Jenni Mosello e a música antes da compreensão

Jenni Mosello em entrevista e playlist para o deepbeep sobre composição, identidade, transformação e música.

Entre jazz, pop, samba, ópera e composição, Jenni Mosello transformou influências em linguagem própria. A música continua chegando antes da explicação.

Jenni Mosello passou anos tentando descobrir onde terminavam as referências e começava a própria voz. A resposta nunca veio pela escolha de um único caminho. Criada entre Brasil e Itália, formada em Psicologia, cantora, compositora e autora de músicas gravadas por diferentes artistas, ela atravessou jazz, ópera, samba, pop e composição até perceber que a identidade não nasce da eliminação das diferenças. Nasce da convivência entre elas. O álbum BRava marca esse encontro.

Pela primeira vez, essas influências deixam de disputar espaço e passam a formar uma linguagem. É justamente desse lugar que nasce uma das ideias mais bonitas da conversa. Para Jenni, a música costuma perceber mudanças antes da consciência. Ela chega como um recado, um sonho ou uma intuição. Só mais tarde a gente encontra palavras para explicar o que já estava acontecendo por dentro.

A playlist A Nota Azul amplia essa experiência. Inspirada no conceito desenvolvido pelo psicanalista Alain Didier-Weill, ela reúne músicas para momentos em que emoção e escuta chegam antes da compreensão. Na entrevista ao deepbeep, Jenni Mosello fala sobre identidade, composição e sobre a música como uma linguagem que continua entendendo primeiro.

Lísias Paiva, criador e editor

Jenni, você cresceu entre Brasil e Itália, jazz, ópera, pop, samba e depois entrou num mercado que costuma transformar identidade em produto muito rápido. Em que momento uma influência deixa de ser referência e vira linguagem própria?
Eu adorei a pergunta. Acho que o meu disco fala muito sobre isso, na verdade. Eu comecei no jazz porque entendia aquele universo. Eu tinha uma banda de jazz, foi a primeira vez que subi num palco e a primeira experiência que tive cantando para outras pessoas. Era um universo familiar e confortável para mim. Então, eu entendia aquilo como meu e acreditava que aquilo era eu. Mas existe uma diferença enorme entre o que é meu e quem eu sou. Muitas coisas são minhas. O jazz, o samba, o pop e a ópera fazem parte da minha maneira de entender música. Mas eu sou, de fato, a soma de tudo isso. Acho que a minha linguagem se transforma e vira minha identidade a partir do momento em que eu compreendo essa soma. O BRava é justamente esse momento. Passei por várias camadas, gêneros e experimentações para entender que não sou uma divisão dos fatores. Não sou isso ou aquilo. Sou isso e tudo isso. O álbum representa exatamente esse ponto de encontro entre identidade, entendimento e pertencimento de todas essas partes que formam a minha obra.

Tem coisas que a gente só consegue entender sobre si depois de escutar a própria música algum tempo mais tarde. O que a canção costuma perceber antes da pessoa?
Essa pergunta também é superinteressante. Inclusive, eu costumo dizer que fazer música é quase uma sessão de psicografia, porque eu acabo falando comigo mesma através da música sem perceber. É sempre algum recado que eu precisava ouvir e que chega por meio da letra e da melodia. Eu procuro deixar a música falar. Não me imponho limites, não me julgo. Apenas deixo acontecer. E ela quase sempre aparece como um recado para me fazer refletir sobre coisas que eu precisava ouvir e sobre assuntos delicados que ainda não tinham encontrado espaço. Falo muito de psicologia e psicanálise porque, para mim, as músicas funcionam quase como sonhos. Elas chegam para transmitir uma mensagem e ver se a gente consegue compreendê-la, tornando a vida um pouco mais fácil. Por mais difícil que isso seja, é exatamente o que eu gostaria que as pessoas encontrassem nas minhas músicas. É claro que eu interpreto minhas canções a partir do recado que recebi, mas cada pessoa escuta de um jeito diferente. Espero que, de alguma forma, elas consigam atravessar julgamentos e limites para provocar reflexões capazes de tornar a vida de quem escuta um pouquinho mais leve.

Você escreve para artistas muito diferentes entre si e, ao mesmo tempo, mantém um universo autoral bastante pessoal. O que muda quando você escreve para alguém e o que continua inevitavelmente seu?
Quando componho para mim, não imponho nenhum tipo de limite. Apenas deixo a música acontecer da maneira como ela precisa acontecer, porque já estou dentro do meu próprio universo. Minha cabeça é minha. Não preciso construir um mundo para conseguir falar dela.
Quando vou visitar o universo de outro artista, preciso criar algumas barreiras e assumir características que não são necessariamente minhas para conseguir escrever a partir da perspectiva daquela pessoa. Toda sessão de composição comigo começa quase como uma sessão de terapia. A gente senta, conversa sobre a vida, fofoca, fala de tudo o que for necessário para que eu consiga entender aquele universo. Só então começo a escrever uma música que faça sentido para aquela pessoa, com a linguagem e as palavras dela. Essa é a principal diferença entre compor para mim e compor para outra pessoa. Eu procuro não misturar esses mundos.
Depois que encontrei minha própria linguagem, ficou muito difícil levá-la automaticamente para outros artistas, a não ser quando essa mistura faz parte da proposta. Na maior parte das vezes, gosto mesmo de manter essas fronteiras bem definidas.

Hoje existe uma pressão enorme para que todo artista pareça completamente definido o tempo inteiro. O que a mudança de versão ainda permite descobrir numa pessoa?
A mudança é um processo natural de qualquer ser humano. Lembro de uma frase da faculdade de Psicologia que ficou comigo. Estávamos falando sobre homeostase, essa busca por equilíbrio absoluto e por uma estabilidade permanente. Existe apenas uma coisa capaz de proporcionar isso: a morte. Enquanto estivermos vivos, estaremos mudando. É natural. Minha cabeça muda. Meu corpo muda. Minha idade muda. E eu quero acompanhar tudo isso sendo sincera com a minha arte.
A partir do momento em que me proponho a ser uma artista cem por cento autoral e honesta com quem me acompanha, essas mudanças também vão aparecer. E eu torço pelas mudanças dos artistas que admiro. No cinema isso parece muito natural. O público que assistiu ao primeiro Toy Story cresceu junto com aqueles personagens. Por que na música deveria ser diferente? Quero acompanhar as transformações dos meus ídolos porque isso faz parte do que significa estar vivo. Qualquer indústria que exija o contrário está pedindo que a gente seja artificial. Então que ela brinque com uma IA que não envelhece. Ser humano muda. Ser humano envelhece.

Você transita entre jazz, dark pop, composição mainstream, música autoral e processos muito íntimos. O que as pessoas perdem quando tratam contradição como falta de identidade?
Bom, o ser humano que nunca se contradisse que atire a primeira pedra. Nós somos mudança. Estamos em constante evolução. Quanto mais nos permitimos mudar e mais fluidos somos diante dessas transformações, melhores seres humanos podemos nos tornar. Minha arte é profundamente íntima. A proposta do meu trabalho é ser o mais sincera possível. Vou tropeçar. Vou acertar. Vou viver muitas versões de mim. Isso faz parte de ser humana e da minha vontade de mostrar essa humanidade para quem escuta meu trabalho. Ser artista, para mim, não é muito diferente de entrar num consultório de psicologia. Você fala sobre aquilo que precisa falar, muda algumas atitudes e tenta acertar pequenos caminhos. A diferença é que muitas dessas mudanças que as pessoas vivem em silêncio eu coloco em cima de um palco e canto sobre elas. Pretendo errar e acertar muitas outras vezes. Minha identidade é justamente tentar ser o mais humana possível. Se alguém enxergar isso como contradição, tudo bem. Cada pessoa tem sua maneira de olhar para o mundo. A minha é acreditar que evoluir, mudar e continuar em movimento também é uma forma de existir.

Qual tipo de sensibilidade o mundo tenta endurecer cedo demais?
Acho que a sensibilidade artística, de maneira geral. Quando apresentei o disco pela primeira vez, publiquei um manifesto nas redes sociais que começa com uma das primeiras coisas que percebi na terapia. Quando uma criança está muito quieta e aprontando alguma coisa, a primeira pergunta que um adulto costuma fazer é: “Está fazendo arte?”
Por que aprontar virou sinônimo de fazer arte? Por que fazer arte não pode ser entendido como algo bom? Por que se expressar artisticamente continua sendo tão estigmatizado? Tenho a impressão de que estamos perdendo sensibilidade porque vivemos num mundo em que números importam mais do que sons e máquinas começam a ocupar espaços que sempre foram humanos. Isso acaba nos afastando daquilo que realmente sentimos. Falta espaço para os sentimentos.
O mundo parece pedir que a gente sinta cada vez menos e produza cada vez mais. É frustrante perceber esse movimento, mas continuo acreditando que nosso coração pode voltar a bater pelas coisas certas. Espero que a gente recupere a capacidade de sentir o mundo como ele é, e não apenas como ele parece através de uma tela. Vivemos cercados por confortos fáceis. Acostumamo-nos a fugir dos desconfortos. A música que fiz com o Ney fala justamente sobre isso: sobre a dificuldade de encarar aquilo que incomoda e sobre o risco de nos acomodarmos. Muitas vezes, deixamos os desconfortos passarem sem enfrentá-los porque buscamos sempre o caminho mais fácil. E esse caminho acaba limitando nosso crescimento. Acho que precisamos aprender a atravessar o incômodo para continuar crescendo.

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Agradecimentos à Malu De Nigris da Perfexx Assessoria

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