Erika Palomino e o choque do novo

Retrato da jornalista, editora e diretora criativa Erika Palomino para entrevista do deepbeep sobre Babado Forte, cultura clubber, música e comportamento.

Jornalista, editora, diretora criativa e autora de Babado Forte, Erika Palomino fala sobre o instante em que uma ideia deixa de parecer estranha e começa a mudar a cultura.

Durante mais de três décadas, Erika Palomino ajudou a registrar transformações que ainda não eram percebidas como transformações. Jornalista, editora e diretora criativa, acompanhou de perto o nascimento de cenas que mudaram a música, a moda e o comportamento no Brasil. Esse percurso ganhou sua expressão mais conhecida em Babado Forte, livro que se tornou uma das principais referências para compreender como pistas de dança, festas, ruas e movimentos underground antecipam mudanças que mais tarde chegam ao centro da cultura.

Em vez de olhar para trás, Erika prefere observar o que ainda está nascendo. Na conversa com o deepbeep, fala da intuição que antecede qualquer tendência, do “choque do novo” provocado por uma música que não se parece com nenhuma outra e das linguagens que continuam surgindo nas periferias, no underground e nas formas de sobrevivência que reinventam a cultura antes de chegarem ao centro.

A playlist “Antes do Nome” acompanha essa conversa. Uma seleção de músicas que anunciaram mudanças antes que elas fossem compreendidas, reunindo faixas que abriram caminhos, criaram linguagem e transformaram comportamentos.

Lísias Paiva, criador e editor
Com a colaboração de Claudio Thorne, social media

Você já chegou cedo demais em muitas histórias. Como percebe que alguma coisa realmente começou?
Antes de tudo, pela mais pura intuição. O frio na barriga mesmo, a emoção. Ficar atenta aos pequenos sinais ajuda bastante. Treinar o olhar e os sentidos. O novo sempre me instigou, em qualquer área, e meu trabalho sempre foi muito sobre isso.

Tem música que muda uma pista. Tem música que muda uma geração. Como você percebe a diferença?
Há que se seguir o zeitgeist, o tal espírito do tempo. Algumas coisas são feitas com tanta verdade que transcendem o cotidiano e a repetição. Há também certa determinação em fazer algo novo. E existe uma grande diferença quando a gente ouve uma coisa que não se parece com nada do que já ouvimos antes. Esse “choque do novo” é que é revolucionário. Tem a ver com energia também. Eu sinto.

Quem continua ensinando você a olhar diferente?
As manifestações que vêm do underground, das periferias, que nascem das tecnologias de sobrevivência, de quem hackeia os sistemas de forma política mesmo.

Como você percebe que vale a pena apostar numa ideia que ainda parece estranha para quase todo mundo?
Sempre vale. Mesmo que não dê em nada lá na frente.

Você sempre escreveu sobre o que estava nascendo. O que ainda faz você parar e pensar “isso eu nunca vi”?
Fico muito impressionada com os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e seus atravessamentos com a música, com a cultura negra e periférica, com deslumbramentos estéticos e sonoros, com uma criatividade para além de qualquer fronteira. A cada ano, esse universo traz alguma novidade. O corpo brasileiro que se expressa por meio da cultura Ballroom também segue me comovendo, com interpretações à nossa moda dessa linguagem que hoje é universal.

O que você gostaria que as pessoas voltassem a fazer pela primeira vez?
Beijar na boca.

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Um cult do jornalismo e um ícone da pesquisa sobre a vida noturna urbana, Babado Forte, ou BBD FRT, de Erika Palomino, ganhou uma edição ampliada e atualizada na comemoração dos 25 anos de sua primeira publicação e para rever o que aconteceu com aquelas personagens e manifestações mapeadas pela autora. Enquanto a obra original reunia mais de cem relatos e entrevistas sobre a cena clubber nos anos 1990, focalizando o eixo Rio-São Paulo, a nova edição traz mais de 70% de conteúdo inédito, cobrindo também experiências mais recentes de capitais como São Luís, Belém, Recife e Salvador para expandir a discussão sobre moda, música e noite no Brasil. 

Adquira o livro no site da Ubu Editora

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