Antonio Vaz Lemes faz o piano conversar com a internet

Pianista e criador do Piano Que Toca, Antonio Vaz Lemes une peças de concerto, trilhas de videogame e música pop em um repertório sem fronteiras de gênero.

O algoritmo não costuma priorizar vídeos de piano clássico na linha do tempo. Antonio Vaz Lemes construiu uma audiência de mais de um milhão de pessoas provando o contrário com o Piano que Toca. Passou pela Unesp, academias na França e por três álbuns de concerto antes de abrir o canal para divulgar aulas de piano durante a pandemia. O plano era pequeno. O resultado foi uma linguagem capaz de colocar Beethoven e trilha de videogame na mesma frase, sem tratar nenhum dos dois como menor.

O repertório atravessa públicos que não costumam se cruzar. Anime, hino de futebol, pop, peça clássica. O que une as músicas vai bem além do gênero. É o sentimento que cada uma carrega e a possibilidade de nomear sentimentos para quem já sentia, mas nunca tinha encontrado as palavras.

Na entrevista ao deepbeep, Antonio fala sobre o momento em que ouviu Thriller ainda criança e aprendeu a operar o toca-discos sozinho para poder repetir a música quantas vezes quisesse, sobre o que vinte anos de aulas de piano ensinaram sobre espontaneidade, e compositores de trilhas de videogame que criaram mundos inteiros com poucos canais de som. A playlist “Depois do Piano” reúne o que ele escuta quando não precisa compor, ensinar ou convencer ninguém a gostar de música.

Por Claudio Thorne, redes e comunidade
Com supervisão de Lísias Paiva, editor-chefe, e arte de Mateus Nicastro.

Você tinha quatro anos quando ouviu Thriller e chorou de emoção. O que uma música precisa fazer para ainda conseguir te pegar desse jeito hoje?
Eu tinha 4 anos, minha irmã tinha ganhado o álbum em vinil e eu gostei tanto da música que aprendi a manipular o toca-discos sozinho. Eu precisava poder ouvir e acessar quando quisesse, sem precisar pedir pra ninguém. Foi num desses momentos de contemplação do álbum, sozinho, que minha mãe me viu emocionado e decidiu me colocar nas aulas de piano.

Você passa boa parte do tempo escolhendo músicas que podem fazer alguém se interessar por piano. O que você costuma escutar quando não precisa convencer ninguém a gostar de música?
Sou muito eclético, por sorte. Em primeiro lugar, música com ou para piano. Compositores clássicos como Beethoven, Bach, Mozart, Prokofiev, Schubert, Schumann, Brahms, Villa-Lobos, Guarnieri, Fauré, Ravel, Debussy e Poulenc são os meus prediletos.
Música brasileira também sempre está na minha órbita. Hoje em dia, tenho ouvido Jão, Catto, Amaro Freitas, Erika Ribeiro, Urias e Getúlio Abelha, mas já tive minhas épocas com todos os medalhões da MPB, vocal ou instrumental. César Camargo Mariano e Egberto Gismonti meio que moldaram meu ouvido.
Gosto muito de música eletrônica, tipo Poolside ou Jungle, das divas pop e da cultura pop em geral. Sempre esbarro em Phil Collins, George Michael, Whitney Houston, Madonna e MJ, mas também em M83, Kim Petras, Miley Cyrus e Susanne Sundfør.
Ainda tem o universo do jazz, que me leva a todos os compositores, pianistas e divas vocais… E o pianista Brad Mehldau, que estava ouvindo ontem!
Certamente estou esquecendo tantos e tantos…

Tem alguma música de game, filme, anime ou pop que você passou a respeitar de outro jeito depois de estudá-la no piano? O que o instrumento te fez ouvir que você não ouvia antes?
Em primeiro lugar, passei a respeitar todos os que vieram da geração 8 bits por entender o quanto foram capazes de fazer com tão pouco. Koji Kondo (Zelda, Mario Bros.), David Wise (Donkey Kong), Kinuyo Yamashita (Castlevania) e Takashi Tateishi (Mega Man) conseguiam criar rock, jazz, dance music e música oriental com apenas quatro ou cinco canais de som.
Mais que isso, eles moldaram musicalmente a personalidade dessas franquias que nos envolvem até hoje. São clássicos definitivos.
Hoje temos músicas de games sendo compostas diretamente para orquestras sinfônicas, como é o caso de Genshin Impact (Yu-Peng Cheng). Mas também me encanto com o mix entre o analógico e o sintético de GRIS (Berlinist) ou com o totalmente sintético de Celeste (Lena Raine/Kuraine).

Depois de mais de vinte anos ensinando piano, qual é uma coisa que um aluno já te ensinou sobre música que nenhum livro ou professor teria conseguido ensinar?
Amo dar aulas pra crianças porque elas sempre me fazem lembrar o que é ser espontâneo. Com o tempo, a tendência é se esquecer desse ingrediente fundamental para a arte. Tá aí um dos privilégios de ser professor: essa convivência intergeracional saudável e inspiradora.

Tem alguma música que você gostaria de conseguir ouvir de novo como ouvia antes de aprender tudo o que sabe sobre música?
Infelizmente, tem músicas que a gente amava, mas, de tanto ouvir, acaba enjoando. Mas a música clássica nunca me ofereceu esse ranço! Acredite: algumas músicas ou compositores continuam desafiando minha imaginação.
Não me canso de procurar caminhos, soluções ou respostas na música de Beethoven ou Debussy, por exemplo. Não é à toa que essas músicas estão há séculos entre nós! Quando escolho uma peça pra tocar ou defender, espero que ela seja minha parceira pelo resto da vida! Mas, como qualquer relação de amor, paixão ou amizade, algumas se tornam mais ou menos importantes dependendo do momento da vida.

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Fotos por Renato Nascimento
Agradecimentos ao Felipe Mendes

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Do Beethoven e Debussy a Mario Bros., de divas pop ao jazz. Antonio Vaz Lemes não parece muito interessado em respeitar fronteiras musicais. Nesta seleção, o piano divide espaço com sintetizadores, games e hits que atravessam gerações.

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