Isa Silva e as histórias que uma roupa carrega

Isa Silva em entrevista ao deepbeep sobre moda, música, individualidade e as histórias que uma roupa pode carregar.

Isa Silva cria roupas. O que acontece com elas depois costuma ser a parte mais interessante.

Existe uma diferença entre criar uma roupa e criar uma mensagem. A primeira pode mudar de coleção, de estação ou de contexto. A segunda continua circulando muito depois de sair das mãos de quem a criou. Isa Silva parece interessada justamente nesse segundo movimento.

Ao longo dos anos, a frase “Acredite no Seu Axé” deixou de existir apenas nas roupas e passou a ocupar outros espaços. Apareceu nas ruas, encontrou novos corpos, ganhou novos significados e virou uma espécie de lembrete compartilhado sobre confiança, expressão e a forma como cada pessoa escolhe ocupar espaço no mundo.

Talvez por isso a conversa acabe falando menos sobre moda do que se poderia imaginar. Isa fala sobre individualidade, sobre a beleza de uma estética própria e sobre o risco de transformar diferença em padronização. Fala sobre roupas que acompanham pessoas reais e sobre a alegria de vê-las construindo histórias que ela nunca poderia prever.

A playlist que acompanha esta entrevista ajuda a entender esse universo. Entre Elza Soares, Gal Costa, Margareth Menezes, Liniker, Luedji Luna, Clara Nunes, Maria Bethânia, Timbalada, Olodum e outros artistas fundamentais na sua trajetória, Isa reúne músicas que mudam a postura antes mesmo da primeira batida terminar.

Na conversa com o deepbeep, ela fala sobre estilo, música e sobre o que acontece quando uma roupa deixa de ser apenas uma peça e passa a carregar uma mensagem.

Lísias Paiva, criador e editor

Durante muito tempo a moda brasileira ensinou muita gente a se esconder dentro da roupa. O que você sente quando vê alguém finalmente querendo ser visto?
Eu adoro fazer roupas. Me sinto uma contadora de histórias. Amo dividir isso com as pessoas, facilitando o guarda-roupa delas. Eu crio e elas adquirem as peças, levam para contar as próprias histórias vestindo no dia a dia.
Eu amo ver pessoas usando camisetas e jaquetas com a frase “Acredite no Seu Axé”. Elas ajudam a espalhar essa mensagem para que possamos acreditar mais na nossa energia.

Tem música que muda completamente a forma como uma pessoa ocupa o próprio corpo. Que tipo de som faz isso com você?
Eu amo música. Uma baiana nordestina já nasce dançando. Música é vida. Como diz o ditado popular: “Quem dança seus males espanta”.
Sou bem eclética. Amo desde a música erudita de Villa-Lobos até o pagodão baiano de paredão estrondoso. Me emociono com música. Até a natureza tem música: os passarinhos, o som do mar quando quebra na praia, a cachoeira. Toda essa energia musical vibra no nosso corpo, na mente e na alma.

Seu trabalho devolve cor, volume e presença para corpos que muitas vezes aprenderam a pedir desculpas por existir. O que a moda ainda entende errado sobre desejo?
Eu faço roupa para caber no corpo das pessoas. Por isso trabalho com tamanhos menores e maiores na coleção.
A moda é um setor maravilhoso quando é feita de maneira humanizada para as pessoas. É aí que ela chega à sua perfeição. A partir do momento em que impõe regras, deixa de ser moda e vira padronização. Essa não é a moda em que eu acredito.

Hoje parece que toda tendência nasce já pensando em foto, aprovação e repetição rápida. O que ficou previsível demais no jeito de se vestir?
A padronização. Somos pessoas únicas. Temos nome, RG e CPF. A repetição rápida provoca justamente isso: a falta de identidade. Ter estilo, ter essência, é isso que a moda tem de tão bonito. Precisamos respeitar e admirar quem tem uma estética autêntica e preservar a nossa individualidade.

“Acredite no Seu Axé” fala muito sobre presença. Em que momento uma pessoa para de tentar caber e começa realmente a ocupar espaço?
O mundo é perfeito para se viver. Como diz uma música que amo na voz de Gal, nossa rainha: “Não se assuste, pessoa,
se eu te disser que a vida é boa. Eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés.”
“Acredite no Seu Axé” é isso. Que sejamos mais humanos e mais leves. A vida é tão curta e passa tão rápido que devemos vivê-la da melhor maneira possível.

Qual foi a última vez que uma roupa mudou seu humor?
Todos os dias. A forma como me visto reflete como estou naquele dia. Isso diz muito. O corpo fala e a roupa expressa nossos sentimentos e vontades. Se vestir é um ato de autocuidado. Eu me visto para mim e para as pessoas. É muito bom ouvir elogios e se sentir bem. Também é muito bom se olhar no espelho e dizer: “Como sou bonita.”

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