Uno Vulpo e o que não cabe em A+B

Uno Vulpo em entrevista ao deepbeep sobre humor, ciência, sexo, drogas e os limites da explicação.

Médico, criador do Sento Mesmo e DJ, Uno Vulpo transforma assuntos difíceis em conversa até chegar ao ponto em que nem a melhor explicação resolve tudo.

Tem coisa que fica mais fácil quando alguém encontra a maneira certa de explicar. Uno Vulpo fez da tradução uma parte importante do seu trabalho. Médico, criador do Sento Mesmo e DJ, ele circula entre consultório, redes sociais e pistas de dança, lidando com assuntos que costumam chegar carregados de informação, vergonha, medo ou julgamento. O humor entra no meio, não para escapar da delicadeza dos temas, mas para conseguir falar sobre eles.

As perguntas que chegam ao Sento Mesmo também revelam quem está do outro lado. Há quem procure informação sobre drogas e sexualidade sem se reconhecer no estereótipo associado a esses assuntos. Há quem chegue com uma dúvida que nunca teve coragem de fazer em voz alta. Para Uno, essa variedade importa porque muda a conversa. Foi estudando dependência química que ele mudou de ideia sobre coisas que antes pareciam óbvias e passou a distinguir uso recreativo, abuso e dependência. Há questões que resistem a essa tradução. Amor e tesão estão nessa categoria. Talvez a música seja uma das linguagens capazes de chegar mais perto delas sem precisar resolvê-las.

A playlist “Sem Manual” reúne músicas que Uno Vulpo escolheu sem explicar antes por que deveriam ser ouvidas. Hiroshi Yoshimura aparece várias vezes, ao lado de Nala Sinephro, Oneohtrix Point Never, Philip Glass e Aphex Twin, numa seleção que troca a explicação pela atmosfera e deixa a escuta fazer parte da descoberta.

A convite do deepbeep, Uno Vulpo leva essa mistura de medicina, humor, música e escuta para o PRISMA, no Centro Cultural São Paulo, onde se apresenta no dia 12 de setembro. As informações estão ao final da entrevista.

Nesta entrevista, ele fala sobre o que acontece quando explicar deixa de ser suficiente, sobre os limites do humor e sobre perguntas que chegam de lugares que ele não esperava.

Lísias Paiva, criador e editor

Você passa boa parte do dia tentando explicar coisas que parecem complicadas até alguém encontrar a maneira certa de dizer. Como você percebe que uma explicação finalmente ficou boa?
Nossa, difícil! Mas normalmente eu sempre recorro aos amigos pra ver se ficou inteligível, ahaha. Digo que meu trabalho vai para além de criador de conteúdo e médico, mas de tradutor mesmo. Diariamente, em consultório ou nas redes, eu preciso conseguir expor conceitos complexos que demandam muita leitura prévia de uma maneira mais fácil e absorvível. Não é um bicho de sete cabeças quando você vive sua vida dentro de vários contextos e realidades diferentes, que é o meu caso. É mais difícil pra médico que só convive com médico, engenheiro que só convive com engenheiro, DJ que só convive com DJ, né?

Tem alguma coisa que você mudou de ideia depois de pesquisar profundamente sobre ela?
Que filtro de cigarro ajuda, quando, na realidade, ele mais atrapalha e faz a fumaça entrar mais profundamente, hahahaha. E que as coisas viciam logo de cara. Antes de entrar em contato com pautas envolvendo a dependência química, eu, como todos, tinha a impressão de que tinha coisa que não se podia nem interagir, que não tinha volta. Estudando que isso não existe, e praticando, aliás, hahahaha, dependência, abuso e uso recreativo são conceitos completamente diferentes, e a gente mistura muito as coisas, né?

Você usa humor para falar de assuntos que costumam chegar acompanhados de vergonha, medo ou julgamento. Como sabe quando uma piada abre uma conversa e quando ela fecha?
Testando, hahaha. Humor é muito delicado, tal como os assuntos que abordo, e, além disso, em comum, existe o fato de que sexo, drogas e humor só se aprendem limites encostando, vivenciando. Dessa forma, o que eu tenho como premissa é uma abertura com o público para receber críticas, desde que fundamentadas, a respeito do que eu faço piada e explico. O problema não é errar em si, mas não assumir isso e não se abrir pra dialogar, aprender e discutir. Assim, o humor, mesmo fechando uma conversa, vai abrir uma nova, bem esclarecedora.

Você já recebeu milhares de perguntas que as pessoas não teriam coragem de fazer em voz alta. Existe algum tipo de pergunta que mudou a maneira como você enxerga quem está do outro lado da tela?
Com certeza. A gente sempre espera determinadas perguntas de determinadas pessoas, né? Mas me surpreendi quando me deparei com pessoas completamente fora da minha bolha ou até esteticamente diferentes do estereótipo do uso de substâncias ou de uma vida sexual “mais ativa” fazendo as mais variadas perguntas. Essa pluralidade que é legal. No fim do dia, todo mundo quer fuder e quer se passar, e tá tudo bem. 🙂

O Sento Mesmo começou como uma maneira de responder coisas que ninguém explicava direito. O que hoje você gostaria de conseguir explicar melhor, mas ainda não encontrou a linguagem certa?
Nossa, acho que tem muita coisa. Acho que uma coisa que, independente do quanto eu estudar, debruçar e focar, eu nunca vou conseguir explicar totalmente é o amor e o tesão. Por mais clichê que isso pareça, é um sentimento que cruza tantas fronteiras conceituais que explicar isso por A+B é bem difícil. Talvez a inteligência artificial um dia responda pra gente, ou a música, como sempre tentou.

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