Nídia Aranha e as imagens que decidiram quem podia existir

Retrato da artista visual, diretora criativa e pesquisadora Nídia Aranha para entrevista do deepbeep sobre imagem, corpo, imaginário e direção de arte.

Artista visual, diretora criativa e pesquisadora, Nídia Aranha investiga quem produz as imagens que organizam uma sociedade e quais corpos elas escolhem representar.

Durante décadas, um número pequeno de pessoas decidiu quais imagens representariam beleza, sucesso, felicidade, desejo e até o próprio Brasil. Essas escolhas nunca foram apenas estéticas. Elas ajudaram a definir quais corpos apareceriam, quais histórias seriam contadas e quais formas de existir pareceriam naturais para milhões de pessoas.

É nesse território que Nídia Aranha trabalha há anos. Artista visual, diretora criativa e pesquisadora, participou da construção de alguns dos universos visuais mais marcantes da música brasileira recente, incluindo Equilibrivm, de Anitta. Mas seu trabalho nunca foi apenas criar imagens. Sempre foi investigar quem produz essas imagens, quais imaginários elas constroem e quais possibilidades de existência elas autorizam.

Na conversa com o deepbeep, Nídia mostra que a direção de arte nunca foi apenas uma questão de estética. Fala do corpo como linguagem, da imagem como produtora de comportamento e da responsabilidade de criar sem tentar controlar aquilo que o tempo decidirá preservar. Uma conversa que muda menos a forma de olhar para fotografias do que a forma de olhar para aquilo que aprendemos a considerar normal.

A playlist “Imagens que Tocam” reúne músicas que reorganizaram seu imaginário e mudaram a maneira como ela passou a olhar para corpos, cidades, memórias e ideias.

Lísias Paiva, criador e editor

Nídia, quando uma imagem deixa de ilustrar uma ideia e passa a mudar a forma como a gente enxerga o mundo?
Eu desconfio um pouco da ideia de que exista um momento exato em que uma imagem deixa de ilustrar uma ideia e passa a mudar a forma como enxergamos o mundo. Como se houvesse uma linha muito clara a ser atravessada. Acho que os processos que sustentam uma imagem ao longo do tempo não obedecem a uma lógica de progressão tão simples.
Porque a imagem, em si, é só uma imagem. Ela carrega uma potência de atravessamento, mas essa potência não está depositada nela como uma essência. Ela nasce do encontro. Da relação entre a imagem e quem a observa. Daquilo que sobrevive no corpo de quem a recebe, atravessado por memórias, repertórios, afetos e tempos que não pertencem à própria imagem.
Para mim, imagem, significado e receptor são indissociáveis. A imagem nunca existe isolada. Ela nunca é um objeto neutro, esvaziado da percepção, da crítica ou da opinião de alguém. Mesmo quando parece superficial, já está operando um conceito. Você pode conhecer esse conceito ou não, mas ele está ali produzindo efeitos.
A grande virada acontece quando entendemos que a imagem não representa apenas o mundo. Ela participa da construção da nossa cosmovisão. Desenha, silenciosamente, um manual possível de relação com a realidade.
Eu trabalhei muitos anos com publicidade, que costumo chamar de uma escola da ficção hegemônica. Aquelas imagens eram apresentadas como se fossem um retrato do Brasil, do desejo, do sucesso, da beleza e da felicidade. Eu olhava para aquilo pensando: “Não é possível que essa seja a realidade de um país tão múltiplo”. Mas, ao mesmo tempo, percebia que, para muita gente, aquelas imagens acabavam funcionando como verdade.
Foi aí que compreendi que a imagem constrói comportamento. Ela organiza desejo, molda memória coletiva, produz imaginários e define aquilo que uma sociedade considera possível ou impossível.
Então, para mim, uma imagem muda a forma como enxergamos o mundo quando não termina no instante em que desviamos o olhar. Quando continua acontecendo dentro da gente. Quando altera a maneira como percebemos o outro, a nós mesmos e aquilo que acreditávamos ser natural.
É nesse momento que deixa de ilustrar uma ideia e passa, de fato, a deslocar a percepção.

O que uma boa direção de arte e uma boa música entendem sobre expectativa?
Antes de responder a essa pergunta, eu desconfio um pouco da própria ideia de expectativa como um lugar de chegada. Porque uma boa direção de arte e uma boa música entendem que o processo de construção não acontece para confirmar uma imagem que já existia na cabeça de alguém. Ele se inscreve no percurso, no desvio, no erro, naquilo que aparece enquanto se faz.
Não existe uma linha reta que leva exatamente ao que foi imaginado no início. Essa pretensão de controlar tudo de antemão, de garantir um resultado antes mesmo do primeiro gesto, pertence muito mais a uma lógica de mercado do que a uma lógica de criação.
A real é que a gente não sabe. E esse não saber não é uma falha do processo. Ele é justamente a matéria-prima dele.
Acho que a direção de arte e a música compartilham isso. Elas vão se construindo enquanto acontecem. Escutam o que aparece no caminho. Às vezes, o melhor gesto nasce de um erro, de um acidente, de uma mudança de rota. Criar, para mim, é menos impor uma ideia ao mundo e mais construir condições para que alguma coisa aconteça.
Talvez seja justamente por isso que a excelência delas nunca possa ser alcançada a partir de uma expectativa. O anseio não é um ponto de partida da arte. Quando ele existe, nasce da disponibilidade de estar dentro do processo, daquilo que o percurso revela e que antes era impossível prever. Fora dele, a expectativa é apenas uma projeção. Dentro dele, deixa de ser expectativa e passa a ser descoberta.

Você trabalha com símbolos o tempo inteiro. Existe algum que continua sendo mal interpretado porque quase ninguém aprendeu a olhar para ele?
Meu corpo.

Qual descoberta mudou mais o seu olhar do que o seu trabalho?
Porque, para mim, isso nunca foi uma questão de profissão. É uma questão de vocação. É o jeito como a minha mente organiza o mundo. É o meu modo de existir.
Quando o corpo vira campo de criação, você percebe que ele não é só um suporte onde a obra acontece. Ele é o veículo. É o principal dispositivo por meio do qual percebo o mundo.
Então desenhar o próprio corpo deixa de ser vaidade e vira um projeto de autonomia estética e ontológica. É tensionar todos aqueles protocolos históricos, sociais e simbólicos que, durante muito tempo, tentaram determinar quem podia existir, como existir e quais imagens esse corpo podia produzir.
Essa foi a descoberta que mais transformou o meu olhar. Não porque aprendi uma técnica nova, mas porque entendi que o meu corpo, com todas as especificidades que ele carrega, é, ao mesmo tempo, a operação, o sujeito e o objeto do meu trabalho. O criador e a criatura.

Como perceber quando uma imagem está apenas chamando a atenção e quando ela realmente permanece?
Eu acho muito pretensioso acreditar que estamos fazendo alguma coisa eterna.
Quem inscreve essa permanência é o tempo. Só ele consegue distinguir o que foi um deslocamento estético daquele momento e o que, de fato, desenhou uma linha na cartografia do imaginário e continuou atravessando outras pessoas.
No calor do processo, você não tem como saber. É como tentar distinguir a direção da brisa no miolo de um furacão. Você está tão dentro da experiência que não existe distância suficiente para medir o que vai permanecer.
Nem acho saudável trazer essa expectativa do eterno para dentro da criação. Quando você começa a produzir tentando adivinhar o que vai ser relevante ou permanente, reduz as possibilidades do próprio trabalho. A imagem deixa de responder ao processo e passa a responder a uma projeção.
Eu acredito que o que permanece é aquilo que consegue se imprimir no espírito do seu tempo. Às vezes, até em contrafluxo, mas nunca apesar dele. Existe uma espécie de escuta do presente, de perceber os sinais que estão no ar antes mesmo de ganharem nome. Poucas pessoas têm o radar afinado para esse sopro da inconsciência coletiva.
No fim, a permanência nunca é uma decisão do artista. É uma atribuição do tempo. O nosso trabalho é fazer imagens honestas o suficiente para o presente. Se elas vão atravessar as próximas gerações, isso já não pertence mais a nós. Talvez seja justamente essa impossibilidade de controlar o futuro que permita que uma imagem sobreviva. Criar mirando na permanência ou na relevância mata justamente aquilo que poderia fazê-la sobreviver.

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Agradecimentos ao Vinicius Jorge da MKT Mix pela conexão

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Nídia Aranha reuniu canções que reorganizaram seu imaginário e alteraram sua percepção sobre corpo, cidade, memória e identidade. Uma seleção que lembra que a música também participa da construção das imagens com que aprendemos a enxergar o mundo.

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