
O ator fala sobre humor, drama, os limites impostos a quem ficou conhecido pela comédia e as histórias de novela que continuam fazendo parte da sua vida.
Rodrigo Fagundes não separa comédia e drama quando fala sobre atuação. Para ele, os dois começam no mesmo lugar: na humanidade de quem está em cena. Observar a loucura, a estranheza, a beleza e o fascínio das pessoas faz parte do trabalho antes de pensar se uma cena deve provocar riso ou emoção.
Essa forma de olhar para os personagens acompanha uma carreira que começou no teatro e passou pelo humor, pela televisão e pelo streaming. O reconhecimento pela comédia trouxe oportunidades, mas também um rótulo que Rodrigo ainda encontra dentro do próprio mercado. O público, segundo ele, acompanha melhor a mudança de registro. A resistência aparece entre quem escala os atores.
Em O Formigueiro, Rodrigo trabalha justamente nessa fronteira. A peça coloca humor, família, Alzheimer, afeto e conflito dentro da mesma história. Para ele, a comédia consegue fazer uma informação chegar antes da reação racional. A plateia ri e, no meio do riso, percebe que está diante de algo difícil.
Fora do palco, Rodrigo também carrega uma relação antiga com a dramaturgia. Ele e Wendell Bendelack trabalham com novelas, mas em casa preferem voltar às produções que assistiam na infância. As conversas sobre as cenas fazem parte do café da manhã. As novelas dos anos 80 e 90 continuam funcionando como referência para os dois.
Essa memória ganhou outra forma na playlist que Rodrigo preparou para o deepbeep. São 16 músicas de novelas, todas comentadas por ele. Tieta traz a mãe. A Gata Comeu lembra um período difícil da família. Vale Tudo aparece na adolescência, junto da vontade de ser ator. Pega Pega fecha a seleção por razões pessoais e afetivas. É a novela que Rodrigo considera sua estreia na teledramaturgia.
Na entrevista, ele fala sobre a vontade de encontrar humanidade nos personagens, o preconceito contra atores vindos da comédia e uma aprendizagem mais pessoal: depois de passar muito tempo disponível para os outros, está aprendendo a se priorizar.
Lísias Paiva, criador e editor
Com a colaboração de Claudio Thorne, redes e comunidade
NOVELAS QUE FICARAM
Uma playlist comentada por Rodrigo Fagundes
▶︎ 1. No Coração do Agreste, Tieta, Fafá de Belém – Sempre amei a música. Assisti Tieta com minha mãe, já falecida, que amava Betty Faria. Hoje, através do trabalho, fiquei muito amigo da Betty e ressignifiquei ainda mais essa música.
▶︎ 2. A Gata Comeu – Tanto a trilha nacional quanto a internacional são grandiosas até hoje. Ressalto “Só pra o Vento”, do Ritchie, e “Forever by Your Side”, do The Manhattans, temas de Jô Penteado, personagem da Christiane Torloni que eu amava. Essa novela passou no ano em que meus pais se separaram. Eram tempos difíceis em casa, sobretudo para minha mãe. E, quando a novela começava, parecia que tudo pausava e éramos felizes vendo juntos a novela.
▶︎ 3. Vale Tudo, de 1988, nacional – “Brasil”, na voz de Gal Costa, é impactante até hoje. A novela me despertou ainda mais a vontade de ser ator e de prestar atenção no Brasil como cidadão. As discussões sobre ética e poder eram afiadas e de comunicação imediata com o público. Era adolescente e ficava vidrado. Até hoje. Me choco quando vejo alguns jovens atores dizendo que nunca viram a novela. Tem que ver!!
▶︎ 4. Vale Tudo, de 1988, internacional – “Baby Can I Hold You”, da Tracy Chapman. Embalava todas as festinhas de Hi-Fi que eu frequentava.
▶︎ 5. Fera Radical, nacional – “Sobrou Pra Mim”, do Tunai. Lembro que me imaginava como os personagens da novela. Era todos. Fazia clipes sozinho em casa, imitando as cenas.
▶︎ 6. Elas por Elas, de 1983 – “Coisas da Vida”, do The Fevers. A abertura mais incrível até hoje, para mim. A música, a vibe, os efeitos, até hoje, me trazem sentimentos deliciosos.
▶︎ 7. Elas por Elas, internacional – As chamadas músicas lentas. Muito boas nesse disco. Destaco “I’ve Never Been to Me”, “Even the Nights Are Better”, “Forever” e “Cry Softly”.
▶︎ 8. Ti Ti Ti, de 1985, nacional – O disco todo é ótimo. A abertura com a banda Metrô é perfeita.
▶︎ 9. Ti Ti Ti, nacional – “Manequim”, na voz de Ney Matogrosso, é sublime. Chique. Lembro das cenas com Sandra Brea, que era puro charme.
▶︎ 10. Ti Ti Ti, nacional – “Troca-Troca”, do The Fevers. Eu amo até hoje. Tema dos personagens de Malu Mader e Cássio Gabus Mendes. É bem anos 80 e lembro que dançava muito na sala essa música.
▶︎ 11. Livre para Voar – A música da abertura, “Ao Que Vai Chegar”, com Toquinho. Eu tinha 12 anos e viajava nessa novela das 6, com Tony Ramos e sua amizade com o garoto Fernando Almeida. Era uma relação de amizade muito bonita a deles. Novela lúdica também. Eles moravam num vagão de trem.
▶︎ 12. Top Model – “À Francesa”, Marina Lima. Sem comentários, né!? É um hit até hoje. Aliás, tudo com Malu Mader me encanta.
▶︎ 13. Pedra sobre Pedra – “Entre a Serpente e a Estrela”, Zé Ramalho. Me arrepia. Ouço quase que diariamente. Acho emblemática. Levanta o astral.
▶︎ 14. A Viagem – “Quando Chove”, da Patrícia Marx. Baladas me pegam, e essa atravessa o tempo e nos tocará para sempre.
▶︎ 15. Selva de Pedra – “Rock and Roll Lullaby”, com Tony Ramos. É quase um hino sobre novelas, né? E hoje, trabalhando com Tony Ramos em Quem Ama Cuida, toda vez que o vejo, ouço os acordes dessa canção na minha cabeça e no coração. Rs.
▶︎ 16. Pega Pega – “A Hard Day’s Night”, com Skank. Abertura da novela que fiz e que considero minha estreia na teledramaturgia. Por razões pessoais e afetivas, encerro essa difícil tarefa de selecionar minhas músicas de novelas. Existem muitas outras, mas, por hoje, deleitem-se com essas. São especiais.
Rodrigo, você começou no teatro, passou pelo humor, pela novela e pelo streaming. O que muda no seu jeito de entrar em cena quando ninguém está esperando que você seja engraçado?
O meu investimento sempre foi o mesmo. Tento fazer tudo com muita verdade. Gosto quando a identificação do público é imediata. Sou muito observador e admirador do ser humano, com toda sua loucura, estranheza, beleza e fascínio. Somos múltiplos e procuro aplicar nos meus personagens características de comunicação imediata. Seja para rir ou para se emocionar.
Você e o Wendell trabalham juntos, mas disseram que em casa quase não falam de novela e preferem assistir a novelas antigas. O que vocês encontram nessas histórias que continuam funcionando tantos anos depois?
Uma nostalgia que nos remete à nossa infância. Crescemos vendo atores e atrizes brilhantes na TV e hoje trabalhamos e somos amigos de muitos, e isso nos enche de orgulho. As novelas dos anos 80 e 90 são muito marcantes para nós. Aprendemos muito vendo, estudando, trocando opiniões sobre as cenas no meio do nosso café da manhã. É uma coisa muito nossa. Uma mania de casal, talvez. E amamos nosso ritualzinho, rs.
O humor já te abriu muitas portas, mas você também fala sobre o preconceito de ser visto como “o ator do humor”. Hoje, o que ainda te dá vontade de provar em cena?
Confesso que só desejo fazer dos meus personagens algo que aqueça o coração de quem assiste. Na comédia ou no drama, que, para mim, estão sempre interligados, é importante perceber a humanidade do personagem. Existe, sim, um preconceito com os comediantes, mas não do público. Percebo que é algo de uma parte da classe, de pessoas que são gabaritadas para nos escalarem e acabam nos reduzindo a rótulos injustos às vezes. Mas eu sou teimoso. Eu cavo minhas oportunidades e sempre as celebro.
Em O Formigueiro, você está entre o riso, a família, o Alzheimer, o afeto e as farpas. O que uma cena engraçada pode revelar que uma cena dramática não consegue?
A informação, quando vem pela comédia, pega o público na curva. Às vezes, vem como um tapa na cara e você se pega rindo de algo que teoricamente não riria. É fascinante o poder da comédia. É forte. Em O Formigueiro, conseguimos dosar esses momentos de drama disfarçados de humor, pois o texto proporciona o uso dessas ferramentas que induzem a plateia a rir e se emocionar simultaneamente. É um triunfo para nós no palco e para o público.
Tem alguma coisa que você aprendeu a fazer muito bem para os outros e ainda está aprendendo a fazer por você?
A me priorizar mais. Sempre fui muito disponível para os outros. Isso às vezes não é bom, não, pois acabei me machucando. Nada traumatizante, mas situações na vida, no trabalho que me abriram os olhos e trouxeram cautela ao meu coração.
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Rodrigo Fagundes em Quem Ama Cuida
Rodrigo Fagundes em O Formigueiro
Fotos por Sergio Baia
Agradecimentos à Natasha Stein, da Natasha Stein Comunicação
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16 músicas de novelas que ficaram ligadas à mãe, à família, à adolescência, à formação como ator e à própria carreira.
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