Trinix e o som que muda quando encontra o público

Entrevista e playlist do Trinix para o deepbeep

Depois de transformar referências brasileiras em remixes globais, Trinix chega ao Brasil tentando entender o que acontece quando a música deixa a internet e vira troca física.

Durante muito tempo, a relação do Trinix com o Brasil existiu principalmente através de tela, algoritmo e imaginação. Referências brasileiras apareciam nos remixes, nos samples e no jeito como a dupla começou a construir uma linguagem eletrônica emocional moldada por circulação digital, memória coletiva e conexão imediata. Mas existe uma diferença importante entre trabalhar uma cultura à distância e encontrar um público que devolve energia em tempo real.

É justamente esse deslocamento que atravessa a primeira passagem da dupla pelo país. Quando uma música sai do telefone e encontra corpo coletivo, improviso e reação física, muita coisa muda. O que parecia funcionar apenas como imagem ou impacto rápido precisa sustentar presença, narrativa e conexão ao vivo.

O Trinix nasceu num ambiente onde a música precisa sobreviver primeiro ao scroll antes de chegar ao palco. Grande parte do público descobre suas faixas em vídeos curtos, cortes emocionais e momentos altamente compartilháveis. Ao vivo, porém, a lógica muda completamente. Energia, transição, improviso e sinceridade passam a ocupar mais espaço do que o impacto imediato da tela.

Essa tensão aparece também na forma como a dupla trabalha seus remixes. Em vez de apenas atualizar músicas conhecidas, o Trinix tenta preservar emoção enquanto desmonta estrutura, ritmo e contexto original. Talvez por isso faixas como “Emoriô”, escrita por Gilberto Gil e reinterpretada pela dupla depois da versão de Fafá de Belém, continuem circulando entre gerações, países e públicos sem permanecer exatamente iguais.

No dia 27 de maio, o Trinix faz sua primeira apresentação em São Paulo, em data única no Zig Studio. Um encontro que deve transformar a relação da dupla com um público que, até agora, existia principalmente através de streams, vídeos e circulação digital.

Na conversa com o deepbeep, Trinix fala sobre internet, improviso, reação coletiva, memória musical e sobre o momento em que uma música deixa de pertencer completamente ao artista para virar experiência compartilhada. A playlist “o som que sobrevive ao encontro” acompanha justamente essa lógica. Uma seleção entre Tame Impala, Fred again.., Juca Chaves, Maria Gadú e faixas autorais pensada para músicas que mudam completamente quando encontram uma multidão reagindo ao mesmo tempo.

Marcelo Nassif, sócio-editor

Vocês chegam ao Brasil depois de já terem usado referências brasileiras em alguns trabalhos. O que muda quando essa troca deixa de ser imaginada e vira encontro real com o público?
Até agora, nossa conexão com o Brasil passava muito pela música, pelos vídeos e pelo imaginário que criamos sobre o país. Vir tocar aqui finalmente torna tudo muito mais real e humano. A gente descobre os rostos, a energia, a forma como as pessoas vivem a música juntas. Isso muda completamente nossa percepção sobre as músicas que criamos com influências brasileiras. De repente, deixam de ser apenas referências artísticas e passam a virar uma troca direta com o público.

Grande parte do público conhece vocês primeiro pelo celular antes de ver um show ao vivo. No palco, o que deixa de funcionar como funciona na tela?
No celular, as pessoas geralmente descobrem um momento muito específico: alguns segundos fortes, muito visuais ou emocionais. No palco, precisamos construir uma história real e manter conexão durante o set inteiro. Algumas coisas que funcionam muito bem na tela deixam de ser suficientes ao vivo. Em show, energia, improviso, transição e emoção ocupam muito mais espaço. O público percebe imediatamente quando alguma coisa é sincera ou não.

O público brasileiro costuma reagir de forma muito física, intensa e espontânea. Vocês já viveram situações em que a reação do público mudou completamente o rumo de um set?
Essa vai ser justamente nossa primeira vez no Brasil, então ainda não vivemos essa conexão diretamente no palco daqui. Mas já sentimos muita energia através das redes e das mensagens que recebemos do público brasileiro. Sabemos que as pessoas vivem música de forma muito intensa e espontânea, então estamos curiosos para descobrir como essa energia vai influenciar nosso set ao vivo.

Vocês trabalham com músicas que já chegam carregadas de memória afetiva. Quando um remix funciona de verdade, o que sentem que conseguiram preservar e o que precisou ser quebrado?
Quando remixamos uma música conhecida, o mais importante para nós é preservar a emoção original. Geralmente é isso que faz as pessoas se conectarem com uma canção. Mas, para dar uma nova vida para ela, também precisamos aceitar quebrar certas regras, mudar ritmo, universo ou estrutura. Um bom remix, para nós, acontece quando as pessoas reconhecem imediatamente a alma da música, mas sentem que estão descobrindo ela de novo ao mesmo tempo.

Já aconteceu de uma música funcionar tão bem que vocês perderam completamente o controle sobre o que ela virou?
Sim, totalmente. Foi o caso de “Emoriô”, escrita por Gilberto Gil, depois reinterpretada por Fafá de Belém e por nós também. A música ganhou uma dimensão nova. Cada geração e cada artista acrescentam alguma coisa diferente. Quando uma canção começa a circular assim, ela escapa um pouco de todo mundo. E talvez seja justamente isso que a mantém viva.

Se precisassem apagar tudo e deixar apenas uma música para representar o Trinix hoje, qual ficaria?
Hoje provavelmente seria “Beautiful Day”. Essa música representa bem nossa identidade atual: misturar emoção, energia ao vivo e influências do mundo inteiro sem deixar de ser acessível e positiva. Também é uma faixa que cria conexão imediata com o público, independentemente do país onde tocamos.

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