Crescer fez Roberta Campos mudar de ideia, mas não sobre tudo.
Durante muito tempo, crescer parecia significar mudar de ideia e deixar versões antigas para trás. Roberta Campos descobriu que algumas coisas continuam fazendo sentido. Ao longo de mais de duas décadas, foi ampliando seu lugar dentro da música. Escreveu para Nando Reis, Fernanda Takai, Zélia Duncan, Humberto Gessinger, viu suas canções aparecerem em mais de vinte novelas e chegou a quase uma centena de fonogramas como compositora. Ela começou no violão e nos bares, mas permitiu que o amor pela música ganhasse outras formas pelo caminho.
O tempo também reorganizou outras certezas. Roberta continua insistindo no que acredita, mas aprendeu que não são todas as batalhas que merecem o mesmoinvestimento. O amor deixou de ser apenas intensidade para ganhar cuidado e transparência. A felicidade saiu das grandes conquistas e também encontrou espaço nas pequenas cenas do cotidiano. Entre uma resposta e outra, aparece a mesma ideia: crescer nem sempre significa trocar o que importa.
Na entrevista ao deepbeep, Roberta Campos fala sobre as convicções que resistem ao tempo, as músicas que continuam despertando as mesmas lembranças décadas depois e a felicidade que deixou de depender de grandes acontecimentos. A playlist “O Que Continua Com Você” prolonga a conversa com canções que atravessam diferentes fases da vida sem perder a capacidade de emocionar.
Por Claudio Thorne, redes e comunidade
Supervisão de Lísias Paiva, sócio-editor
Existe alguma diferença entre insistir numa coisa e acreditar nela?
A gente insiste porque acredita. São coisas diferentes, mas uma está ligada a outra. Eu sempre insisto em tudo que eu acredito. Não consigo desistir fácil, a não ser que aquilo não tenha a força da minha crença e eu não sinta tão forte isso em mim.
Agora, posso acreditar em alguma coisa e não insistir. Aí já é um caso que envolve alguém além de mim. Dependendo da energia que preciso depositar e o que aquilo representa pra mim, prefiro não me desgastar e focar nas minhas questões. Mas tudo que diz respeito a mim, tudo que é meu, é grande parte do que eu sou.
Pra isso vou até o fim.
Tem músicas que parecem acompanhar uma pessoa por anos sem envelhecer junto com ela. O que faz uma canção continuar fazendo sentido quando quase todo o resto mudou?
A música tem uma força e faz parte de momentos da pessoa que a leva naquele lugar quando ouve. Música é um sentimento, um sentimento único para cada momento que a gente vive.
A música acompanha os nossos momentos bons, ruins, que te pede força, coragem, como se ela nos ajudasse a escrever e a compreender a nossa vida.
Eu tenho música que me lembra minha infância, me faz lembrar da minha mãe fazendo o almoço, o barulho da panela de pressão, do passarinho cantando, da minha irmã conversando com suas bonecas e aquele sentimento bom transbordando no meu peito. Sempre que eu escuto essa canção eu sinto esse sentimento bonito e tenho essa imagem. Essa lembrança tem mais de 30 anos e ela é viva! Sempre se fará viva em mim.
Você já escreveu muito sobre amor. O que o amor adulto entende que a paixão ainda não consegue enxergar?
Com certeza! O amor é lúcido e te aterriza no mundo.
A paixão é algo muito bom, mas cega a gente em alguns momentos. O amor é quando a paixão te dá certeza de que floresceu um sentimento maior em você! O amor é tranquilo, maduro e que pede cuidado, reciprocidade e te chama pra crescer.
Pra amar, você não pode ter medo de se entregar e nem vergonha de suas vulnerabilidades. Amor é transparência, lealdade e certeza.
Ao longo da vida, o que ficou mais difícil de fingir?
Eu não consigo fingir ser algo que eu não sou, viver uma vida que não tem coerência pra mim! Não consigo fingir pra caber, pra fazer parte de um grupo, de um movimento, de uma moda, de qualquer coisa que não faça sentido pra mim.
Existe alguma ideia de felicidade que perdeu a graça depois que você se aproximou dela?
Essa pergunta me traz uma reflexão que venho fazendo.
Eu entendi que a felicidade é um momento e todas as coisas que eu quis muito e realizei, eu curti demais aquela felicidade, aquele dia, aqueles dias que reverberaram através dessa realização.
É tudo muito relativo, mas hoje eu percebo que a felicidade pra mim está cada vez mais no simples. Nas pequenas coisas, que pra mim são grandiosas, como conhecer pessoas legais, ver coisas bonitas pelas ruas. Um passarinho que pousa na arvore próxima da janela do quarto e eu posso pegar a câmera e ficar por um bom tempo ali registrando a sua tranquilidade. Isso é felicidade!
Tenho saúde, trabalho com o que eu amo e tenho condição de me proporcionar várias coisas que um dia eu quis e estava muito distante de ter. Eu agradeço muito por tudo, o tempo todo, isso me traz sentido, o sentido traz felicidade.
Felicidade é acordar com um bom humor, tomar um café e ter um dia agradável. Felicidade é também ganhar a consciência de que tudo na vida passa e que depois de um dia ruim, certamente a felicidade se aproxima de você novamente.
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