
Criada entre Egito, França e Dinamarca, Ashibah transformou a pista de dança em um lugar para observar presença, pertencimento e as formas mais espontâneas de convivência.
Ashibah passa boa parte da vida observando pessoas que provavelmente nunca vai conhecer. É assim que ela trabalha. Antes de cada transição, antes de cada mudança de energia e antes de decidir qual será a próxima música, existe uma pista inteira dizendo coisas que ninguém verbalizou. Corpos, olhares, silêncios, pequenos gestos e uma energia coletiva que dificilmente caberia numa conversa. Por isso, suas respostas falam tão pouco sobre técnica e tanto sobre presença.
Para Ashibah, a pista nunca foi apenas entretenimento. Ela continua sendo um dos poucos lugares onde desconhecidos compartilham emoções sem precisar explicar nada. Um espaço onde as pessoas deixam de representar versões de si mesmas e, por algumas horas, simplesmente existem.
A playlist “Quando a Noite Revela Alguma Coisa” amplia essa ideia. Entre Sade, Massive Attack, Jamie xx, Lane 8, Faithless, Frankie Knuckles e The Blaze, uma seleção construída por Ashibah para encontros improváveis, cidades desconhecidas, amanheceres inesperados e momentos em que a música parece entender alguma coisa sobre as pessoas antes delas mesmas. Na entrevista ao deepbeep, Ashibah fala sobre comunidade, memória e sobre aquilo que só aparece quando ninguém mais está preocupado em ser visto.
Marcelo Nassif, sócio-editor
Ashibah, existe diferença entre o que as pessoas dizem que procuram quando saem para dançar e o que elas realmente estão buscando?
Acho que sim. As pessoas podem dizer que estão procurando uma festa, uma noite divertida ou simplesmente boa música. Mas, lá no fundo, acredito que muitas de nós estão procurando algo muito mais difícil de explicar. Conexão. Alívio. Pertencimento. Talvez até uma forma de voltar a sentir o próprio corpo com mais presença.
Também acho que as pessoas procuram comunidade. Um espaço onde possam ser quem são, se divertir, relaxar e se sentir livres, sem medo de julgamento. A dança dá permissão para sentir coisas que não precisam ser explicadas. Muitas vezes, aquilo que realmente estamos procurando só aparece quando a gente para de tentar definir.
O que você consegue perceber em uma pista de dança nos primeiros cinco minutos que normalmente levaria horas para descobrir numa conversa?
A energia. Ela aparece quase imediatamente. Dá para perceber quando é boa, quando não é, quando as pessoas realmente estão conectadas e quando estão vivendo aquele momento de um jeito verdadeiro. As palavras conseguem esconder muita coisa. A energia, quase nunca. Você sente quando as pessoas estão abertas, presentes e compartilhando a mesma experiência. Também percebe quando cada um está vivendo a própria bolha. Em poucos minutos fica claro quando uma pista está pronta para se entregar à música. E, geralmente, é nesse momento que as conexões mais fortes acontecem.
Uma pista de dança reúne pessoas desconhecidas durante algumas horas e depois desaparece. O que faz uma experiência coletiva continuar existindo na memória?
Acho que as lembranças permanecem quando sentimos alguma coisa de verdade. Não porque tudo foi perfeito, mas porque, durante algum tempo, todo mundo compartilhou a mesma emoção. A música tem essa capacidade bonita de sincronizar pessoas sem que elas percebam. Uma sala cheia de desconhecidos pode virar uma comunidade durante algumas horas. Depois cada um volta para a própria vida, mas leva aquela sensação consigo. Talvez seja por isso que algumas noites permanecem com a gente para sempre. Elas lembram que somos menos sozinhos do que costumamos imaginar.
O que as pessoas revelam sobre si mesmas quando acreditam que ninguém está olhando?
Acho que é justamente aí que elas ficam mais bonitas. Quando esquecem de representar. É quando aparecem a delicadeza, a alegria, a vulnerabilidade, o ridículo, a liberdade. Surgem partes das pessoas que não precisam da aprovação de ninguém. Um dos momentos de que mais gosto enquanto estou tocando é ver alguém dançando de olhos fechados, completamente mergulhado na música, sem fazer ideia de que está sendo observado. Esses momentos me parecem profundamente humanos. Eles lembram que a autenticidade costuma aparecer quando a gente para de tentar ser visto.
Hoje quase tudo precisa ser registrado. O que só consegue acontecer quando ninguém está tentando transformar o momento em conteúdo?
Presença. Acho que algumas experiências perdem parte da magia no instante em que começamos a pensar em como elas vão parecer para quem está de fora. Existe uma intimidade que só acontece quando ninguém está tentando registrar nada. Uma pista de dança vira quase um lugar sagrado quando as pessoas param de se observar e simplesmente desaparecem dentro do momento. Nem toda experiência bonita precisa de uma prova de que aconteceu. Às vezes, as lembranças mais importantes são justamente aquelas que continuam existindo apenas dentro das pessoas que viveram aquele instante.
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Agradecimentos à Yasmin Bianco da Assessoria Bianco
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