
Guilherme Weber mostra por que algumas obras continuam produzindo imagens, silêncio e perguntas muito depois da última nota.
Algumas obras terminam quando a última nota desaparece. Outras continuam ressoando. Guilherme Weber conhece bem esse intervalo. Um videoclipe permanece vivo mesmo sem som. Uma montagem teatral transforma para sempre a maneira de escutar uma música. O silêncio passa a fazer parte da obra. Uma cena delicada encontra um punk rock. Uma sequência violenta ganha outra dimensão ao lado de Mahler. A arte continua trabalhando justamente quando deixa de oferecer respostas óbvias.
Essa forma de olhar atravessa toda a conversa. Weber aproxima teatro, literatura, música e artes visuais para mostrar que uma obra nunca existe sozinha. Ela carrega memórias, imagens, leituras e experiências que seguem produzindo sentido muito depois do fim.
A playlist “Jantar com Vilões” prolonga essa ideia. Elegante, magnética e levemente perigosa, ela reúne músicas para noites em que charme, ironia e ambiguidade permanecem na sala mesmo depois que a conversa acaba. Na entrevista ao deepbeep, Guilherme Weber fala sobre as obras que continuam ressoando quando tudo parece ter terminado.
Marcelo Nassif, sócio editor
Guilherme, qual é a música mais visual que você conhece? Aquela que, quando começa, já projeta um filme inteiro na cabeça?
A música mais visual que eu conheço, e que tem um sentido visual muito particular para mim, é Losing My Religion, do R.E.M., do álbum Out of Time. Talvez seja a minha música favorita, se eu tivesse que responder rapidamente. Ela me marcou muito. Tocava bastante no rádio no início dos anos 1990, justamente quando eu estava entrando na juventude, ali pelos 17, 18, 19 anos, vivendo os primeiros amores platônicos e as paixões não correspondidas. Quando ela começa, vem um filme pessoal de paixões, pistas de dança e começo da vida. Tudo isso é atravessado pelo videoclipe, que ficou muito forte na memória. Para quem viveu aquele período, é impossível não lembrar do Michael Stipe como um anjo caído, daquela casa abandonada, meio Caravaggio, meio Michelangelo.
Outra música é O Fortuna, da Carmina Burana, de Carl Orff. Ela me leva imediatamente para imagens muito fortes, talvez porque tenha assistido, em Curitiba, a uma montagem extraordinária de As Bruxas de Salem, de Arthur Miller, que usava essa música quando ela ainda não tinha se tornado uma trilha tão popular. Até hoje, quando escuto O Fortuna, vejo mulheres na fogueira, pessoas sendo sacrificadas, multidões carregando tochas. É uma sucessão de imagens muito bonitas e muito intensas.
Hoje muita gente usa a estética de uma cena sem ouvir a música que criou aquela cena. O que se perde quando o som desaparece e só resta a imagem?
Acho que, se a música criou uma imagem, ela cumpriu uma das suas funções. Não acredito que alguma coisa se perca. O som continua vibrando naquela imagem de uma forma quase metafísica. Se você assistir ao clipe de Losing My Religion sem áudio, a música ainda está lá. Foi ela que construiu aquele universo. O silêncio também pode estar carregado de música. Isso me lembra um locutor de uma rádio de música clássica que, depois de apresentar uma sinfonia de Mozart, disse: “Acabamos de ouvir a Sinfonia nº… de Wolfgang Amadeus Mozart. O silêncio que se seguiu a ela também é uma criação de Mozart.” Acho essa ideia lindíssima.
Seu trabalho sempre parece procurar beleza em algum nível de estranhamento, excesso ou ruído. O que deixa uma trilha viva para você?
O que deixa uma trilha realmente viva para mim é uma certa dissonância entre música e imagem. Gosto quando existe uma imagem muito delicada e está tocando punk rock. Ou quando uma cena fortíssima, quase caótica, é acompanhada por Gustav Mahler ou Claude Debussy. Essa fricção entre som e imagem é profundamente sedutora para mim.
A internet acelerou tanto o consumo de imagem que, às vezes, parece impossível olhar para alguma coisa por tempo suficiente. O que ainda consegue prender sua atenção de verdade?
A literatura. O livro. Ele exige presença, compromisso e dedicação. Sempre fui um leitor voraz. Hoje, o livro talvez seja o grande antídoto para esse tempo acelerado. Quando entro no metrô e vejo alguém lendo, sinto que aquela pessoa está caminhando na direção oposta da velocidade. Existe alguma coisa de profundamente bonita, lírica e revolucionária nessa escolha.
Você transita entre teatro, música, moda e artes visuais sem parecer totalmente confortável em nenhum lugar específico. O que ainda faz você se sentir fora de contexto?
Na verdade, eu não concordo com essa percepção. Eu me sinto confortável em todos esses lugares. Não porque domine todos eles, mas porque o teatro consegue reunir tudo isso. Para mim, o teatro é a obra de arte total. É onde música, dramaturgia, figurino, cenografia e artes visuais encontram um espaço comum. Cada linguagem pode existir plenamente dentro de um espetáculo. O que realmente me deixa fora de contexto são outras coisas. O preconceito. O pensamento medieval. Os retrocessos políticos. A censura nas redes sociais. A cultura do julgamento permanente. A pós-verdade. Tudo isso produz em mim um estranhamento muito profundo. É um contexto ao qual eu definitivamente não pertenço.
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Fotos por Ariel Cavotti e Sergio Baia
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Elegância nunca foi sinônimo de inocência. Guilherme Weber reuniu músicas para noites em que sedução, ironia e mistério continuam ressoando depois da última taça.
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