Zeca Kalu acredita que invenção e origem são a mesma coisa

Zeca Kalu em entrevista e playlist para o deepbeep sobre sertão, imaginação, memória, ritual e futuros que ainda não têm forma definida.

Entre maracatus, monólitos, águas douradas e futuros imaginados, Zeca Kalu fala sobre corpo, memória e a arte de inventar mundos a partir do que já existe.

Muita gente fala do sertão como memória. Zeca Kalu parece mais interessado em tratá-lo como uma máquina de imaginação. Ao longo da conversa, pedras viram naves espaciais. Águas escondidas no interior do Ceará se transformam em tecnologia ancestral. Um cortejo de maracatu se torna demonstração de futuro. A rua deixa de ser apenas passagem para virar território de invenção coletiva.

Não existe contradição entre origem e invenção porque uma alimenta a outra. Quando fala sobre o Olho d’Água do Pajé, sobre o Maracatu Nação Tremembé, sobre o Slam da Quentura ou sobre as experiências construídas ao lado da Procurando Kalu, Zeca retorna continuamente a uma percepção. O futuro não nasce da ruptura. Ele nasce da capacidade de imaginar novas possibilidades a partir daquilo que já existe.

O corpo ocupa um lugar central nessa construção. Antes da reflexão, vem a pulsação. Antes da teoria, vem o arrepio. Antes da interpretação, vem a experiência física de estar diante de um cortejo, de um tambor ou de um encontro coletivo capaz de reorganizar o tempo por alguns instantes. Talvez por isso a memória apareça na entrevista menos como nostalgia e mais como ferramenta. Uma tecnologia capaz de projetar futuros, criar linguagens e expandir repertórios de imaginação.

A playlist “Sertão Que Ainda Não Existe” acompanha esse mesmo movimento. Reunida pelo próprio Zeca Kalu, ela atravessa Alceu Valença, Ednardo, Ave Sangria, Tetê Espíndola, Clau Aniz, Cidadão Instigado e faixas da própria Procurando Kalu. Músicas que não tratam o passado como destino, mas como matéria-prima para continuar inventando mundos.

Na conversa com o deepbeep, Zeca fala sobre corpo, ritual, memória, arte, rua e imaginação. Mas talvez a palavra que melhor organize tudo seja outra. Miragem. Não como ilusão. Como possibilidade.

Marcelo Nassif, sócio editor

Zeca, seu trabalho mistura som, corpo e imaginação de futuro sem abandonar o sertão. Em que momento você percebeu que não precisava escolher entre origem e invenção?
No momento em que brinquei nas pedras e tateei suas formas — que já estavam lá. Eu fui a pé e imaginei aquelas pedras como grandes naves. Foi quando vi o Olho d’Água do Pajé, em Aracatiaçu, Sobral, Ceará, pela primeira vez. Percebi a tecnologia da terra: água quente, água fria, no meio do sertão. Uma miragem, uma fantasia. Tudo o que há nos filmes pode existir — e existe — no sertão. O som grave de mergulhar no silêncio profundo das águas doces também me leva a perceber que o sertão é da experiência, principalmente quando o brilho do sol, no fim da tarde, banha aquela água e você descobre que, na verdade, ela é dourada.
Quando vejo o Maracatu Nação Tremembé, também em Aracatiaçu, saindo na rua — às vezes depois dos ensaios ou nas poucas vezes em que estive na rua com eles —, um maracatu com forte presença LGBTQIAPN+, afirmando a possibilidade de esses corpos estarem seguros em uma manifestação que resiste ao tempo.
Quando vejo poetas fazendo o Slam da Quentura na praça e depois ocupando aquele espaço para renovar o olhar para o mundo, fazer mais poesia, se posicionar e retomar espaço, percebo que invenção é insistência e insistir é origem.
Quando percebi que, na cidade, a brincadeira ia além do tempo — pois, em coletivo, saímos ocupando a rua —, Procurando Kalu e Toca da Matraca passaram a ser um só corpo, realizando as mais loucas invenções com o que ela, a rua, tinha para oferecer e também com o que ela negava. Aí a gente conquista.
Vendo, fazendo e sendo arte na rua, você percebe que ali mora a brincadeira. Um reisado, um boi, um maracatu, uma trupe, um poeta, um performer, um bando, uma banda precisam brincar na rua para perceber que ali o fluxo do tempo é dilatado, sem bordas, sem passado, sem futuro.
É o momento da experiência. O território da arte.

Existe uma sensação de ritual e presença física muito forte no que você faz. O que o corpo entende antes da cabeça?
Acho que o corpo está sempre entendendo tudo. Só depois, a cabeça.
Uma das coisas que mais me causa arrepios é sentir o som de tambores tocando em coletivo, principalmente quando se trata de um batuque de maracatu cearense. Tem ali presença física, tem ali um organismo se movimentando, tem uma massa sonora absurda no tempo das ondas do mar ou das ondas de um rio. Tem ali um ritual acontecendo.O que chega primeiro é uma espécie de calor na pele, seguido de um sopro causado pela batucada — um conjunto de tambores sendo tocados simultaneamente em um arranjo majestoso. Porque maracatu é de majestade, e essa majestade é ancestral.
Esse sopro é a onda desse som massivo atravessando o corpo. Ele vem pela rua, passa por você e segue. Nesse curto tempo de presenciar um cortejo de maracatu passando, o seu corpo recebe um banho de pulsação. Só depois, a cabeça.
Outra coisa que me causa arrepios é subir no palco em conjunto e sentir cada som e movimento que Rodrigo, Izma, Gegê, Briar, Rami e Felipe estão realizando. Saber do afeto que estamos colocando ali, da confiança, daquele olhar acompanhado de um sorriso quando as coisas estão ótimas ou péssimas no palco.
Tudo isso é ritual. É o coletivo fazendo a coisa se materializar. Tudo isso chega ao corpo primeiro: esquenta, arrepia, esfria, range, excita, racha, torce, expande, esgarça. Só depois, a cabeça.
O tempo do desejo, do sonho, do querer fazer, falar, cantar, tocar, gritar, dançar e performar é talvez o tempo do corpo. É o que ele entende. Só depois, a cabeça.

Você trabalha memória sem soar nostálgico. O que faz uma música apontar para frente sem romper com o que veio antes?
Pensar o passado como tecnologia para forjar futuros. Saber que o presente é o futuro de quem sonhou antes. Perceber que o passado é a memória projetada, que o futuro é a fabulação dessa memória e que o agora é a superfície onde nos desenhamos no tempo: indo, vindo, voltando, girando.
Sobre isso, Leda Maria Martins tem muito a nos propor, e gosto de entrar nessa performance de tempo e corpo para entender o tempo como uma malha, uma trama onde podemos imergir e traçar, trançar, bordar memória, história e tecnologia com a existência. A arte é um ótimo veículo para essa viagem, pois tem a invenção como combustível.
Nós inventamos com o que já temos, já vimos, ouvimos, sentimos, tocamos — ou mesmo com aquilo que imaginamos a partir do que sabemos do passado. Assim se fazem presente e futuro, com esse repertório infinito que instiga a criação constantemente. Talvez seja isso que faz uma música apontar para frente sem romper com o que veio antes: inventar nossa linguagem a partir do que nos comove no que já existe e, assim, mobilizar nossa criação para vislumbrar o que ainda não temos.
É poder transitar nessa superfície sem pontos cardeais, sem binarismos, sem normatividade. Apenas espaço em expansão. Esse é o tempo. Não dá para romper um fluxo antigo, constante e novo como o tempo.

Seu trabalho atravessa música, cena, imagem e performance. Como você percebe que uma ideia ainda não encontrou a forma certa?
Quando não faço um acordo com a forma. Quando escrevo pensando imagem. Quando performo pensando música. Quando uma cena acontece e só depois de algum tempo — talvez alguns anos — aquela cena vira música. A ideia está ali, habitando nossas cabeças, com corpo e com tudo. Tudo virando a ideia. A rua conversando, por acaso, com a ideia. As pessoas falando coisas que lembram a ideia. Tudo em um mesmo universo.
E aí você escreve, cantarola, imagina um movimento, uma ação ou visualiza alguém parado numa paisagem. Você grava um áudio, faz um vídeo, tira uma foto e manda tudo para si mesmo. Ou manda para outra pessoa. E a ideia vai tomando conta. Quando percebe, está morando no caos da ideia.
Você pode dar uma saída, tentar respirar fora da ideia. E, quando menos espera, seu corpo estremece inteiro, se entendendo no caos da ideia. Depois disso você começa a construir a estrutura da coisa. Uma coisa expandida, que é música, texto, imagem, performance, uma infinidade de possibilidades. Pois não tem forma. É uma zona constante de experimentação e realização.
Isso abre a perspectiva e faz da ideia algo sempre mutável. Algo que pode se ramificar em muitas outras ideias ou se desenvolver dentro de si mesma, criando profundidade, raiz para todos os lados.

Tem coisa no seu universo que talvez nunca seja totalmente entendida por quem olha de fora. Isso te incomoda ou faz parte da construção?
Antes de mais nada, gostaria de agradecer por esta entrevista. É muito bom poder falar deste álbum, Dançaremos Furta-Cor com Outros Mundos, e de tudo o que a Procurando Kalu pensa e realiza de uma forma aberta de pensamento.
Nós não acreditamos no que fazemos de forma piegas. Temos consciência do mundo e de onde viemos. Somos uma banda do interior do Ceará. Somos criadores obcecados. Somos corpos dissidentes em diásporas diárias. Queremos falar, contar histórias, criar mundos onde possamos expor tudo, trabalhando com a beleza, mas sem temer aquilo que pode ser estranho ou difícil. Somos estranhos. Esse universo não é particular, sabe? Faz parte da construção a possibilidade de as pessoas não entenderem totalmente essa mitologia trazida pela Procurando Kalu. Mas também faz parte do campo da curiosidade dar a oportunidade para que as pessoas entendam com os próprios corpos aquilo que estão sentindo e vivendo. O interesse da banda é que as pessoas possam fabular com o próprio repertório criativo e usar nossa obra como canal. Isso torna o trabalho mais diverso.
Temos um desejo forte de que as pessoas possam ver o que estamos vendo quando olhamos para o sertão. Para aqueles monólitos imensos. Para as águas que surgem no espaço mais seco, formando vales e transformando tudo em miragem. Ao mesmo tempo, sabemos que basta olhar para o sertão como uma criança e tudo se cria. Não é uma forma alienada de olhar para o mundo. É uma outra maneira. Um olhar com calma, cuidado, atenção e brincadeira. Um olhar que busca encontrar algo além daquilo que está sendo presenciado. Porque aí o tempo toma conta de novo. É olhar para fora do que é organizado pela vida burocrática e ser generoso com a própria experiência, para ter o que contar sobre o que viveu e poder imaginar aquilo que ainda será vivido.

Acompanhe o trabalho de Zeca Kalu
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Balbucio por Zeca Kalu
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Assista “Dançaremos Furta-Cor com Outros Mundos” com Zeca Kalu

Fotos por Nayra Maria

Agradecimentos à Iza Costa da Assessoriza

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