Rodrigo Alarcon observa o instante em que o amor muda de lugar

Retrato do cantor e compositor Rodrigo Alarcon para entrevista do deepbeep sobre amor, música e composição.

Rodrigo Alarcon escreve sobre pequenas mudanças de percepção que acabam transformando completamente uma relação.

Toda relação muda antes de alguém perceber. Primeiro, uma música ganha outro significado. Depois aparece a vontade de dividir uma notícia, uma rua, uma paisagem com uma única pessoa. O cotidiano muda de lugar muito antes de qualquer declaração.

É nesse território que Rodrigo Alarcon construiu uma das obras mais particulares da música brasileira recente. Suas canções raramente dependem de grandes acontecimentos. Elas observam pequenas mudanças de atenção capazes de reorganizar uma relação inteira. Um gesto, uma frase, uma espera ou um silêncio passam a dizer muito mais do que qualquer discurso apaixonado.

Na entrevista ao deepbeep, Rodrigo fala sobre composição, imperfeição e sobre a capacidade que a música tem de organizar sentimentos antes mesmo que eles consigam virar conversa. Suas respostas ajudam a entender por que tantas pessoas encontram suas próprias histórias nas canções dele. A playlist “O Amor Mora nos Detalhes” acompanha esse percurso com músicas que revelam relações sendo construídas sem fazer barulho.

Lísias Paiva, criador e editor

Suas músicas costumam falar de amor, mas quase nunca do amor idealizado que resolve tudo. Em que momento você percebeu que as relações eram mais interessantes do que as versões românticas?
Sempre gostei das músicas que me faziam perceber em mim aquilo que eu mesmo ainda não tinha elaborado. As grandes canções de amor da música brasileira são justamente as que apresentam uma nova perspectiva sobre um tema já infinitamente retratado. Os amores não são regulares, assim como o amor não é a ideia de amor. Eles se constroem e se sustentam nas situações reais do cotidiano. É ali que a poesia mora. O quase amor, o amor proibido, o amor que deu certo até deixar de dar… Todos pertencem à experiência humana. Por isso essas músicas continuam vivas.

Existem sentimentos que parecem confusos na vida real, mas ficam extremamente claros quando viram música. O que a canção consegue organizar que a conversa quase nunca consegue?
É da imperfeição humana que o amor nasce e, muitas vezes, termina. É nessa mesma imperfeição que a gente se reconhece quando escuta uma letra capaz de traduzir aquilo que ainda não sabia dizer. Já pensei muitas vezes: “Não é possível que essa pessoa tenha escrito exatamente o que estou vivendo.” Acho que é no encontro entre a palavra certa e a melodia que muitos sentimentos finalmente encontram forma. Inclusive para quem escreve.

Qual é o comportamento mais comum de quem já percebeu que está gostando de alguém, mas ainda não admitiu isso nem para si?
Mentir para si mesmo. Quando aquela música que você já ouviu dezenas de vezes começa a bater diferente e você tenta se convencer de que não significa nada, talvez já signifique.

Grande parte das suas músicas observa pequenas situações que normalmente passariam despercebidas. O que os detalhes revelam sobre alguém antes das grandes declarações?
Existe um momento em que você percebe que ama tudo o que envolve aquela pessoa. A forma como ela pronuncia algumas palavras. O jeito de andar. O toque. A maneira como enxerga o mundo. E tudo o que você vê desperta vontade de compartilhar justamente com ela. Quando isso acontece, a declaração já começou.

Existe alguma mentira sobre o amor que continua sedutora justamente porque é difícil abandonar?
Os clichês continuam muito sedutores. A ideia de viver um romance de cinema e encontrar um “felizes para sempre” ainda acompanha muita gente. Mas a vida ensina outra coisa. Que quebrar a cara faz parte de amar.

Acompanhe o trabalho de Rodrigo Alarcon
Rodrigo Alarcon no Instagram
Rodrigo Alarcon no TikTok
Rodrigo Alarcon no YouTube

Fotos por Fernanda Tiné

Agradecimentos à Larissa Martin da Omim Comunicação

Ouça a playlist de Rodrigo Alarcon no seu player preferido


.

A música organiza mais coisas do que parece. Toda semana, novas entrevistas, playlists e conversas sobre cultura, comportamento e o mundo que existe ao redor do som. Assine a newsletter do deepbeep no Substack.

Para projetos, parcerias e curadoria cultural: falecom@deepbeep.com.br

Ouça também