
O Taj Ma House começou a ganhar forma muito antes de ter nome, entre as noites de Natal, os B2Bs e a intimidade de quem já sabia tocar junto.
Em Natal, Pajux produzia festas, Clara Luz cantava Tim Maia numa boate do Centro Histórico, e Elisa Bacche e Janvita circulavam pela mesma cena. Durante anos, os quatro se encontraram em B2Bs, lineups e shows, acompanhando o trabalho uns dos outros até começarem a tocar juntos. O Taj Ma House nasceu dessa convivência, construída numa cidade cuja vida noturna ajudou a definir o som e a maneira de ocupar o palco.
O quarteto mistura DJ set, canto e percussão ao vivo. A base eletrônica sustenta o fluxo da apresentação, enquanto voz e instrumentos permitem alterar a dinâmica conforme o show avança. Pajux descreve esse formato como um cálculo aprendido ao longo dos anos, uma combinação que dá ao grupo liberdade para decidir quanto espaço abrir para cada elemento e acompanhar as reações de quem está dançando.
Essa relação entre criação e pista aparece no percurso de Calor do Som, presente nos shows em 2024 e lançado nas plataformas em maio de 2026. O repertório ao vivo antecedeu o lançamento oficial e as apresentações deram ao grupo a oportunidade de observar como as músicas funcionavam diante do público. As respostas também chegam ao estúdio, onde detalhes de produção, grooves, percussões e vozes voltam a ser examinados à luz do que aconteceu na pista.
A noite tem ainda um lugar pessoal na história dos quatro. Para Clara Luz, foi onde a própria voz ganhou reconhecimento e ela se descobriu cantora. Janvita associa a dança à liberdade que atravessa gerações e diferentes formas de se relacionar com a música. As experiências de Pajux e Elisa Bacche completam uma história em que a pista é espaço de trabalho, encontro e descoberta.
Na playlist “Faça a Casinha”, os quatro reuniram faixas para aquele instante em que a pista começa a mudar de direção. Kerri Chandler, Frenéticas, Vange Leonel, Grafith e Fat Family estão entre os nomes escolhidos. O repertório parte de uma experiência que o Taj Ma House conhece bem, a de perceber quando uma música muda a disposição de quem está na sala.
Lísias Paiva, criador e editor
O Taj Ma House nasceu antes da banda, na noite de Natal. O que vocês já sabiam fazer juntos antes de perceberem que aquilo podia virar música?
Pajux: Antes da gente nomear e entender o Taj Ma House como projeto, a gente já havia se apresentado juntos. E, antes mesmo disso, passamos anos nos encontrando nas pistas, tocando em formato B2B, assistindo aos shows uns dos outros. Lembro que Clara Luz apresentava um projeto com covers de Tim Maia na mesma boate onde eu produzia minhas primeiras festas, e foi em um show dela nas ruas do Centro Histórico que houve a aproximação que, em sequência, gerou o projeto.
Paralelamente a isso, sempre produzi eventos com Janvita e Elisa no line-up. Foram inúmeros sets em B2B que fizemos juntos. Então, a gente já sabia movimentar a cultura da cidade, se conectar com a pista de dança e um modo de fazer arte e cultura que é atravessado pelas limitações do nosso espaço e alimentado pelas potências que surgem dele. Somos um projeto moldado pela vivência nas ruas de Natal, em seus melhores e piores momentos, e é essa habilidade de sentir esse movimento urbano e essa necessidade de dançar tudo isso que mais influenciam nossa música.
Tem coisa que só funciona porque nasceu numa pista. O que vocês aprenderam sobre uma música vendo o público reagir a ela antes de ela estar pronta?
Elisa Bacche: Acho que a pista ensina coisas que o estúdio não consegue ensinar. Por exemplo, algumas vezes a gente está trabalhando numa música e acha que determinado momento é o mais forte, mas, quando toca para o público, percebe que é outro detalhe que realmente conecta. O corpo das pessoas responde antes mesmo de elas saberem explicar o porquê. A gente aprendeu a confiar muito nessas respostas. Inclusive, acho que, por a maioria da banda também ser DJ, esse filtro de conduzir a pista fica mais aguçado.
Às vezes é um groove, um break, um jeito de cantar, de abrir vozes, uma virada de percussão. É nesses momentos que a gente sente quando a pista comprou a ideia. No fim, acho que a música vai ficando pronta junto com o público e, nesse namoro, nessa troca entre observar e ser observado, voltamos para o estúdio para mexer de novo na música a partir daquilo que foi sentido na pista. E é nesse diálogo entre estúdio e pista que acaba dando identidade ao som do Taj Ma House.
O que a noite mudou em vocês que vocês não teriam aprendido em nenhum outro lugar?
Clara Luz: A noite, para mim, sempre foi um lugar de encontro. Um encontro comigo mesma, com a minha história e com aquilo que, muitas vezes, durante o dia, fica escondido dentro de mim. É na noite que eu melhor me encontro. É quando o barulho do mundo diminui e consigo escutar a minha própria voz. A noite me acolhe, me conforta e, ao mesmo tempo, me devolve para mim.
Mas a noite também é encontro com o outro. É reencontro com a nossa comunidade, com as nossas histórias, com aquilo que nos identifica e nos faz pertencer. Existe na noite um acolhimento que é difícil explicar, uma sensação de estar em casa, mesmo quando a gente está longe de casa.
Foi na noite que descobri que sabia cantar. Foi ali que percebi que a minha voz chegava às pessoas e que elas gostavam de me ouvir. Mas foi muito além disso. Foi na noite que eu me enxerguei. Foi na noite que me reconheci cantora. Artista. Foi ali, entre vozes, encontros, afetos e histórias, que comecei a compreender que cantar não era apenas algo que eu sabia fazer. Era uma parte de quem eu sou. Talvez seja por isso que, para mim, a noite nunca seja apenas a noite. Ela é memória. É pertencimento. É descoberta. É onde encontro a minha voz e, através dela, encontro a mim mesma.
No palco, vocês não são exatamente uma banda nem exatamente um DJ set. O que esse formato permite fazer que um formato mais comportado não deixaria?
Pajux: O nosso formato de show permite que a gente possa unir o melhor dos dois mundos. O formato de DJ set ajuda a criar uma pulsação constante, que leva à criação de uma atmosfera firme. Enquanto isso, o canto e as percussões ao vivo permitem uma dinâmica e uma conversa completamente adaptáveis com o público. Se a gente enxergar o formato banda e o formato DJ set como polos opostos, isso significa que o Taj Ma House está exatamente entre os dois, e isso nos permite transitar pelos dois lados e extrair reações diferentes, dependendo de qual lado iremos pender em cada momento do show. É um cálculo que aprendemos a fazer ao longo dos anos e que nos dá bastante liberdade.
Depois de levar essa experiência para outras cidades e para a Europa, o que vocês querem descobrir agora que só pode aparecer quando o Taj Ma House encontra uma pista nova?
Janvita: Muito se fala que essa nova geração tem perdido a essência das experiências ao vivo pela mediação digital, certo? Não somente a nova geração, mas todas nós que já estamos imersas nessa nova forma de convívio social. Consigo falar por mim que a nossa alegria, seja numa pista que já conhecemos ou que estaremos prestes a conhecer nesse mundão aí, é que as pessoas dancem como o imperativo máximo de liberdade.
Do corpo ao espírito, dançar house music é o que nos liberta, nos fez ser uma banda de house. Se joguem na dança e, se for para performar, que seja nas pistas ou palcos. Dancem!
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House, disco, remixes e pop brasileiro. A playlist “Faça a Casinha” é a seleção do Taj Ma House para quem gosta de descobrir o que acontece quando repertórios diferentes dividem a mesma pista.
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