
André Abujamra e a desobediência como método. Onde “brincar sério” é a única defesa contra a música de elevador.
Para André Abujamra, a perfeição é um estacionamento. Ele entende que em um mundo viciado em precisão e pressa, o único jeito de a arte continuar viva é proteger o erro. Sua obra não tem “eixo criativo”, tem curiosidade de moleque. Ele recusa a separação entre música, cinema e atuação porque vê tudo como o mesmo jogo. É um trabalho que funciona à base de desobediência e mistura proibida, provando que se a ideia vem muito arrumada, ela provavelmente não serve. A conversa completa sobre como proteger seu “quintal de criança” do mundo adulto e a Playlist Impossível que ele criou estão logo abaixo.
Lísias Paiva, editor-fundador
André, seu trabalho atravessa música, cinema, atuação, composição e direção. O que sustenta todas essas frentes dentro de você? Qual é o ponto de origem que faz tudo conversar?
Sinceramente? É tudo a mesma bagunça dentro da minha cabeça. Não tem essa de disciplina, eixo criativo, nada chique assim não. O que sustenta tudo é curiosidade de moleque. Eu fico fuçando nas coisas. Se me deixa perto de um instrumento, eu aperto. Se me coloca num set de filmagem, eu cutuco a câmera. Se pedem pra atuar, eu invento uma voz, faço uma careta e pronto, virei personagem. É tipo vontade de brincar. E brincar sério, sabe? Aquele sério de criança que entra no jogo com tudo, acredita, pirraça, inventa, desmonta, monta de novo. Música, cinema, direção pra mim é tudo a mesma coisa: contar história fazendo barulho, fazendo gesto, fazendo imagem. Então o que faz tudo conversar é que sou eu mesmo em todos os lugares, do mesmo jeitão, meio maluco, meio emocionado, meio exagerado. A única regra é: se não tiver tesão e diversão, eu nem começo.
Seu som nunca se acomodou num formato. Ele nasce do risco, do humor, do desvio. Hoje, como você reconhece quando uma ideia é realmente sua? O que faz algo soar Abujamra antes mesmo de existir?
Ah, isso aí é fácil de sentir e difícil de explicar. Quando a ideia me dá risada ou me dá medo, aí eu sei que é minha. Se ela vem toda certinha, arrumadinha, pode saber: não sou eu. Agora, se aparece aquele negócio torto, com cheiro de encrenca, que eu ouço e penso: “Nossa, isso aqui vai dar trabalho, mas tá legal…”, é Abujamrica.
O que faz algo soar meu antes de existir? É quando vem uma mistura esquisita na cabeça, tipo botar um coro gregoriano com um teclado de camelô ou um ritmo africano com uma guitarra de brinquedo. Aquela vontade de juntar coisas que ninguém pediu pra juntar. Quando eu sinto que estou quase perdendo o controle, aí sim eu sei que tô no caminho. Meu som nasce desse caos organizado. Se a ideia me empurra pra fora da estrada, me dá coceira e me deixa feliz, é Abujamra antes de virar qualquer coisa.
O deepbeep celebra o processo artesanal e humano. Sua obra sempre flertou com o acaso e o improviso. Como você protege esse espaço de experimentação em um tempo que exige precisão e pressa?
Proteger esse espaço aí é tipo proteger um quintal de criança: se deixar os adultos mandarem demais, vira estacionamento. Hoje tudo é rápido, tudo é pra ontem, tudo tem que estar perfeito, mas eu não funciono assim. Eu desobedeço. Invento meu próprio tempo.
Se o mundo tá correndo, eu faço o contrário: paro, erro, mexo, rabisco, volto, deixo a cagada acontecer. Porque é dessa bagunça que nasce coisa viva. Se tirar isso, vira música de elevador. Eu trabalho com gente que sabe como funciono. No deepbeep, no Karnak, em tudo deixo espaço pro imprevisto entrar. A precisão eu deixo pra depois. É assim que eu protejo esse pedaço de loucura que ainda me mantém criativo.
Seu processo sempre pareceu um laboratório vibrando entre acaso, caos e intuição. Como essas três forças operam no seu dia a dia criativo? Em que momento você percebe que um acidente virou uma revelação?
Meu dia a dia é tipo um laboratório sem jaleco na Santa Cecília. Eu acordo e já tem barulhin na cabeça. Só tento não atrapalhar. Se tá tudo muito certinho, eu me sinto preso. Então eu bagunço mesmo: troco instrumento no meio, mudo o ritmo sem motivo, gravo por cima, erro, deixo o erro ficar.
O caos é tipo o motor. E a intuição é o GPS sem sinal. Agora, quando que eu percebo que um acidente virou uma revelação? É naquele segundo exato em que eu falo: “Nossa, que esquisito, mas tá muito legal.” O acidente vira caminho.
Depois de tantas obras que abriram caminhos e deslocaram expectativas, o que você ainda deseja provocar no ouvinte? Qual é a inquietação que segue exigindo espaço na sua arte?
O que eu quero provocar? A mesma coisa de sempre: coçar a cabeça do povo. Quero que o ouvinte sinta um negócio que ele não tava esperando, mas que, depois que sente, pensa: “Tá, isso aqui é estranho, mas é bom.” Eu não quero ser bonito, certinho, redondinho. A estranheza é boa.
E a inquietação que mais me cutuca até hoje é essa mania de não querer repetir fórmula. O que exige espaço na minha música, sempre, é mistura. Mistura proibida, mistura improvável, mistura que não combina. Aquela emoção meio torta, meio engraçada, meio triste, tudo junto, sem manual.
A Playlist Impossível (comentada por André Abujamra)
Uma seleção de 15 a 20 músicas que, no papel, jamais deveriam coexistir. Canções de universos que se repelem, mas que no seu olhar formam um mapa secreto daquilo que a música ainda pode ser.
- Baby Elephant Walk – Henry Mancini (pra começar já torto)
- Killing in the Name – Rage Against the Machine (porque porrada também é poesia)
- Asa Branca – Luiz Gonzaga (bota sanfona no meio do caos)
- Bachelorette – Björk (a deusa do estranho, sempre)
- Maria Fumaça – Banda Black Rio (swing pra desarrumar as moléculas)
- É Proibido Fumar – Roberto Carlos (fase iê-iê-iê, porque sim)
- Miserere Mei, Deus – Gregorio Allegri (vai um coral renascentista pra limpar o espírito?)
- Zombie – Fela Kuti (politica + groove infinito)
- The Robots – Kraftwerk (robô alemão no meio do forró e da sanfona — chupa essa)
- Carinhoso – Pixinguinha (pra deixar tudo doce na marra)
- Psycho Killer – Talking Heads (porque todo mundo tem um pouco de David Byrne escondido)
- Tamacun – Rodrigo y Gabriela (violão tipo metralhadora)
- Around the World – Daft Punk (loop infinito que hipnotiza)
- Aquarela do Brasil – João Gilberto (pra tirar o pó da alma)
- Symphony No. 7, II – Beethoven (porque o homem era roqueiro antes de existir guitarra)
- Ace of Spades – Motörhead (Lemmy é tipo café forte — não discute)
- Idioteque – Radiohead (paranoia gostosa)
- É o Amor – Zezé Di Camargo & Luciano (pra acabar com elegância duvidosa, que é a minha especialidade)
Pronto. Tá aí a playlist que existe porque o mundo é divertido demais pra ficar combinando coisa com coisa.
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Agradecimentos: Piky Candeias Comunicação (Assessoria de Imprensa)
Fotos: Paulo Rapoport
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