
Da criação de uma ideia às referências que formam um olhar, Lucas Menezes investiga o que permanece quando a linguagem muda.
Antes de uma marca ter um logo, uma roupa ter uma modelagem ou uma música chegar ao refrão, existe um momento em que a forma ainda não está pronta. Lucas Menezes passa boa parte do processo criativo tentando descobrir o que é. Criador da D-AURA, ele parte da arquitetura, da cidade e dos materiais para construir uma linguagem que não dependa da repetição dos mesmos códigos. Como uma identidade continua reconhecível quando muda de forma é uma pergunta que acompanha seu trabalho.
Foi olhando para a própria trajetória que Lucas percebeu uma referência que demorou a nomear. Durante muito tempo, enxergou a arquitetura paulista, especialmente o brutalismo, como uma influência autônoma. Depois entendeu que havia algo mais específico por trás dela. O Brasil estava ali. Não como um conjunto de signos fáceis de reconhecer, mas na cidade que o formou, nos materiais, na arquitetura e numa maneira particular de construir.
Lucas se interessa por uma beleza que não depende de perfeição nem de uma aparência específica. Para ele, existe elegância nas formas que parecem ter chegado a determinado lugar por uma razão, sem nada ali que apenas produza efeito. A playlist “Antes do Nome” parte dessa mesma pergunta e reúne músicas que constroem um universo antes mesmo de chegar ao refrão.
Lísias Paiva, criador e editor
Lucas, quando uma ideia deixa de ser interessante e passa a merecer existir?
Acho que uma ideia começa a merecer existir quando você não consegue mais parar de pensar nela. Quando ela volta, insiste, vai ocupando espaço e você começa a querer entender melhor aquilo, desmontar, reconstruir, olhar por outros ângulos. Quase uma obsessão mesmo. Mas eu também acho que a ideia já existe antes de virar qualquer coisa. Antes de ser produto, projeto, objeto. Idear já é uma forma de existência. É organizar pensamento, criar relações, testar possibilidades. Dar alguma estrutura para uma coisa que ainda está pulsando. Talvez o que mude seja a profundidade. Algumas ideias passam. Outras pedem mergulho. E, quando isso acontece, eu quero ir até o fundo para entender o que existe ali. O que ela pode deslocar. O que ela pode transformar. Ou, às vezes, simplesmente até onde aquele pensamento consegue chegar.
O que faz uma música ser reconhecida antes do refrão? E uma marca antes do logo?
Acho que é uma questão de essência. Os códigos podem mudar muito. A forma, a imagem, o som, o material. Mas tem um jeito de lidar com essas coisas. De combinar, de traduzir. E acho que é aí que começa a aparecer alguma coisa que você reconhece, mesmo antes de saber exatamente o que é. Isso é uma pesquisa muito constante para mim, principalmente quando penso em marca. Como criar uma identidade que não dependa de ficar repetindo sempre os mesmos códigos? Como mudar, experimentar, ir para outros lugares e ainda existir uma coerência ali? Acho que quando você consegue fazer isso de um jeito natural, sem precisar anunciar o tempo todo quem você é, tem alguma coisa muito forte acontecendo. E é um lugar que eu persigo bastante nos processos criativos.
Qual referência você demorou mais tempo para reconhecer em você?
Acho que foi o Brasil. E talvez eu ainda esteja reconhecendo isso. Por muito tempo, eu entendi algumas das referências da D-AURA muito a partir da arquitetura. Da arquitetura paulista, principalmente. Do brutalismo, de uma certa forma de pensar estrutura, matéria, cidade. Mas eu ainda tratava tudo isso quase como se “arquitetura” fosse uma referência autônoma. E não é. Em algum momento, eu comecei a perceber que existe um recorte de Brasil muito forte ali. Porque eu não estava olhando para qualquer arquitetura. Eu estava olhando para uma produção que aconteceu aqui, para um pensamento que se construiu a partir daqui. São Paulo está muito presente nisso. E, de alguma maneira, esse jeito de olhar para a cidade, para os materiais, para a própria ideia de construção, foi entrando na D-AURA muito antes de eu conseguir nomear isso como Brasil. Talvez tenha sido essa a parte mais difícil de reconhecer porque, quando a gente fala em Brasil, existe quase uma expectativa de encontrar alguns signos muito específicos. Uma coisa mais imediatamente identificável como brasileira. E esse nunca foi o meu lugar. O Brasil que eu comecei a reconhecer na D-AURA é outro recorte. Está na arquitetura que me formou, na cidade que eu observo, nas referências que escolho, numa certa maneira de construir as coisas. Não necessariamente em uma imagem do Brasil. E isso abriu uma pesquisa muito grande para mim recentemente.
Que tipo de beleza continua chamando sua atenção, mesmo quando muda de forma?
Acho que a beleza que continua me chamando a atenção é a que vem da essência. Não importa tanto qual forma ela assume. Pode mudar de material, de escala, de época. Pode até mudar completamente de linguagem. Mas tem alguma coisa ali que continua inteira. E existe uma elegância muito própria nas coisas que parecem inevitáveis. Não porque sejam perfeitas. Acho que é mais porque elas parecem ter chegado naquele lugar por uma razão. Nada está ali só para produzir efeito. Talvez seja esse tipo de beleza que eu continuo procurando. Uma beleza que não depende tanto da aparência, mas da coerência que existe por trás dela.
Qual foi a última vez que alguém enxergou a D-AURA de um jeito que surpreendeu você?
Acho que foi quando uma cliente me disse que a D-AURA ajudava ela a se sentir mais confortável para ser quem ela é. Aquilo me pegou muito. Porque é uma coisa que a gente busca, mas que é muito difícil saber se realmente está acontecendo. Você desenha, pensa, pesquisa, constrói uma linguagem inteira. Mas existe sempre essa distância entre o que você pretende e o que a outra pessoa efetivamente sente. E acho que a D-AURA nunca quis competir com quem veste, nem mudar o foco da pessoa. A roupa pode ser máscara, pode ser escudo, pode criar uma outra presença, se essa for a intenção. Mas, no fim, o que me interessa mais é quando ela ajuda a traduzir alguma coisa que já estava ali. Então, ouvir isso de uma cliente foi muito forte. Porque, de alguma maneira, ela conseguiu colocar em palavras uma coisa que a gente tenta construir há muito tempo.
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Lucas Menezes voltou a artistas e momentos diferentes procurando músicas que carregam uma identidade própria.
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