Felipe Puperi conta como encontra o clima de cada disco e aprende a respeitar o tempo das músicas no Tagua Tagua.
Felipe Puperi não quer que todos os discos do Tagua Tagua provoquem a mesma reação. Quando compôs Inteiro Metade, queria levar quem escuta da euforia à melancolia. Em Tanto, preferiu manter a mesma vibração do início ao fim. Com RAIO, quis trazer mais movimento para o show, com músicas que dessem vontade de dançar junto. O projeto muda de direção porque a experiência que Felipe quer criar também muda.
Para chegar a cada resultado, ele compõe, toca e trabalha nos arranjos até reconhecer o que a música ainda precisa. A experiência de produzir para outros artistas ajudou a desenvolver essa percepção, mas hoje boa parte das decisões acontece pela intuição. Nem sempre é fácil saber quando parar. Felipe foi descobrindo como confiar no próprio ouvido sem transformar a produção numa busca interminável por algo a acrescentar.
Depois de lançar discos e passar por inúmeras turnês, Felipe percebeu que tentar acelerar a carreira pode afastá-lo do que mais gosta em fazer música. A conexão de alguém com uma faixa não acontece sob encomenda. Às vezes, ela chega anos depois, ligada a uma lembrança que nem existia quando a canção foi escrita. Para a conversa com o deepbeep, ele montou a playlist “A Arquitetura da Vibe”, com músicas que despertam seu interesse pela construção sonora. Vale prestar atenção no que faz cada uma funcionar, mesmo quando a letra não é o centro da experiência.
Por Claudio Thorne, redes e comunidade
Com supervisão de Lísias Paiva, editor-chefe
O som do Tagua Tagua tenta dar corpo para sentimentos que a gente tem e não consegue explicar. Num mundo que pede o óbvio e o literal o tempo todo, por que você insiste em criar essa música que é pura subjetividade e sonho?
Eu acredito que muitas das respostas que procuramos na vida vêm desse espaço não material e concreto. Tem muita coisa que apenas se sente, que não dá pra explicar. Vejo a música como um desses canais que nos permitem ir além, voar pra longe com uma melodia, se sentir em casa com uma harmonia. Fazer música, pra mim, é acessar essa camada e me expressar dessa forma, um lugar certamente onírico que é de cura, mas também de libertação, explosão e alegria. Percebo que as pessoas se conectam com isso e acessam também esses lugares da sua maneira. São lugares mágicos de alteração de consciência e estado de espírito.
Existe uma malandragem no seu som porque o groove é solar, de praia, mas a bateção é melancólica. É um som pra dançar chorando. Como você timbra os instrumentos para segurar essa dualidade sem deixar a peteca cair para um lado só?
Não sei muito bem como gerir essa coisa de ser várias sensações, meio que faço o que estou sentindo no momento. Tem músicas que acabam sendo a minha vontade de dançar, de curtir o pôr do sol numa estrada vazia rumo a lugar nenhum, já outras são a expressão da minha vulnerabilidade, de uma melancolia que faz parte de mim e que sinto desde criança.
O algoritmo odeia quem demora, e sua música exige tempo de imersão. Como você blinda seu processo de fazer manual contra essa ansiedade coletiva de ter que performar e postar conteúdo todo dia?
Pra mim, essa é a parte mais difícil do processo. Eu fui aprendendo na marra a desacelerar, e isso até hoje é um aprendizado. Fiz muitas coisas desde que comecei com Tagua Tagua, já lancei muitas músicas, fiz inúmeras turnês por todos os cantos e percebi que o tempo tem o seu próprio tempo, que não tenho nenhum controle sobre ele. Por mais que tente acelerar as coisas, não é isso que vai ditar como a coisa anda nem o que vai me apresentar melhores resultados. Bem pelo contrário, vai me adoecer e me distanciar do que eu realmente amo no processo. Acredito que as pessoas têm seu tempo de chegar até uma música e se conectar com ela. A música é lembrança, ela faz parte de uma época da nossa vida, nos remete a amigos, amores, momentos. Ela precisa de tempo pra acontecer.
Suas faixas são cheias de camadas, texturas e ‘coisinhas’ escondidas. Qual é o critério para não passar do ponto? Como você sabe a hora exata de largar o pincel e dizer ‘tá pronto’, antes de superproduzir e estragar a magia?
Fui aprendendo um pouco em cada fase minha como criador e arranjador. Trabalhar com outras pessoas como produtor também me ajudou a ter um ouvido mais treinado para perceber quando é hora de parar ou se ainda tá faltando algum arranjo. Hoje em dia, posso dizer que virou uma coisa meio intuitiva, como se eu escutasse as coisas sabendo o que falta ou não.
Música muda o ambiente. Quando alguém dá o play no seu disco, qual é o estado mental que você quer instalar na sala dessa pessoa? É pra relaxar, pra viajar ou pra entrar numa crise existencial gostosinha?
Cada disco foi meio que pensado de um jeito. Quando fiz o Inteiro Metade (lá em 2019), queria um pouco de tudo, de cada sentimento ao ouvir o álbum. Era meio uma montanha-russa: você fica eufórico, feliz, depois nostálgico e acaba melancólico. No Tanto, pensei diferente disso, quis um álbum que te transportasse pra mesma vibe do início ao fim, aquele tipo de disco que você dá o play e nenhuma canção te tira dali e te leva pra outro sentimento. Por fim, no RAIO, já tava querendo movimento, trazer algo solar pro show também, algo com que as pessoas pudessem dançar e curtir com seus amigos.
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Fotos por Guillermo Calvin
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O que faz uma música funcionar antes mesmo de prestarmos atenção na letra? Felipe Puperi criou a seleção para ouvir com calma e descobrir o que mantém o som interessante a cada nova escuta.
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