ideia – muitas vezes nem precisando ser o autor inicial dela. Não diria que o caos é controlado, acho que é só a impressão de 5 amigos tentando dizer algo juntos que não conseguiriam dizer separados.
A nave-mãe de vocês nunca pousa no mesmo lugar. Ela opera entre o ridículo e o sublime, duas zonas onde muita gente tem medo de entrar. Quem vocês imaginam como passageiro ideal dessa ficção científica emocional e o que gostariam que permanecesse no corpo e na cabeça de quem embarca?
No filme Contato de Robert Zemeckis o alienígena é capaz de assumir qualquer forma para se comunicar com os humanos sem amedrontá-los. Quem sabe a banda Pelados consegue se disfarçar de James Murphy, Gilberto Gil ou Ednaldo Pereira no processo musical. O timbre, o arranjo, o riff, a letra, tudo faz parte da música, muita gente esquece disso. Esses detalhes têm que se comunicar entre si para passar nossa mensagem. Não sei se é a mesma mensagem que o ET Bilu ou que o Robert Zemeckis quis passar. Mas cada canção significa um tanto pra quem escreveu e produzimos com muito carinho. Então todo mundo que escuta Contato me alegra.
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Pré venda do vinil “Contato”
Fotos por Gabriela Luiza
Agradecimentos: Francine Ramos (assessoria de imprensa)
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