
Bronka passou anos construindo pistas através do impacto. A conversa mostra por que ele pensa tanto sobre permanência.
Bronka trabalha num território onde muita gente confunde intensidade com volume. Ou impacto com excesso. A impressão inicial dos seus sets costuma vir da velocidade das mudanças, dos cruzamentos improváveis e da sensação constante de que alguma coisa prestes a acontecer pode reorganizar completamente a pista.
Mas a conversa segue por outro caminho.
Em vários momentos da entrevista, Bronka fala menos sobre explosão e mais sobre controle. Menos sobre choque e mais sobre construção. Menos sobre o momento em que a pista enlouquece e mais sobre o que acontece antes disso. A intensidade aparece como consequência de uma leitura cuidadosa. Saber quando acelerar. Saber quando quebrar a lógica. Saber quando surpreender. E principalmente saber quando deixar a pista respirar.
Essa percepção atravessa toda a conversa. O impacto pode chamar atenção. A permanência exige outra coisa.
A playlist “Primeiro Impacto” amplia essa visão. Entre funk, eletrônica, rave, underground e produções próprias, Bronka reúne músicas que entram sem pedir licença e mudam completamente o clima de um ambiente. Na conversa com o deepbeep, ele fala sobre curadoria, construção de pista e sobre por que a surpresa continua sendo uma das ferramentas mais poderosas da música.
Marcelo Nassif, sócio editor
Bronka, seu som parece feito para provocar reação antes de qualquer entendimento. Em que momento você percebe que a pista já entrou mesmo sem entender o que está acontecendo?
Eu acho que sempre tem o momento em que o front fica com uma cara absurda de confuso, tipo: “O QUE É ISSOOOOO?”. Mas, ao mesmo tempo, com um semblante de quem realmente está amando. Esse tipo de reação é o que dá aquela satisfação absurda e o sentimento de que eu estou fazendo o meu trampo da forma certa, a curadoria certa para a pista certa. Isso é muito importante como DJ e curador: sempre entregar algo que cause surpresa, confusão e entusiasmo.
Você trabalha com uma mistura que não tenta ser suave nem coerente. O que te interessa mais hoje, impacto ou permanência?
Permanência sempre foi o que mais me interessou e ainda interessa. Ainda mais nessa posição entre uma pista brasileira e europeia, principalmente. Meu pensamento sempre foi que, em 5 ou 10 anos, as pessoas olhem para trás e falem: “Pô, o Bronka já estava fazendo isso lá em 2026”. Acho que deixar uma estrada bem construída com música eletrônica brasileira, que alcance pistas fora do Brasil, para outros poderem andar nessa mesma estrada depois, sempre foi a ideia principal do projeto. E continua sendo.
Existe uma linha entre intensidade e saturação. Como você percebe quando está no limite e quando já passou dele?
Eu tenho a impressão de que tem muita gente que pula corda com essa linha praticamente todo dia. Eu sou do tipo de pessoa que gosta de deixar o set respirar no meio. Às vezes, dar uma baixada na intensidade na hora certa é o que faz o que vem depois bater bem mais. É fácil perceber se uma pista está cansada ou não. Uma olhada em volta é o suficiente. Às vezes, muitos DJs acabam seguindo a lógica de que o set inteiro tem que ser highlight. E não é assim que as coisas funcionam. Tocar uma track ou outra só pelo hype do momento acaba tomando espaço que você poderia usar para mostrar versatilidade e inteligência como DJ e curador. O difícil, às vezes, é ter que entregar depois que alguém cansou bastante a pista. Aí dale um intro de um minuto e meio para deixar todo mundo respirar antes de começar de novo.
Tem muita gente tentando soar agressiva hoje, mas ainda dentro de um padrão. O que, para você, ainda soa realmente fora?
É bem difícil falar o que soa fora da caixa e agressivo ao mesmo tempo, mas eu acredito que tudo acaba sendo contexto. A agressividade no som em si depende do contexto. Dancehall, por exemplo, está ali nos 80 BPM, mas, dependendo de onde você encaixa ele no set, acaba sendo bem mais agressivo que funk ou techno. O que soa fora do padrão, no fim das contas, é o que surpreende no mix. O que quebra a lógica de uma maneira tão absurda que deixa a pista hipnotizada. Mas essa quebra de lógica tem que, ao mesmo tempo, conversar com o resto do set de uma maneira harmônica. Às vezes, o agressivo é tocar Bruxaria. Às vezes, é tocar o remix de Ragatanga do Deekapz. No momento certo, qualquer track pode ser letal.
Se alguém tentasse organizar seu set em lógica ou gênero, o que necessariamente ficaria de fora?
Amapiano com certeza ficaria de fora, apesar de ser um gênero que eu amo escutar.
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Agradecimentos à Ágata Cunha da Girahub pela conexão
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