
Ana Hikari fala sobre emprestar o corpo a outras vidas, suspender julgamentos e as músicas que ajudam a chegar a lugares que a própria atriz ainda não conhece.
Antes de uma personagem aparecer em cena, Ana Hikari precisa descobrir como aquela pessoa ocupa o mundo. Para viver Duda, de Emergência 53, ela aprendeu a dirigir ambulância, estudou mecânica e entrou em uma rotina que não fazia parte da sua vida. A atuação, para ela, permite experimentar por alguns instantes vidas que nunca escolheria viver.
Ana encontrou uma imagem precisa para explicar esse processo. Seu corpo é um Airbnb. Quando a entrega é parcial, a personagem aluga um quarto. Quando a atriz se entrega inteira, ocupa o apartamento todo. A música também entra nesse processo. Há faixas que Ana leva para determinadas cenas porque sabe que conseguem fazê-la chegar a lugares emocionais específicos. Gal Costa e Jotapê estão entre elas. Não para explicar uma personagem, mas para abrir uma porta. A empatia aparece como outro instrumento de trabalho. Para interpretar alguém, Ana precisa suspender o julgamento e tentar entender a lógica daquela pessoa. É um exercício que ela também leva para fora da cena.
Na conversa com o deepbeep, Ana Hikari fala sobre viver outras vidas, deixar personagens ocuparem o corpo e descobrir o que a atuação pode ensinar sobre as pessoas. Na playlist “Mudei de Ideia”, ela reúne músicas ligadas a momentos em que mudou sua maneira de pensar, sentir ou enxergar o mundo.
Por Claudio Thorne, social media
Com supervisão de Lísias Paiva, criador e editor
Existe alguma conversa que você nunca teria vivido se não fosse atriz e que hoje faz parte de quem você é?
Ser atriz me deu a possibilidade de viver mundos e escolhas que eu jamais faria na minha vida. Eu, por exemplo, jamais trabalharia na área de saúde ou coisas relacionadas com atendimentos médicos, e agora estou estreando a série Emergência 53, dirigindo ambulância em alta velocidade, entendendo de mecânica e fazendo atendimentos médicos de urgência. A atuação me dá a possibilidade de viver por alguns instantes vidas que eu jamais viveria.
Existe alguma música que continua sabendo exatamente onde encontrar você?
Tem algumas músicas que eu uso muito pra me acessar em cenas mais tocantes, estão sempre nas minhas playlists de personagens: Assim Preto — versão ao vivo da Gal Costa — e Ouro Marrom — Jotapê. São duas músicas que sempre me emocionam e me ajudam a acessar sentimentos profundos conectados à cena.
Como você percebe que o personagem para de parecer um personagem?
Eu tenho uma analogia de que atuar, pra mim, é como alugar meu próprio Airbnb, que é o meu corpo. Se eu não estou totalmente entregue, é como se eu estivesse alugando só um quarto pra personagem. Se eu estou entregue, a personagem alugou o apartamento inteiro e se torna viva, vivendo por completo a experiência de viver naquela casa que é o meu corpo.
Existe alguma pergunta que você gostaria que as pessoas fizessem mais antes de tirar uma conclusão sobre alguém?
Se as pessoas se colocassem mais empaticamente na pele do outro, talvez elas conseguissem entender mais a lógica do outro e julgar menos. Isso é o que eu preciso fazer como atriz: ter empatia é a maior qualidade que uma atriz pode ter pra não julgar a personagem que está fazendo. E eu tento levar essa qualidade pra vida.
Quando um trabalho termina, o que faz você perceber que ele ainda não terminou dentro de você?
Nos últimos anos, felizmente, eu tenho emendado um trabalho atrás do outro. Por isso, não tenho tido muito tempo de não encerrar os trabalhos, porque logo vem outra personagem pra ser cultivada dentro de mim. Então, basicamente, eu tenho encerrado um trabalho me dedicando completamente ao próximo. É uma delícia manter um ritmo assim, mas sinto que nosso trabalho de atuação merece um reset diário. Tento sempre ter um dia ou algumas horas de atividades que sejam só pra mim, principalmente atividades físicas, como andar de bicicleta, malhar, yoga etc.
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Fotos por Maria Magalhães
Agradecimentos à Isabella Ventura, da Vira Comunicação
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